Por Pablo Capistrano - 23/06/2007

Paris Hilton foi presa. Foi pega dirigindo embriagada, coisa que, nos Estados Unidos parece que dá cadeia. Depois de sair de um importante evento social, a moça dirigiu-se à prisão aonde iria passar algumas noites. A trajetória dela até o local de cumprimento da pena foi devidamente filmada e deve estar à disposição no Youtube. Seu advogado disse que ela iria aproveitar o tempo para pensar o que poderia fazer para transformar o mundo em um lugar melhor.
Mas… antes do fim do período de reclusão ela foi libertada, sob alegação que não havia se adaptado a cela. Especula-se que na verdade, a moça não teria se adaptado à questão que se propôs a responder: o que fazer para transformar o mundo em um lugar melhor? A contemplação do grande vazio que teria surgido como resposta a essa inquietante dúvida teria sido suficiente para levá-la, como em um koan Zen Budista; ao limite de uma experiência mística. Esfera muito perigosa para qualquer celebridade que faça jus a esse nome.
Dizem que quem primeiro usou o termo “celebridade” no sentido que hoje é comum foi Andy Warhol, o artista plástico norte americano que desenvolveu a Popart. Nas psicodélicas festas da factory (nome do seu estúdio em Nova York) nos anos sessenta, Warhol costumava a se referir a seus amigos e admiradores com a alcunha de “celebridade”; “Oi, celebridade! Como você está?”; algo do tipo.
Esse era o termo para designar a fauna de travestis, artistas de vanguarda, hipsters, proto-punks, drogados e vagabundos de todo tipo que circundavam o ambiente underground de Nova York nos sessenta e setenta. Mas as raízes da moderna idéia de “celebridade” remontam à Europa do século XVIII. Naquela época o rei era a grande celebridade e quem orbitava ao seu redor, ou tinha a sorte de nascer com seu sangue, também ganhava um quinhão das delicias de ser um sujeito público.
Na verdade a vida dos aristocratas no antigo regime era absolutamente pública e cercada de rituais. O almoço, o banho (quando acontecia), os passeios, os jogos, as caçadas, tudo era cercado de solenidade, pompa e circunstância. Não havia a rigor uma distinção entre uma reunião de trabalho do ministério real e um happy hour, com um vinhozinho, uma vitela e um bom concerto de câmara.
A vida privada e a vida pública se misturavam e os ritmos ordinários do cotidiano real eram pautados pela presença sempre constante do olhar de seus súditos. Até o ato real de defecar fazia parte desses rituais. Era comum que o rei, sem ironia alguma, usasse o vaso sanitário literalmente como trono, para despachar uma ou outra ordem, ou assinar algum decreto real.
Mas os EUA, um país de puritanos degredados e de imigrantes, nunca teve tradição suficiente para formar sua própria aristocracia, então, criou o conceito de “celebridade” e elegeu Paris Hilton como sua rainha na estação. Aliás, o ato de defecar ainda é, ao contrário do tempo de Luis XIV, a última grande fronteira a ser quebrada pelas celebridades contemporâneas.
Só quando estiver a disposição no Youtube o momento privado de excreção intestinal de Paris Hilton, no seu maravilhoso vaso de porcelana, é que o ciclo das celebridades estará completo e nós poderemos dizer com orgulho que o homem comum, o burguês banal, o ricota vazio e incompleto, incapaz de responder a mais rudimentar pergunta existencial (“o que eu estou fazendo aqui?”) vai estar definitivamente elevado à categoria de rei.
Já folheamos na “Caras” nossos aristocratas instantâneos, comendo, jogando tênis, bebendo, passeado de iate, casando, tendo seus bebês, brigando na porta de boates, fazendo sexo no mar, ou em quartos de hotel, cheirando cocaína e se enforcando em quartos de hotéis.
Todas as dimensões cotidianas e banais da nossa curta e miserável existência já foram filmados, fotografados, divulgados em colunas sociais e revistas de fofocas e comentados por especialistas em programas televisivos cujo tema fundamental é o mais profundo e simples vazio. Vivemos uma época de vazio e silêncio.
Uma época na qual o nada da vida de cada um pode ser levado ao status de acontecimento. Esse é o mundo Paris Hilton em que eu e você nascemos, amigo leitor. Um mundo sinistro, muito sinistro.
Alexandre Honório comentou em 23/6/2007 às 9:32 am
Estava trabalhando em um texto sobre isso para o mestrado. Este culto ao vazio das celebridades e o efeito deste é interessante – para não dizer preocupante.
Gostei muito do artigo. Essa “disposição à exposição” de muitos “midiáticos” torra a paciência.
Tiago Lopes comentou em 25/6/2007 às 9:26 am
Pois é, a mais-ou-menos gostosinha aí de cima já aparece em meio mundo de publicação e agora no Disruptores. Tudo bem que, aqui, ela está sendo usada como exemplo para gerar uma discussão sobre o vazio disso e daquilo outro e talz, mas ainda assim ela arranjou mais um veículo pra ser exposta (e o Disruptores alcança rincões inimagináveis!). Ainda acho que ignorar completamente essas coisas é o melhor a ser feito.
Alexandre Honório comentou em 25/6/2007 às 9:53 am
Talvez, Tiago, a grande diferença aqui não seja a análise de Paris Hilton, mas o fenômeno por trás dela.
A exposição a qual você se refere tem dois vetores: consumidor e objeto de consumo. Sem qualquer destes dois elementos, a exposição deixa de ter relevância.
Uma das marcas de sua geração, Tiago, é a superficialidade – você é uma das raras exceções à regra; esta “cultura da superfície” é a matriz para que criaturas como Paris Hilton pululem por aí…
O texto de Pablo é bastante ilustrativo quando aponta que vivemos em “uma época na qual o nada da vida de cada um pode ser levado ao status de acontecimento“.
Ignorar, acredito, nunca foi alternativa para que o conhecimento humano fosse difundido…
Carito comentou em 6/7/2007 às 8:12 am
Hey Don Pablo! Seu texto inspirado me pirou um outro assim e assado: De Paris,Texas e Paris Hilton. Postei lá nos meus devaneios poelétricos…
Carito comentou em 6/7/2007 às 8:13 am
Corrigindo o pretexto: De Paris,Texas A Paris Hilton.
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