Por Alexandre Honório - 02/10/2008

Qualquer morro, favela ou comunidade menos assistida, mesmo com seus inúmeros problemas, transborda uma atmosfera particular; singular, até. A Devotos sublimou ainda mais tal idéia, promovendo, no Alto José do Pinho, na periferia da Recife, um desses instantes que, sem quaisquer ressalvas, tem que ser considerado como único: a comemoração dos seus vinte anos de existência – e, porque não, militância – levou uma multidão ao centro de uma das comunidades mais carentes do Recife para ouvir e ver o que os “cronistas do lugar” e seus convidados pretendiam.
Passava das 18h quando, juntamente com um grupo de amigos, terminamos a subida ao Alto. Tarefa complexa, diga-se: o Alto José do Pinho é um aglomerado de casas, casinhas e casebres entrecortado por ruas, becos e vielas que, para os não-iniciados, se transformam em um desafio para qualquer GPS. Depois de rodar um pouco e encontrar um acesso que nos levasse ao local onde se realizaria o show, foi com surpresa que percebi que de algum modo tinha chegado “em casa”.
Enquanto tentava me acostumar com o fato de estar naquela outrora considerada “uma das comunidades mais carentes do Recife”, e igualmente me livrar do preconceito que investia sobre meus sentidos em decorrência de tal perspectiva – aquela de quem não conhece o morro, mas acha que sabe o que o morro é -, percebi o movimento de famílias; de jovens, adultos, idosos e crianças que buscavam um lugar privilegiado, um muro, um balcão, um espaço de onde pudessem assistir seus ilustres vizinhos e sua celebração.
Este é o termo: celebrar. Cannibal, Neilton e Celo Brown assumiram tal idéia ao pé da letra quando decidiram apostar seus esforços em um registro ao vivo de toda a festa – e demonstrar que um bom projeto, enquadrado em quaisquer das leis de incentivo cultural deste país, rende um ótimo resultado. Quando no palco, momentos antes de desferir sua primeira estocada no público que já se acotovelava para participar daquele momento, Cannibal percebeu o incomparável que ali se apresentava diante dele: “nunca fiquei tão nervoso em minha vida” e, como que para exorcizar quaisquer receios, emendou “Dia Morto” – com toda a relevância que os vinte anos de banda ensejavam.
Mal terminaram a música, o primeiro problema – algo natural, já que a gravação de um disco ao vivo é, como o futebol, uma caixa de surpresas: a produção achou por bem, já que as circunstâncias aparentemente exigiam, trocar a bateria da Devotos por uma nova, tinindo. Entretanto, como brincou Cannibal, sugerindo que “a ‘velhinha’ era melhor”, um dos pedais do equipamento resolveu sacanear com a banda. Enquanto a produção buscava um novo pedal, Cannibal agradeceu às pessoas que se deslocaram dos locais mais improváveis para subir ao Zé do Pinho – até Natal foi lembrada na conversa. Pedal substituído; pau na máquina: a banda mandou mais uma vez “Dia Morto” e tudo resolvido.
Como toda grande festa que se preze, a banda trouxe seus convidados especiais. Lirinha (com seus trejeitos de mamulengo) sobe ao palco para prestar sua homenagem aos camaradas do Zé do Pinho. Junto com a banda canta uma versão “cordeliana” de “Dança das Almas” e uma interessante releitura de “A Matadeira” – esta, sim, do Cordel do Fogo Encantado. Algumas músicas adiante, mais duas ilustres presenças: o Matalanamão e o grupo Afoxé Ilê de Egbá. O primeiro, a exemplo de Lirinha, fez uma “dobradinha”: “Sociedade Alternativa” e “Mim Daí” que botou a roda de pogo no lugar; o segundo quebrou um pouco a atmosfera hardcore que reinava, mas não foi menos relevante: demonstrou o diálogo que a Devotos mantém com a comunidade em suas mais diversas manifestações.
Tal diálogo ficou evidente enquanto Cannibal lembrava que o local onde a banda se apresentava fora disponibilizado como resultado de um entendimento com um dos bares da comunidade, já que este organiza um “pagode dominical” que acontece no Alto José do Pinho – ou “Alto do Zé do Pinho” como costumo chamar a comunidade. Mesmo a banda mandando momentos depois um “Tem de Tudo” envenenado: “Tem Afoxé/Tem Punk Rock/Tem Rock’n'Roll/E Tem a Porra do Pagode” para a alegria da moçada, tudo ficou certo.
O primeiro movimento que indicava o encerramento, em grande estilo, da festa ficou com a Devotos e Clemente, ex-Inocentes. “Alien” e “Pátria Amada” ganharam outros contornos com os dois. “Alien” foi emblemática: uma síntese/carta de princípios da Devotos que ficou ainda mais raivosa entoada pelo público. “Pátria Amada”, por sua vez, soou como espécie de “hino com ares de acerto de contas com o passado” de um país que busca ainda descobrir que os seus merecem mais – mesmo o contexto atual, como frisou Clemente, sendo outro.
No fim, “Punk Rock, Hardcore, Alto José do Pinho” lavou a alma do público e pariu uma das rodas de pogo mais incríveis que pude ver – até porque nem fudendo me meteria a encará-la. Cannibal, Neilton e Celo Brown, se depender do sorriso de satisfação dos que deixaram o morro – ou mesmo aqueles que os têm como parte indissociável daquela comunidade -, terão muito mais anos de estrada e outras histórias para contar. O Alto Zé do Pinho reforçou com a noite de celebração em torno da Devotos a necessidade de outros olhos para o morro; um olhar menos imperativo e que enxergue sua diversidade.
Fotos: Assis Lima
Hugo Morais comentou em 6/10/2008 às 8:32 am
Deu vontade de presenciar isso. O Devotos deveria vir mais aqui…
Marcio. comentou em 7/11/2008 às 10:38 pm
Punkrockhardcoresabeondeéquefazlánoaltozédopinho!É do caralho!
Dá-lhe Devotos.
fabio maciel comentou em 29/1/2009 às 5:58 am
muito bom. os devotos são do caralho. o yle di egbá é do caralho. o estrela brilhante é do caralho! o alto ze do pinho tem carga de centro cultural dos melhores.!
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