Reportando

“‘A cara do Rock’ não existe: ninguém aqui é a cara do rock”

Por Equipe Disruptores - 27/05/2008

Jomardo tá tranquilo. Produtor do principal festival de música do Estado, Jomardo Jomas desvia da polêmica em torno da mudança de datas do Festival Mada com certa naturalidade. Apoiado na primeira década de existência de sua criatura, o produtor parece inabalável: nos temas espinhosos não desequilibra; na defesa de sua cria cresce. Sem se abalar com as alfinetadas do “concorrente”, Jomardo diz fazer tudo pensando na efervescente, ainda que letárgica, cena local – sem esquecer dos dias em a palavra “cena” trazia certo ar de improbabilidade. Na entrevista a seguir Jomardo discorre sobre a relação de comensalismo entre os festivais independentes e os órgãos públicos que gerem a cultura do país, as nuances de humor do público local e, de quebra, adianta parte de seus planos para o MADA deste ano, deixando no ar algumas pistas dos shows que poderão ser conferidos pelos natalenses na Arena do Hotel Imirá entre os dias 14 a 16 de agosto próximo.

Alexandre Honório – Como se deu a mudança da data do festival MADA? Foca disse que o Festival DoSol sequer foi informado ou consultado sobre uma possível mudança.

Jomardo Jomas - A idéia inicial era fazer em setembro; entre setembro e novembro. Por causa das chuvas, né? Nove anos amargando chuva pra um evento como o MADA é muito desgastante. Teve uma reunião no Goiânia Noise no final do ano passado, que eu não participei, na qual foram definidas as novas datas. E eu vi depois – porque a gente tem uma lista de discussão na internet – que o Festival DoSol tinha mudado pra julho. Então agosto ficou livre, pensamos. Na hora que vi a mudança, fechei o MADA pra agosto: já que estava livre não ia bater de frente com o DoSol que ia ser em julho e eu tinha que fazer essa mudança porque não compensava mais fazer um evento como o MADA em maio. Se tivesse feito em maio esse ano eu estaria preso mais uma vez ao problema das chuvas. O evento completa dez anos e acho que tinha que ter essa mudança. Mas em hora nenhuma eu quis bater de frente com ninguém não: quando eu descobri que estava vaga a data, aí eu coloquei – mas só depois que descobri que estava vaga…

Honório – Aí cabe uma reflexão: dois festivais em um intervalo tão curto não provocaria um eventual esvaziamento senão de um do outro? Inevitavelmente alguém não sairia no prejuízo por essa proximidade entre datas?

Jomardo – Eu acho que não: o DoSol hoje tem uma proximidade maior com o público mais indie. A gente tem também, mas temos um público mais amplo – parte dele até não vai ao DoSol. Eu acho que não atrapalharia não…

Hugo Morais – Um dos pontos das reuniões da ABRAFIN não seria o estabelecimento de um calendário dos eventos de seus associados ou os festivais podem escolher as datas como quiserem? Não tem um estatuto que rege isso?

Jomardo – Não. Em relação a isso não. A gente procura não chocar as datas para não ter fragmentação de mídia, mas cada um sabe o seu cada um. É tanto que o Calango já mudou, o Porão do Rock já mudou, o do Tocantins já mudou – mesmo depois de duas reuniões. Quer dizer: você é produtor e você sabe o que é melhor pro seu festival. Além do mais, queira ou não queira, a ABRAFIN nasceu depois de todos os festivais: se você for refletir um pouco, os festivais têm prioridade na adaptação ao que consideram melhor. A ABRAFIN existe pra você tentar organizar o meio, mas é lógico que você tem uma margem que pode variar. Eu não faria na mesma data do DoSol, até porque eu não acho justo, perderiam os dois.

Hugo – Quer dizer que os festivais ainda estão acima da ABRAFIN?

Jomardo – Não. Não estão acima, mas a gente tenta ficar dentro de um cronograma pré-estabelecido. No entanto, se alguém tiver algum tipo de problema, é lógico que não vai deixar de adaptar seu evento pra uma outra época se não está dentro do cronograma. O importante é que você não entre em choque com um outro evento dentro da sua cidade. A minha grande preocupação também foi o seguinte: quando eu mudei a segunda vez o MADA pra 14 a 16 [de agosto], ficou na mesma data do Calango: isso gerou um problema porque você tem uma divisão grande de mídia. No mesmo período tem a reunião da ABRAFIN e aquela coisa toda, mas se eu não fizesse isso – se eu tivesse mantido de 7 a 9 de agosto – correria o risco de ter um prejuízo grande. Entendo que não é justo e expliquei isso: o Calango acontece em Cuiabá, a 4000 km de distância e a mídia que vai pra lá normalmente não é a mesma que vem pra cá. Apesar de tudo, o Calango já mudou a data porque conseguiu um lugar melhor. Então vejo que você tem essa possibilidade; não tem esse radicalismo todo não…

Honório – Saindo um pouco do foco da ABRAFIN e entrando no nosso estado. Talvez você não considere evidente, mas nesses dois últimos anos é visível uma certa rivalidade entre os dois festivais; é perceptível certa atmosfera entre MADA e DoSol: uma coisa do tipo “mostra o teu que mostro o meu”. Na sua opinião isso não diminui mais do que ajuda? Digamos melhor: o MADA e o DoSol são duas grandes vitrines, não só para o cenário independente do país, mas também para as coisas que acontecem aqui. Esse tipo de rivalidade, mesmo que seja apenas aparente, não dificulta, não causa entraves, em vez de mobilizar esforços para a construção de uma cena?

Jomardo – Eu acho que da parte do MADA nunca teve esse problema não, Alexandre. Se existe algum tipo de rivalidade deve ser do lado de lá pra cá. Porque tudo que se faz do lado de lá se compara com o MADA. Eu não comparo o MADA com nenhum festival: temos o nosso. Agora temos dois; temos três. Acho que não existe isso, acho uma coisa desnecessária. Prejudica mais do que ajuda, mas em compensação a gente hoje tem dois festivais, tem outros menores até… É preciso deixar bem claro também: essa galera mais nova que está começando tem que botar na cabeça que eles não inventaram o fogo e nem a roda, quando eles chegaram já estava uma coisa bem armada. Bem mais fácil de você montar. Então você não pode bater no peito e dizer: “Eu fiz um festival sem patrocínio, agora eu tenho moral”. Eu fiz três. E quando eu fiz três, foi com uma estrutura que nem a Ribeira conhecia. Nunca tinha existido uma estrutura daquela. “Ah, mas eu não tinha dinheiro para trazer a imprensa”. Eu trouxe todos os veículos, nos três eventos que eu fiz. Então a gente tem que ter cuidado na hora de fazer comparação porque ninguém, como disse, inventou o fogo e a roda. Imagine você fazer um evento desse há dez anos, não existiria pra ninguém. Hoje em dia a gente é respeitado no país inteiro. Então você tem que ter muito cuidado nas suas colocações, e principalmente numa que foi feita: porque o MADA usa as leis de incentivo e não projeta. Porra, se tudo que aconteceu depois do MADA foi graças a toda essa projeção que a gente conseguiu. Senão a gente ainda estava preso, vendendo abadá de bloco de Carnatal como alguns vendiam antes de se rotular rock’n'roll. Tem que ter cuidado com essas colocações, tem que ter muito cuidado. Até porque essa história de, como eu vi: cara do rock… Cara do rock aqui em Natal só tem Raul [vocalista da banda Raul & a Alcatéia Maldita]. O resto é tudo mutação; não existe. “Eu sou a cara do rock”, não existe. Ninguém aqui é a cara do rock, só Raul. A vida dele foi trinta anos dentro de uma banda de rock com a cara do rock, o resto é mutação. O resto gosta, tem interesse de fazer a coisa acontecer, mas a cara do rock em Natal é Raul. Não tem nem o que se discutir, o resto só aproveita as chances: quando banda autoral era bom, era banda autoral; quando era bom banda cover, era banda cover; quando festival virou um grande negócio, festival é legal; quando Carnatal era um bom negócio, era bom negócio ser do Carnatal; então, isso não é a cara do rock

Hugo – Será que vai chegar o dia dos festivais independentes se sustentarem?

Honório – Acrescento: o conceito de festival independentes não está equivocado do ponto de vista…

Jomardo (interrompendo) – Eu fui a uma reunião agora em Porto Velho, em um seminário que participei, e fiz essa colocação. Vamos acabar com essa história: festivais independentes no seu formato, em privilegiar bandas novas, mas você não é independente em hipótese alguma. Você depende de muita coisa. Ou depende de uma licença da prefeitura, ou depende de patrocínio. Não adianta você querer bater no peito, tirar onda e querer fazer um festival sem nenhum tostão. Pô, o festival caindo aos pedaços, som não presta, banda não tem repercussão, não tem imprensa, não tem nada. Peraí meu amigo, as bandas estão querendo mais do que isso. Então não existe essa coisa de independência total, existe independência no conceito. “Não, eu quero meu festival com 70% de bandas novas”, daí tudo bem. Daí você é um festival que privilegia essa nova cena, mas festival independente é difícil, tem que ter patrocínio. E respondendo a sua pergunta, é impossível você fazer um evento se não tiver leis de incentivo, até porque essa questão do incentivo a cultura se massificou entre as empresas. Você manda um projeto, a primeira coisa que eles perguntam: “tem lei de incentivo? Não? Amigo, então a gente não pode nem receber”. Não tem interesse. Qual o evento neste país – pequeno, médio ou grande – que funciona sem leis de incentivo?

Honório – Então isso não representaria um vício? As leis de incentivo que deveriam ser um pontapé para criar uma espécie de cultura de fomento, de comparecimento da ala mais ligada às empresas, não teria ser tornado uma muleta?

Jomardo – O próprio governo é quem mais utiliza leis de incentivo. Então quem começou a colocar muleta foi o próprio governo. Os grandes projetos dos governos – federal, estadual e municipal – são através de leis de incentivo. Então imagine você: se até governo – que tem verba própria e toda disponibilidade de estrutura – não consegue viabilizar seus eventos sem as leis, o que dizer dos festivais e outros eventos… Não existe; isso é pura balela. A ABRAFIN está negociando muito bem em relação a isso: conseguimos algumas empresas que não são por leis de incentivo. Mas isso é um processo muito lento, porque a maioria das empresas hoje em dia utiliza leis de incentivo. É uma realidade, se é bom ou se é ruim não sei. Tem seus pontos favoráveis, tem seus pontos positivos e negativos. Mas não se pode fugir da realidade. Quero fazer meu evento, quero que a banda toque num bom palco, com um bom som. E isso tem graças às leis de incentivo e aos patrocinadores que nos apoiam através das leis.

Honório – Com a mudança da data do MADA para agosto, você enfrentou do DoSol essa resistência. Mas da parte da ABRAFIN, mais especificamente dos filiados da região Nordeste, excluído o DoSol, você sentiu alguma reação?

Jomardo – Não. Isso inclusive foi até colocado que na época que o DoSol rolava aqui, rolava o Ponto CE no Ceará… A primeira coisa que falei foi com Maurílio do Ponto CE: ele disse que não atrapalhava em nada, absolutamente nada, até porque a data pra ele não era uma data boa para parcerias. Eu tive essa preocupação, é lógico: se o MADA hoje está um pouquinho maior, não significa dizer que eu não me preocupo com quem está começando com festival. Eu sei o que é isso: o MADA foi pequeno. Mas eu acho que se criou uma polêmica desnecessária em relação a isso. “Não pô, dois festivais, próximos um do outro, pode atrapalhar…”. Mas tem gente que bate no peito e diz que não tem nada a ver; que usa essa palavra estética; porque hoje todo mundo é estética: a minha estética é diferente. Então pronto, se a sua estética é diferente então não vai ter problema nenhum. Eu acho isso uma grande balela também: é tudo festival da mesma coisa, com as mesmas bandas na maioria das vezes. Só que um é menor, o outro maior.

Honório – Você falou que a grande mudança foi por causa das chuvas. Mas por que 10 anos para tratar essa mudança? No sexto ano, no quinto ano, sei lá, você já não tinha um panorama claro dos problemas?

Jomardo – Eu acho que porque foi uma data emblemática: os 10 anos. Queria fazer uma coisa legal; dar uma mudada. Eu já tinha essa idéia de que ia fazer alguma coisa. Ou sair da Ribeira, que até então eu imaginava que fosse ficar na Ribeira o tempo todo… Mas a minha idéia era essa: 10 anos, vou mudar. Até porque essa mudança se mostrou difícil; o MADA ficou marcado em maio. É tanto que eu recebo muito e-mail: “Pô Jomardo, o MADA acabou, nem rolou esse ano”. Eu digo: “Não, vai rolar em agosto, se você lesse jornal ou entrasse na internet você ia saber que vai rolar em agosto”. É desgastante para a banda, desgastante para a produção, desgastante para o público você mudar. E a gente tem uma grande festa aqui que é o Carnatal. E queira ou não queira quanto mais próximo ao Carnatal mais complicado fica você fazer um evento grande. E a gente não pode ser hipócrita e dizer: “Não, meu evento é outra história; meu evento tem uma estética diferente do outro”. Não existe: o público aqui em Natal gosta de se divertir. Existe uns 100 gatos pingados que adoram ver bandas novas, mas o resto vai para sacanagem, para curtição. Pode ser no Capim Cubano que deu 17 mil pessoas – inclusive vi muita gente da comunidade tanto do DoSol como do MADA que estava lá. Quer dizer: que público indie é esse que vai para Capim Cubano? Eles estão a fim de curtir, cara; público gosta de curtir. Tem um público que vai ávido de ver coisas novas, mas é pequeno: não chega nem a mil. O que a gente tem que fazer é oferecer cada vez mais alternativas para esse público ir se acostumando com a novidade, mas público é uma coisa difícil. Se você for se orientar pelo gosto depende muito do momento, não é tão simples, então tem que ter esse cuidado para não cair na mesmice; tem que tentar juntar os públicos para aproveitar ali. Teve um comentário – acho que de Hugo -, falando sobre isso: que o público vai para se chapar, se divertir, lembra uma ou outra banda, ou então escolhe só aquela banda para pogar, depois não quer nem saber. Agora é lógico que você não pode se vender: “ah, já que o público não vai mesmo, vou fazer uma coisa como todo mundo faz”. Não, não é a toa que os festivais estão crescendo. O MADA cresceu, o DoSol tá crescendo. Esse trabalho feito no DoSol Rock Bar é muito legal. Acho que esse é o ano que o MADA vai ter mais bandas locais, porque tem uma safra de um monte de banda. Isso é legal para a cidade. E como eu também vou fazer uma retrospectiva de alguns shows legais que já passaram pelo MADA, então você junta essas novidades com o que já passou aí já tem um número bem maior.

Honório – O MADA já definiu um cronograma para as seletivas? Como vai transcorrer?

Jomardo – As datas a gente até já fechou: nos dias 25 e 26 de julho, aqui. Como a gente recebeu muito material, então a gente vai aproveitar a seletiva justamente para o público e parte da crítica daqui de Natal escolher essas duas vagas que deixaremos disponíveis para a seletiva. Acho bom o público e a crítica escolherem. “Ah, essa banda está legal para participar do festival”. Vai ser aberto ao público, não vai ter cobrança. Então nessa seletiva vamos escolher essas duas bandas. Lá no Rio funciona muito bem essa questão da seletiva, você até democratiza a escolha das bandas. O próprio público escolhe…

Honório – Já foi dito e batido que o Rio de Janeiro é o “túmulo do rock”. O que eu vejo com relação às edições do MADA é que muitas bandas vêm do “túmulo” pro festival e, depois disso, nada. Por exemplo, a tal R Sigma tocou no MADA e só; no circuito de festivais, nem sinal…

Hugo Morais – Manacá, Reverse…

Jomardo – O Reverse acabou.

Alexis Peixoto – Foi pro túmulo mesmo.

Honório – A gente estava comentando que tem bandas de outros lugares no festival, mas muitas bandas do RJ. Isso seria um reflexo do fato de você estar temporariamente no Rio?

Jomardo – Não, teve uma época que eu nem estava. Acho que era por causa da quantidade de material que a gente recebia. Mas esse ano acho que é o ano que vai ter menos bandas do RJ, por incrível que pareça. Até porque eu vou abrir mais espaço para bandas locais mesmo. Mas isso de bandas que surgem e desaparecem, se a gente analisar bem, não é só no RJ. Recife também teve aí uma…Rádio de Outono, onde é que está? Sumiu, né? Várias outras bandas passaram pelo MADA e essa era a nova hype pernambucana. Sumiram também. Esse mercado é muito rápido. O túmulo chega mais rápido do que a gente imagina.

Honório – Mas das independentes que tocaram no MADA, a grande maioria delas prevaleceram. Assim, com exceção de algumas bandas do RJ, temos exemplos de bandas que tocaram no MADA e se seguram nas tamancas até agora.

Jomardo – Os estados maiores que tem mais bandas estão arriscados a gente ter mais essa notícia de que bandas acabaram. Você vê o Mato Grosso: mandou Vanguart, Macaco Bong. Os caras estão bem, circulando o país inteiro. Vi um show agora em Porto Velho do Macaco Bong, e o povo estava ensandecido. Mas em Mato Grosso eles fizeram um trabalho muito legal em cima disso. O governo, a prefeitura, através de fundo, investiram para que as bandas viajassem. Aí onde entra a velha história: vale a pena esse investimento? Porra, a cena hoje mais falada é a do Mato Grosso, nesse circuito que eu estou andando. Todo mundo está esperando a próxima banda de lá. Aí volta aquela questão: porra, as leis de incentivo, será que você vai conseguir andar sem? Tem que ter investimento do poder público de alguma maneira. Você acha que o Mangue Beat foi financiado para ir pra Europa por empresários? Não foi, a gente sabe que não foi. Foi o governo que distribuiu panfleto e tudo. Então tem que ter esse investimento. Se o governo não tem estrutura na sua área de cultura para perceber e ter visão para fazer os investimentos certos, então meu amigo, a coisa mais fácil para o governo é lei de incentivo. Cada produtor monta o seu projeto e tenta divulgar.

Hugo – Vamos esclarecer outra polêmica também entre a rivalidade MADA e DoSol. Falam, a gente escuta, que às vezes rola um boicote. Toca no nosso, mas não toca no deles. Isso já aconteceu?

Jomardo – Não, no MADA, não. De jeito nenhum. Nunca teve não. Que eu me lembre não, nenhuma banda que tenha tocado lá e não tenha tocado no MADA. Até porque eu tive acesso a programação do DoSol quando ia fazer antes, em julho, e boa parte das bandas ali vão estar no MADA também. Isso seria uma burrice. A gente já tem uma cena que tem um certo limite e eu vou limitar mais ainda? Vou colocar quem, então? Isso é conversa. Não tem de jeito nenhum. É lógico que se tiver uma atração eu não vou repetir. Por exemplo, o Mundo Livre toca lá e dois meses vai tocar no MADA. Aí, não.

Honório – A pergunta que vou fazer agora é uma alfinetada: O MADA se ressente de em dez anos não ter revelado uma banda norte-riograndense? Por exemplo, o Abril Pro Rock revelou Nação Zumbi e Mundo Livre. O MADA já vai com dez anos, mas nenhuma banda local teve na vitrine do MADA o pontapé inicial.

Jomardo – Isso é um problema das bandas, não do festival. Eu entendi o que você quis dizer. Todo mundo diz: “Pô, se o MADA fosse em outra cidade como João Pessoa, que teve uma cena bem forte uma época, era outra história completamente diferente”. O problema é que faz muito tempo que as bandas daqui além de não descobrirem a própria identidade, não circulam. O Volver, por exemplo, eu fui ver no Calango (MT). Os caras andaram 62 horas de ônibus para fazer um show de 30 minutos e pegar o ônibus de volta. Aí eu disse: “Vocês vão voltar de ônibus?” E os caras: “Vamos, mas a gente conseguiu um desvio e a gente só vai andar 52 horas”. Porra, grande vantagem! De sessenta para cinqüenta. (Risos) Mas isso é vontade de circular. Agora é que a gente começou, com uma ou outra banda, a circular. Eu indiquei Bugs pra Virada Cultural, mas tava tudo ali, tinha um dinheirinho garantido… Agora, neguinho investir para circular? E banda não se lança em festival não. A banda aparece, mas você tem que ir pra palco.

Honório – Você acha que existe uma apatia das bandas locais em relação a se auto-promover?

Jomardo – Sem dúvida. O MADA é um puta palco, é uma vitrine maravilhosa pra você aparecer, mas se você não sai para nenhum lugar o festival não tem como chancelar e dizer: essa banda agora vai estourar. Se a banda não circular, não fizer investimento eu acho muito difícil. Porque os exemplos que a gente tem são de bandas que apareceram num festival e estão circulando. A grande aparição do Los Porongas foi aqui no MADA. Mas depois de tocar aqui os caras tocaram em quase todos os festivais e estão em SP. O Vanguart também teve uma abertura monstruosa aqui no MADA, mas eles já tocaram em quase todos os festivais. E foram por conta própria, agora é que eles estão começando a cobrar uma ajuda, um cachê para viajar. Mas é justíssimo, porque hoje em dia já tem um nome. Traz um público.

Honório – Alexis lembra do Vanguart no MADA…

Alexis – Não lembro nada. Não vi no MADA não, e se vi não lembro…

Honório – Foi Alex de Souza, então, que quando a banda começou a tocar disse: “Que banda da porra!”. Quando eles começaram a tocar só tinham umas 50 pessoas na frente.

Jomardo – Eles abriram. Para você ver, eles estavam tão a fim de tocar que quando entraram em contato comigo, o Pablo, que faz o Calango, disse: “Jomardo, tem uma banda muito legal aqui”. E eu disse: “Pablo, eu já fechei tudo, só se a banda quiser abrir”. E ele: disse: “Não, eles vão”. Gastaram R$ 8 mil para vir e abrir o festival. Mas o MADA foi muito bom para eles, até hoje eles falam isso. Para você ver, tem um público que não vai muito para prestar atenção nas bandas. Tem um público que vai, mas eu vejo em todas as comunidades do Orkut as dicas do pessoal: “Porra, tem que trazer tal banda”. Porra, mas essa banda já teve…

Todos os demais – Biquini Cavadão, Detonautas, O Rappa…

Jomardo – Tudo. Fresno… Fresno já tocou aqui se não me engano.. Acho que já tocou aqui…

Honório – Se tocou, apaguei da memória.

Hugo Morais – Tocou, em algum lugar.

Honório – Eu não vi.

Jomardo – Eu também. Mas é isso, poucos são os que vão para ver as novidades. Como eles gostam de dizer, vão para grear mesmo. Vão para farra, tomar uma, pogar, às vezes não sabe nem o som que está tocando, mas depois está: “Pô, aquela banda é demais”. Qual a banda? “Aquela banda que a gente fez aquela porrada ali”. Quer dizer, é complicado, não é fácil. Mas eu acho que tem mudado muito, nesses dez anos. Quando a gente começou eu fiz o MADA praticamente com a MPB daqui: Pedrinho, Cleudo. Não tinha banda de rock como hoje em dia. Você contava numa mão as bandas que tinham naquela época. Hoje já tem uma infinidade. Tá, não tem essa qualidade toda, mas isso é todo um processo também. Pô, Barbiekill muita gente não gosta, mas eles descobriram sua sonoridade. “Ah, mas copiam o Cansei [de Ser Sexy]“. Mas é uma linguagem diferente que já consegue abrir espaço lá fora. E assim é que vai. Quando você fez a comparação do AbrilProRock ter revelado…Pô, Pernambuco tem uma tradição cultural muito forte. São anos e anos ali. Você tem Frevo, Maracatu. Tudo isso influencia a formação de um processo cultural. Aqui qual é a nossa manifestação cultural? O Côco? Mas é uma coisa tão distante do centro…Recife não tem essa distância toda.

Honório – Mas isso não se deve ao fato do RN ser um estado de passagem?

Jomardo – Pode ser. Eu não vou me aprofundar porque não sou um conhecedor da questão antropológica da coisa. (Risos)

Hugo Morais – Você falou que o Vanguart gastou R$ 8 mil para vir tocar. Como está a ajuda de custo para as bandas? O MADA tem uma verba da Petrobrás, não é? Como é que funciona isso?

Jomardo – Já faz dois anos que a gente faz o seguinte: as bandas locais ganham um cachê, uma ajuda de custo e esse ano todas as bandas, independente de serem daqui ou não, vão ganhar também. As de fora ganham um pouco mais porque tem hospedagem e alimentação, mas esse ano todas vão ter essa ajuda. E isso era idéia minha, no dia que eu tivesse patrocínio e tivesse condição de bancar isso. Tem gente que chega e diz: “Porra, mas o evento não dá passagem”. Peraí, vamos com calma. Agora a gente já dá uma ajuda de custo que pode ser usada para a passagem ou do jeito que você quiser. Mas pelo menos você não vai mais pagar para tocar. Isso já é um ganho. Porque, na verdade, para você montar a estrutura que eu monto é um gasto muito grande. Eu podia fazer um festival “nas coxas” como muitos fazem. Pegam o dinheiro, fazem o festival e seja o que Deus quiser. Tem que ser do bom e do melhor, numa estrutura bacana. E isso desde o primeiro ano. E essa história de que sem dinheiro não dá para fazer… Dá para fazer sim uma coisa bem feita. Você faz dentro do seu limite, mas faz bem feito. Esse negócio de que rock’n'roll é trash, isso é papo de gente que já passou.

Honório – O que muda na estrutura? Você já tem alguma definição da estrutura do MADA esse ano?

Jomardo – A gente tá vendo isso, a gente deve ampliar. Eu estou vendo se coloco um circo para ter um terceiro palco.

Honório – Na última edição da Brouhaha você falou num espaço para Jazz. Isso foi a uns seis meses atrás. Você mudou de idéia? Acha que é necessário realmente um palco de Jazz?

Jomardo – Não, o medo que dá é porque é um som mais intimista. Dos lados dois palcos, de outro uma tenda ou circo e no meio o Jazz? Quem é que vai escutar?

Alexis – O risco é acabar virando um lugar que a galera vá para descansar. Tomar um fôlego e sair.

Jomardo – Exatamente. Aí eu quero ver se a gente consegue esse ano a montagem do circo para a gente ter um terceiro palco para colocar, sei lá, essas novas bandas de eletrorock, para ter proximidade com o que se faz na tenda eletrônica. E depois começar os djs. E tem outras coisas que devem ter que a gente vai decidir junto com os patrocinadores, a própria Petrobrás, a TIM. A gente está estudando algumas novidades na feira mix também, vão ter algumas coisas legais. Mas só posso dizer depois que estiver tudo fechado. Porque também não adianta lançar para o público começar a esperar e o povo chegar lá e dizer: “Cadê o circo que o cara disse que ia ter?”.

Honório – A máquina de boataria já está circulando. Já falaram que o MADA vai trazer de duas a três atrações internacionais. Já falaram que o Cansei de Ser Sexy é uma dessas bandas…

Jomardo – Com o CSS o problema é a agenda. Eu até tinha dado uma entrevista a Hugo sobre isso, porque ano passado eu fiquei muito chateado. Aí na verdade depois eu descobri qual foi o problema: o produtor. Que depois saiu da banda com a maior confusão do mundo. Ele é quem ficou me enrolando um tempão, como enrolou a banda também. O problema é o seguinte: eles têm um show nos EUA, vamos supor no dia 05, e o MADA é no dia 14. Pô, mas aí eu teria que trazer eles dos EUA, se fosse o caso. É muito gasto, muito custo. É preferível trazer logo uma gringa razoável. Não quero mais apostar em coisas que não têm nada a ver. Porque essa coisa de gringa no Brasil é muito relativa. É só banda top é que consegue público. Não adianta. Você pode até trazer para fazer seu evento, para a Folha de São Paulo divulgar. Mas gringa não atrai público, não adianta, é chover no molhado. Você traz até pra dar um, sei lá… Como eu estou pensando em trazer alguma coisa, mas não vou falar, lógico. Seria uma coisa mais emblemática, para a galera sacar como se fazia um tempo atrás.

Hugo Morais – Uma velharia.

Jomardo – É, mas aí seria uma velharia e uma hypada. Para a galera ver o que se fazia e o que se faz agora. A idéia é essa, eu estou negociando para isso. A gente sabe que não vai trazer um público, mas vai trazer informação. Dos próprios músicos terem acesso a esse tipo de show.

Honório – Mas também não vão atirar no pé que nem com o Russian Futurists.

Jormardo – Pois é, isso que eu não quero de jeito nenhum. Assim é preferível não trazer. Não adianta dizer: “Porra o MADA está trazendo uma banda gringa”.

Hugo Morais – Aí quando vai vez a banda gringa…

Jomardo – É, exatamente, trazer uma banda legal. Não é uma big banda, ninguém tem condição de trazer uma big banda, mas trazer uma coisa legal que tenha uma certa história, que tenha alguma coisa pop bem feita.

Alexis – Como está rolando essa sondagem? Onde é que vocês estão buscando esses nomes?

Jomardo – Eu estou com duas produtoras em SP que estão vendo isso pra mim. Eu estou com uma relação grande de bandas. Na verdade a gente tinha num primeiro momento quase fechado com Mudhoney e Breeders, mas não deu certo porque eles fecharam para outubro.

Honório- Não deu certo os dois?

Jomardo – Não, porque a gente ia fechar os dois.

Alexis – Então o Mudhoney não vem?

Jomardo – Vem pro Brasil em outubro, mas pro MADA não.

Alexis – Puta que pariu!

Jomardo – O problema com essas bandas é que eles fecham a agenda muito rápido, se você demora uma semana, perde. Se você pegar a agenda dessas bandas, não tem um dia de descanso. Você tem que ser rápido. E também muitas vezes não compensa eles virem pro Brasil fazer só um show, tem que armar uma turnê. Então se eu quero e não se consegue fechar outros shows… Uma banda como essa não vem. O Walkmen veio, tocou em Natal e foi embora.

Alexis – Mas o Walkmen é uma banda numa situação bem diferente do Breeders, por exemplo. Eles não poderiam se dar ao luxo de recusar uma oportunidade dessas, de tocar no Brasil, na América do Sul.

Jomardo – Exatamente. Até hoje eles falam. De vez em quando eu recebo e-mail da banda. Essa coisa de gringa só vale a pena se for assim. Se for para apostar só para dizer que tem uma gringa, eu prefiro apostar nas nacionais.

Hugo – Já se descartou Breeders e Mudhoney, e tem uma lista grande de possíveis, não dá nem para imaginar. E as nacionais “grandes”?

Jomardo – Tem alguns nomes.

Hugo – Figurinhas repetidas?

Jomardo – Tem, vão ter duas figuras repetidas. As outras nunca tocaram no festival.

Alexis – Essa repetida não é O Rappa não, né?

Jomardo – Não interessa, não interessa. (risos)

Honório – Pitty também não é.

Jomardo – Não, Pitty não. Mas isso é uma discussão interessante. Até entendo, mas foi onde todos os festivais de pop e rock se perderam, justamente por causa desse preconceito. A gente fabrica as bandas, lança no mercado e depois ojeriza, deixa as bandas de lado. Aí os outros festivais que não têm o mesmo perfil nosso, pegam essas bandas e se enchem de dinheiro. Cansam as bandas e a gente não tem mais opção nenhuma. Porque tirando axé e sertanejo, qualquer banda de pop e rock cabe em qualquer festival. Se tiver público, vale a pena.

Honório – Eu espero que um dia esses festivais cansem de NX Zero, Detonautas…

Jomardo – O problema é que a gente não tem uma renovação muito forte nesse sentido. Quais são as bandas hoje que têm público no país?

(Silêncio geral)

Jomardo – Fora axé e sertanejo qual é a banda? Me diga uma.

Alexis – Sei lá, Charlie Brown jr. Alguma coisa assim bem mídia.

Jomardo – Não tem mais. Não tem como a gente imagina.

Honório – Então vamos aquela reflexão que Foca até comentou sobre Capital Inicial, Pitty, que não leva mais público. Isso não é reflexo da própria composição desse público? Que antes era uma coisa massificada e hoje em dia é mais fragmentada e por isso é mais difícil conciliar…

Jomardo – Mas porque é fragmentada e axé music continua tão forte?

Honório – Não… Digo público de pop e rock: há essa aparente fragmentação… Pelo menos essa é a leitura que eu faço.

Jomardo – Mas é justamente por isso: se você pensar bem, essas bandas depois que estouram entram em eventos que normalmente chamam outro público axé, não sei o quê, para fazer um complemento de programação. Então na hora que você tem todo mês Chiclete com não sei quem, Jammil com não sei quem, tudo de pop-rock, você vai matando as bandas de pop-rock. Porque elas estão todos os dias, em todas as cidades, todos os finais de semana, com alguma coisa de axé music. É uma atração secundária que vai ficando no esquecimento. O povo gosta da festa. Aí você vai perdendo, eu acho que isso é uma grande besteira que se fez. Vamos supor, no caso do MADA que em 2003 tinha Pitty, que a gente estava praticamente lançando. Aí lança e a gente ao mesmo tempo: “Pô, ela já ficou famosa, já não tem mais graça de participar do meu festival”. Porra, que oração é essa da pobreza? Quer dizer que para ganhar não é bom? O bom mesmo é você ser um produtor: “Não pô, o meu negócio é conceito. Ah, pagar conta a gente paga depois, vai negociando”. Isso é papo de fracassado. Você tem que pensar em fidelizar a banda também. Porque uma banda dessa quando você fideliza, ela só vem para aquela cidade através de você. Então você vai diminuindo o espaço dessa banda estar na cidade e vai criando expectativa. Mas não é isso que acontece, a maioria dos produtores vai descartando essas bandas, aí essas bandas vão ficando noutro esquema totalmente diferente. Mas é uma discussão prolongadíssima, porque aí vai também gosto musical… (risos)

Honório – Vamos voltar ao festival. Quando você vai ter essa composição fechada para o MADA?

Jomardo – Até o dia 15 de junho eu já estou com tudo fechado.

Honório – Já existe uma definição de quantas bandas vão ser?

Jomardo – Não, mas eu acho que esse ano a gente diminui a quantidade de bandas. Até porque esse formato com muitas bandas está ficando muito cansativo para os festivais. Inclusive para as próprias bandas que estão participando. É melhor você aumentar cinco ou dez minutos do tempo de uma banda e ela ficar mais tempo com o público do que você diminuir e botar mais uma banda. Esse ano a gente vai fazer isso, a intenção é montar uma programação que tenha uma química legal entre as bandas. É tanto que a gente já está fechando a quinta e a sexta, só não está fechado o sábado ainda. O sábado é que a gente…

Honório – Quem é que fecha a sexta-feira?

Jomardo (rindo, ignorando a pergunta) – Vai ser o dia que vai ter duas atrações nacionais e uma das bandas gringas. No sábado vai ter uma. Acho que vai ser legal esse ano. O que faz um evento ser legal em Natal, felizmente ou infelizmente, é você criar um clima. Até hoje eu não consigo entender, como é que Capim Cubano conseguiu colocar 17 mil pessoas na Via Costeira. Aí na outra semana fez um show e deu mil pessoas. Entendeu? Porra, meu irmão, a banda é horrível.

Honório – Porque no caso a pessoa já acorda no sábado com uma latinidade. Com vontade de…

Jomardo – E criou-se um clima para isso. O público de Natal é muito isso, de festa. “Esse show vai ser um estouro”. Aí quando você vê é um fiasco. E alguns show que você não espera nada… Eu sinceramente achava que em 2006 Nando Reis, Biquíni, Cansei de Ser Sexy, não ia ser o estouro que foi. E foi um estouro grande. Tinha público para todas as bandas. A multidão que estava ali era para ver as duas finais? Não, o povo estava ensandecido com Daniel Belleza, com Cansei, com Moptop. Foi o maior público do CSS até hoje. Porque essas bandas vão para a Europa, fora esses festivais grandes que eles estão participando, tocam em clubes. Você pega aí 200, 300 pessoas no máximo, não passa disso não.

Honório – Ou tocam para 100 pessoas e dizem que foi para 1000.

Alexis – É, um zero a mais, outro a menos…

Jomardo – Igual aquele comentário infeliz de Thiago Ney na Folha, dizer que as bandas independentes daqui não tocam em nenhum pub londrino. Isso vale para a maioria das bandas que vem de lá para cá. Elas tocam em pub londrino para 100 pessoas. Aqui no Brasil tocam em clubes para 10 pessoas, 5 pessoas. Tem festivais em SP, como o Indie Rock, que deu 200 pagantes só com banda hypada. Isso é muito relativo.

Honório -As bandas “gringas” já estão fechadas?

Jomardo – Não, essas são as que estou tentando bater o martelo nas próximas semanas. Uma tá dependendo eu dizer só “OK, pode arrumar as malas”.

Honório – Tem mais de dez anos?

Jomardo – Uma tem mais de dez anos. Bem mais de dez anos. A outra é novinha, deve ter no máximo dois anos. Não é muito conhecida, mas é bem legal, em Londres ela está muito bem.

Hugo – E tem o CineMADA também, né? Como é que vai isso encaixar com a programação toda, de seminários e tal?

Jomardo – A seletiva será em julho, final de julho, praticamente última semana. O festival de cinema vai ser final de junho, primeira semana de julho. Tem um seminário também. Dois dias antes do MADA. Seminário e Workshop. Para a gente discutir leis de incentivo, como faz edição, essa coisa toda. Agora estamos tentando montar um seminário com discussões sérias. Não vamos discutir como uma banda faz para montar uma turnê. Mermão, aí você se vire. A gente vai dar umas orientações legais. Como fazer um projeto bacana, como captar, como negociar suas músicas para serem editadas, da lei de incentivo federal para ver se favorece mais os festivais, favorece mais as bandas. Existe um programa do governo para dar passagens para as bandas viajarem quando forem convidadas. Tudo isso a gente vai tentar colocar numa mesa, chamar o pessoal do Ministério da Cultura, para mostrar as bandas como funciona.

Alexis – Como vai ser o CineMADA? Alguma novidade?

Jomardo – Vai ter uma mostra competitiva de longa metragem. Então a gente vai transformar num festival de cinema mesmo. Até então era cinema, mas focado em curta metragem. Agora a gente vai abrir para fazer um festival mesmo com longas, se possível com debate com diretor. Para a gente também fazer a mesma coisa que a gente fez no MADA, fomentar essa área que também precisa muito.

Honório – Vão definir a curadoria? Ou já está definida?

Jomardo – Não, ainda vou me reunir com o pessoal. Já temos o projeto, os dias, os possíveis filmes longa metragem. Agora a gente quer investir nessa coisa mais alternativa nos filmes, entendeu? A gente não quer colocar “O Homem que copiava” num festival trezentos anos depois que ele já estava no circuito. Vão ter algumas coisas novas.

Alexis – Rapaz… Você se lasca (risos).

Honório – O homem foi homenageado…

Jomardo – Hum? Mas isso não é nenhuma crítica, porque aí eu vou estar me criticando, vou estar achando que eu inventei a roda e o fogo em relação a isso. A gente só quer dar mais opção ao público. O CineMADA é muito legal, um público ali ensandecido. Aí realmente o público vai para ver os filmes, os curtas. Você vê um público interessado.

Alexis – Como você avalia a produção desses curtas que apareceram ao longo das edições anteriores?

Jomardo – Dos locais? Acho que já teve uma melhora significativa. Porque antigamente a gente tinha o vício do trabalho universitário. Só recebia documentário sobre não sei o quê. Um tipo de linguagem que era parecido com todos. Agora já tem experimentações. Isso é que faz que movimente um processo de fortalecimento do cinema. Hoje você já vê um povo mais louco, fazendo filmes, ficções, dramas…

Honório – Animação…

Jomardo – Pô, o pessoal d’Os Bonnies tá investindo em animação. Aquele do ano passado foi do caralho, o povo quase que morre de rir. Mas isso é bom, quer dizer, para o que era inicialmente. E eu sempre tive um cuidado na parte de cinema. “Não, é daqui tem que entrar Jomardo, você tem que incentivar”. Não meu amigo, não vou incentivar merda de jeito nenhum, corta logo. Não é porque é daqui que você tem que abrir um festival com 70 filmes locais, que 65 o público sai de lá dizendo que cinema não existe aqui. É a mesma coisa de festival com bandas. “Porra Jomardo, você tem que colocar 30 bandas daqui, você tem que incentivar a cena local”. Não, isso não é incentivo, é suicídio. Você bota 30 bandas locais e a imprensa, vem e detona 20. Você acabou com o ânimo de qualquer outra banda que queria entrar. E você pega jornalista que bota para quebrar mesmo. E tem banda que sente isso na pele, outras que não estão nem aí. “Eu quero mais é que aquele jornalista vá para a…”. Mas tem outras que você corta, deixa de incentivar. Na hora que você limita, você faz com que a banda queira fazer um trabalho cada vez melhor. Agora na hora que você abre muito o leque, você não está incentivando, está matando muitas bandas que poderiam até ser legais, mas que vão receber uma crítica violenta, como algumas já levaram no MADA. “Pô, aquela banda não tinha condição de tocar no MADA”. Aí acabou com a banda, acabou…

Honório – É bom quando a gente contribui para isso. (risos)

Jomardo – Tá vendo? Aí você imagine com a opção de 30 pássaros que vocês tem para matar com a espingarda (risos).

Hugo – A super hypada Mallu Magalhães já está confirmada. É no festival ou na seletiva?

Jomardo – No festival.

Alexis – O Juizado de Menores já liberou? Já está tudo certo?

Jomardo – Não, isso a gente ainda vai ver (risos).

Alexis – Ela vai ter que tocar num horário mais cedo, porque se passar do horário de dormir fica complicado.

Jomardo – Porra, isso é complicado, tem negócio de escola, não pode fechar no meio da semana. Mas ela tá bem a menina, né rapaz? A história de Mallu eu acho legal para incentivar a galera a produzir, tentar fazer um som bacana. A questão musical aí não sou eu que vou discutir, porque se eu fizesse um festival com meu gosto musical 70% das bandas ali não estariam nem pagando ingresso para entrar. Assim, não é meu gosto musical de escutar no meu dia a dia, Heavy Metal, peso, essas coisas eu não escuto. Mas eu acho que festival você não faz para você, você faz para todo mundo, para o público, para a imprensa, para as bandas. Você tem que ter um radar para estar captando isso legal e montar uma programação, basicamente é isso. Festival tem que ter diversidade, lógico que sem axé e sertanejo.

Hugo – E o livro sobre o festival, que você mencionou ano passado?

Jomardo – A idéia e o projeto estão prontos, agora só falta tempo de juntar todas as histórias. O livro e o documentário. O documentário eu já passei todas as imagens que eu tenho de 1998 para cá para o RJ, para uma empresa de um amigo meu que está fazendo a separação para ver se a gente ainda tem tempo de lançar no festival de cinema. Vai ser tipo uma geral, sei lá. Algumas bandas que já passaram, pegar tudo que é filmagem no MADA, fazer um apanhado geral, alguns depoimentos. Vamos ver se vai dar tempo. E o livro está nesse mesmo processo, juntando material. Se não no festival, a gente lança até o final do ano, mas não vai ser no período do DoSol, não. Para não haver choque. (risos) Eu queria dizer também o seguinte: essa coisa de polêmica, não sei o quê, de briga de festival, isso é no calor das discussões, cada um tentando fazer o seu melhor. Porra, o DoSol Rock Bar está fazendo um excelente serviço para a cena toda, abrindo espaço para as bandas novas. Isso faz parte do processo. Agora também faz parte do processo essas rusgas que tem, uma piada aqui, uma alfinetada ali. Mas no final está todo mundo querendo fazer a mesma coisa, querendo fazer com que essa cidade saia do marasmo que normalmente ela apresenta. Eu acho que isso é o fator determinante para a coisa andar. Pô, Natal há dez anos era impensável, né? Você tinha alguns shows e olhe lá. E hoje em dia a gente tem até briga de produtores, porra! Então já estamos chegando em algum lugar… (risos).

23 Comentários para ““‘A cara do Rock’ não existe: ninguém aqui é a cara do rock”

Essa entrevista pareceu uma alfaiataria de tanta alfinetada.
haha

esperando agora a repercussão de tudo isso.

Gabi comentou em 28/5/2008 às 10:14 am

“e existe algum tipo de rivalidade deve ser do lado de lá pra cá. Porque tudo que se faz do lado de lá se compara com o MADA. Eu não comparo o MADA com nenhum festival: temos o nosso.”

Noooooooooooooooooafssa…!

Gabi comentou em 28/5/2008 às 10:16 am

“Porra, se tudo que aconteceu depois do MADA foi graças a toda essa projeção que a gente conseguiu. Senão a gente ainda estava preso, vendendo abadá de bloco de Carnatal como alguns vendiam antes de se rotular rock’n’roll”

Noooooooooooooooooafssa…![2]

Gabi comentou em 28/5/2008 às 10:19 am

Agora falando sério: “amos acabar com essa história: festivais independentes no seu formato, em privilegiar bandas novas, mas você não é independente em hipótese alguma.”

Discordo. É so ir na Estação Ribeira, esse domingo e o próximo. Tá rolando o CIRCUITO UNDERGROUND, com entrada de 5 conto, skate free e MUITA BANDA BOA, daqui, Recife e João Pessoa.

Josias Neto comentou em 28/5/2008 às 11:58 am

Esses apoios sao o que GAbi na verdade….so tiraçao de onda, voces colocaram esses nomes porque sao bondosos mesmo…se e tao independente nao precisaria nem desses apoios……tirar onda e facil demais…..

Jomardo Jomas comentou em 28/5/2008 às 12:01 pm

Entao Gabi, acho que vc nao entendeu minha colocaçao,quando falo nao pode ser independente e com relaçao aos patrocinios e apoios necessarios, vc pode ser na sua programaçao, tanto que o Circuito Underground esta cheio de apoios, ou sera que colocaram os nomes dos apoiadores para dar uma força mesmo nas empresas porque o evento tem bala para isso )_

Cassio comentou em 28/5/2008 às 3:24 pm

Eu acho que o terceiro palco poderia ser só de bandas do estado. se é q terá esse palco mesmo…

Olha… Do ponto de vista capitalista, essa briga de festivais é ótima. E, em prol da competição, é ótimo que ambos sejam tidos como iguais, que se provoquem, para não cair no comodismo do monopólio. Só acho que ambos, Jomardo e Foca, devem tomar cuidado com o desgaste destes embates. Que possuem seus motivos, não tenho dúvida, assim como não tenho que muito do que é dito de ambas as partes é fruto de terceiras vozes que levam e trazem opiniões. Já passei por isso com o próprio Foca e só muito tempo depois fomos descobrir que várias vezes a mesma pessoa que vinha buzinar em meus ouvidos maldades sobre o figura dava as costas e ia ao ouvido dele fazer o mesmo contra minha pessoa. Mas para estes males existe a mesa do bar e um bate papo honesto onde se pode esclarecer tudo. Espero que um dia vocês dois possam passar a limpo e rir disso tudo.

No mais, a entrevista está bem bacana, apesar das indiretas desnecessárias e de certos rodeios também desnecessários. Por exemplo: sobre a imensa participação de bandas cariocas, podia ter sido dito que é graças a aproximação que o evento possui com Mário Marques, que está sempre lá pelo RJ atento ao que soa ao seu redor. Isso não é pecado, não é crime e não envergonha ninguém. Então não custava nada deixar claro este ponto.

Sobre haver “boicotes” na programação de um festival para com outro, podia ter sido explicado que a possibilidade de fato existiu quando o DoSol agendou seu primeiro grande evento para março de 2005, apenas 2 meses antes do MADA. Mas que seria facilmente explicável já que seria sensato evitar que mesmas atrações se repetissem em ambos os eventos. Mas morreu tal possibilidade pois após uma conversa de vocês acordou-se que o DoSol seria realizado em agosto.

No mais, boa sorte a ambos. Esse segundo semestre promete muito.

Caio Graco comentou em 28/5/2008 às 4:03 pm

Muito boa a entrevista. Foi realmente esclarecedora. Prova que todos podem ter seu espaço numa boa. Sempre fui ao Mada e sei de sua repercussão pelo Brasil afora. Gosto do Dosol também, so precisa melhorar urgente sua estrutura. Obrigado.

Hermínio comentou em 28/5/2008 às 5:04 pm

AHHH…não precisava dizer que Mudhoney e Breeders estiveram perto de tocar aqui…

Marcio. comentou em 29/5/2008 às 7:08 am

Não sei porque, mas enquanto li a matéria tive uma visão, com direito à nuvem negra e tudo, do B-52´s no palco do MADA…Minha nossa!

A verdade é que o público se sente confortável em dizer que foi a um grande show e estar de acordo e nem questionar, automatismo cultural?
Veja:

Show em SP do Ozzy Osbourne, aplicando os custos via MT:

Passagem cuiabá>sp ida e volta na media R$400,00;
Custo com ingresso: media R$ 100,00;
Custo com translado e alimentação ( media): R$ 100,00;
Custo com hotel simples (media): R$ 50,00;

Percebe que num rápido calculo chegamos a R$ 650,00, mas como sabemos, o publico aceita e se sujeita, pois é um artista de renome etc etc etc!

Lembrando que geralmente uma ou duas bandas fazem a abertura, lógico, se a banda tiver o cash para bancar essa abertura!

Mas ta tudo certo! – diz o publico.

Mas não consideram que o ingresso de R$ 10,00 ou R$ 15,00 de um festival que envolve um ano inteiro de preparativos, reuniões, discussões, datas, para que em 4 ou 5 dias seja possível assistir e o mais importante “ver os Brasis que cada banda traz consigo!”, 50 ou mais bandas, produção direta e indireta, empregos, e todas as máximas que eventos como festivais “multi-artes integrados” agregam, não alcançam!

E o mais difícil ainda é o publico não conseguir ser publico, ou seja, prestigiar, divertir, discutir melhoramentos, atuar em prol de; mas é impossível imaginar criticas do eventos de R$500,00, ae pode?

O publico que hoje habita a net, visita os sites do Minc? Secretarias de Cultura? Empresas publico-privada? Se importa em promover assuntos de relevância para melhoria de projetos da sua rua, bairro, cidade, estado? Ou quer apenas discursos pré-prontos?

Pois se o publico investe em R$ 650,00 para ver o Ozzy em SP e esta tudo certo, por que não pode ser publico e fazer o festival do seu estado, que gera emprego no seu estado, que traz intercâmbios culturais em prol do seu estado, que mostra toda a forca cultural e etc!!

Entende que não estou pondo em foco política – publica, ate porque não tenho embasamento teórico para tal. Mas será que o publico não pode ser publico?

Ou melhor, ainda, inverte o publico poderia todo ele ser produtor ou banda, seriam conversas mais francas e produtivas, dialogando no mesmo nível de entendimento sobre isso ou aquilo!

Será mesmo que não existe publico no seu ou meu estado que consiga prestigiar a arte e a cultura acima de tudo?

Será mesmo que vamos viver mais 20 anos esperando gringos trazendo suas culturas para nos e a mão que volta quase nunca acontece!

Será mesmo que o publico consegue ser publico, ver beleza em uma musica, luz, apresentação e perceber que isso esta ali na frente dele, acessível a ele e pra todos da comunidade dele?

Não é o valor, não é as discussões políticas de verba publica, não é nada disso, apenas o publico! Ele consegue ser publico apenas para o que vem de fora? Ou ainda, consegue ser publico apenas para obter novas experiências culturais?

A entrevista do J. Jomardo esta de parabéns! Total apoio e vida longa aos festivais, shows, festas, encontros, bandas com apoio, bandas sem apoio, bandas que nem sabem que são bandas, artistas, apoiadores, sonhadores, e ao publico que mesmo mínimo aplaude e nos faz acreditar e continuar!

Bruno comentou em 29/5/2008 às 1:02 pm

Lindo comentário, Fábio.
Vou dar uma de preguiçoso e reiterar seu ultimo parágrafo.
:)

Em especial: ‘ao público que mesmo mínimo aplaude e nos faz acreditar e continuar!’

isaac ribeiro comentou em 29/5/2008 às 9:59 pm

Parabéns, Jomas, por responder à entrevista de forma madura, lúcida e sem afetações.

Gabi comentou em 30/5/2008 às 9:09 am

Fabio disse: “Será mesmo que o publico consegue ser publico, ver beleza em uma musica, luz, apresentação e perceber que isso esta ali na frente dele, acessível a ele e pra todos da comunidade dele?”

Dependendo acho que da banda. Eu não troco o Ameaça Subterrânea, daqui, por nenhum Matanza (que eu gosto que só!).

=]

Jp comentou em 30/5/2008 às 9:30 pm

rapaz, da pra ver claramente a diferença latente entre os dois festivais: um é roqueiro e o outro mainstream, dois universos diferentes logo abordagens diferentes também.

alexandre alves comentou em 1/6/2008 às 6:50 am

Produzir cultura (de massa ou do nicho “independente”, ou misturando ambos): processo complicado.MADA e o Dosol se esforçam para tentar melhorar e se arriscam a cada ano(chuva, ausência de patrocínio, público reduzido em alguns anos). Mudar o comportamento de um lugar provinciano como Natal ainda demorará décadas. A platéia continua indo pra ver (outras pessoas) e ser vista (por outras pessoas). Rock? Trilha sonora momentânea. Discordo de Jomardo: além de Raul, aquelas 100 pessoas citadas por ele continuam sendo o número do público “roqueiro” local desde o final da década de 80. Por que? A apatia reina, mas nem MADA nem Dosol são apáticos. Continuem o trabalho, vocês são o futuro da música potiguar.

jomardo jomas comentou em 1/6/2008 às 2:55 pm

E verdade Alexandre, temos mais roqueiros sim, mas como me referi ao RAul foi em relaçao ao estilo mesmo de vida que sempre foi rock total e vc eh um exemplo tambem de muito envolvimento com o rock em Natal e nao eh a toa que no primeiro MADA ganhou o maior destaque na midia nacional com o trabalho que realizava noi cenario indie, seu trabalho sim foi pioneiro e de muita impostancia para todo esse processo tambem que hoje vivemos e vc sabe disso e da minha gratidao pelo apoio e força sempre ao MADA.

alexandre alves comentou em 2/6/2008 às 4:32 pm

Tava brincando com o número, né, chefe?
Nem me considero “roqueiro”, eu gosto de boa música e de ler sobre ela, como aqui nos disruptores. O MADA faz parte do contexto da música independente no RN, assim como os subterrâneos.

aMADA amante! não é oficial e é, não é independente e é… essa não é uma arca de não é… tá muito mais pra sim, enfim – aMADA amante, não falta quem queira ir pra cama (quero dizer, pro palco) com ela… vida longa a essa boa amante… e assim como aMADA amante, o DoSol nasce pra todos!!!

Ana Lira comentou em 3/6/2008 às 10:33 am

Jomas,

Eu ia esperar Lobão repetir, em agosto, no Mada, o que saiu na revista Outra Coisa:
“O MADA É FODA!!!”

PARA JP

aparentemente há uma significância que lhe é particular e instranferível para as palavras “rockeiro” e “mainstream” que pelo visto fogem ao significado que os próprios termos possuem historicamente, quer seja numa abordagem mercadológica, antropológica, etc, etc…

é como se um termo fosse a negação do outro?

AOS DEMAIS

de forma descontraída e positiva publiquei na Rockpress (em 2006)um texto comparando as qualidades, similaridades e possíveis diferenças entre dois bons festivais que aconteciam em Natal.

para os que se interessarem em um exercício de constatação sem passionalismos segue o link do artigo

http://www.portalrockpress.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=604

Tádzio comentou em 1/7/2008 às 7:22 am

Ainda tem gente que vem com esse papo de rock x mainstream, em pleno século 21!!!
Santa ingenuidade…

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