Por Alexandre Honório - 18/08/2008

Nos grandes festivais, na maioria das vezes, são os detalhes, as particularidades – ou mesmo a extravagância -, que terminam por justificar certas combinações. A segunda noite de Mada 2008 teve na extravagância de seu lounge eletrônico e em algumas de suas atrações nos palcos principais os motivos para que a noite não descambasse para algo, digamos, monótono; insípido, até.
Logo no início da noite, confesso, fiquei dividido entre conferir a discotecagem do pessoal do Lo Que Sea e a apresentação do The Volta. Bastaram algumas canções deste último, no entanto, para decidir pelo que acontecia na tenda: a atmosfera de empatia que se desenrolava com a Lo Que Sea e sobrava nestes faltava ao The Volta – e, pasmem, estamos falando de um grupo que pura e simplesmente sapeca seus CDRs nos toca-discos e fica pulando como que ligados em Duracell.
Já o The Volta, acredito – com piada pronta e tudo -, deveria seguir sem escalas de volta pro estúdio (ou à velha prancheta) e se interrogar sobre suas pretensões. Com uma maçaroca sonora sem qualquer brilho, a banda patinou no palco com uma pirotecnia insossa, com um som sem qualquer identidade e, pra arrematar toda a “performance”, mandou uma versão dispensável de Enter Sandman, do Metallica. No fim, terminado o The Volta, sem qualquer cautela ou dúvida, ficou a sensação de que conferir a apresentação de Madame Mim na tenda eletrônica não seria de todo ruim.
Mas, antes disso, teve a Lunares. Vou deixar pra escrever uma crítica sobre o Lunares em uma outra ocasião. A explicação? Era visível que algo não estava ajudando os caras – uma apresentação que transitou entre o “esquecível” e enfadonho – e, bem, não chamou a atenção do modo como a banda gostaria. Segundo Foca, com quem conversei enquanto perambulava pelo backstage, a banda estava tomada por um nervosismo evidente – daí a performance meia-boca do vocalista Rodrigo. Com isso, a apresentação foi pro saco e ponto. Uma última observação: a citação a Lies, do Arcade Fire, arrematou bem o fim da apresentação. Fica pra próxima – com direito a Maracujina pra não amarelar (se este foi o caso, claro).
Corta. Logo nos primeiros acordes do Subaquático percebi que algo mais interessante – pela bizarrice da situação, claro – acontecia na tenda eletrônica. Antes, porém, me decidi por uma chance para os baianos, mas, por mais esforço que empregasse, por mais paciência que me sobrasse, terminei conferindo os “atributos” de Madame Mim que, naquele instante, levava à loucura a tenda eletrônica – para minha completa incompreensão, vale salientar.
No caminho de volta aos palcos principais, me perguntando porque diabos a calça legging e o termo bi-curious se transformaram em marcas de uma geração, ouvi os acordes da Poliéster. Os gaúchos, como foi escrito por aqui na nossa “apresentação” das atrações deste Mada, detém uma sonoridade envolvente, mas, quando empregamos a velha combinação letra+música, bem, fica como o tecido: multiuso, mas, sem um norte, descamba pra qualquer coisa.
E chegamos à Síntese Modular. Se o Rio de Janeiro nos brinda todo o ano com bandas inócuas e estrategicamente preparadas para “estourar” no Mada, porque os locais não podem aproveitar a mesma “sacada”? A impressão que tive assistindo à apresentação dos caras é que, fosse nos arremates finais da década de 80, a banda teria algum futuro; hoje, por sua vez, com uma sonoridade datada e limitada, não se sustenta em pé – senão pelos saudosistas, amigos e acríticos de plantão. Mas, claro: entre a Síntese Modular e o “lixo metido a avant-garde” carioca com que somos presenteados anualmente, fico com os primeiros.
Curumin veio em seguida. Não fiquei surpreso quando o som resolveu “empombar” – algo que se repetiu durante todas as noites de festival -, mas, foi visível o desconforto do músico (enfiado em seu maquinário) com os atropelos. No fim, com um show apático, Curumin conseguiu alguma redenção quando emendou uma versão swingada de Feira de Acari, funk onipresente do DJ Marlboro. Foi isso e Curumin fez uma passagem que pode ser tida como fast-forward.
Com os Autoramas – e isso já foi dito – não se deve mudar time que está ganhando; no caso, formato, claro: a banda já trocou de baixista umas três vezes, mas, a performance continua impressionando. Gabriel Thomas e seus comparsas fizeram o mesmo show que eu, você e Hugo Morais assistimos tantas vezes. Diferença importa? Não no caso do Autoramas: de longe, entre as independentes que se apresentaram na sexta-feira, a banda foi sem dúvida a que retirou a melhor reação do público.
O Pato Fu trouxe aquele show fofo, divertido, açucarado e insuportavelmente doce tão particular para a banda. A vocalista Fernanda Takai tem um domínio de palco que beira o hipnotismo – se fosse um bicho de estimação, seria aquele mais felpudo disponível na praça. Com toda a “categoria” que carregam, a banda carregou o público na mão durante a apresentação – com direito a coreografias e tudo que o mundo encantado do Pato Fu enseja. Eu, da minha parte, já estava tomado pelo mau humor.Talvez por isso não tenha aturado tanto quanto gostaria o show de Lobão, encerrando a maratona da segunda noite – menor, claro, mas não menos desgastante. Com uma boa combinação de hits e canções de seus álbuns mais recentes e independentes, Lobão soube administrar a platéia que segurou as pontas e a paciência para vê-lo. Senti falta da garrafa de vodka que costumava levar pro palco; senti falta da verborragia que o fazia um pária entre os seus. Na verdade, mesmo quando me dirigia à saída, a impressão que tinha é que o tempo finalmente tinha vencido o velho lobo: faltou, ao menos para mim, a transgressão que sempre o marcara.
No fim, um bom encerramento para uma noite que encontrou alguma regularidade na irregularidade que foi sua marca mais evidente.
leonardo seabra comentou em 20/8/2008 às 4:11 pm
Autoramas foi o melhor da Sexta e o cretino do Lobão revelou a bosta que ele é.
gabriel comentou em 20/8/2008 às 6:45 pm
Excelente texto, cara.
Carlos comentou em 2/9/2008 às 8:30 am
No Show do Autoramas o baixo tocado por aquela coisa fofa da baixista falhava o tempo todo, som merda do MADA.
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