Por Equipe Disruptores - 14/11/2007

Conversar com Pablo Capistrano é algo divertido. Além de não ter papas na língua, conhece bem o terreno por onde pisa. A DDA, segundo ele, ajuda: leituras diversas e atenção compartilhada fazem com que o filósofo e escritor dedique horas fracionadas à leitura de temas e assuntos diversos. Antes de iniciada a entrevista, como de costume, conversávamos sobre o cotidiano. A conversa, sobre o onipresente “Tropa de Elite”, girou em torno da faceta reacionária que paira latente sobre a sociedade e vez ou outra encontra sua válvula em algum produto cotidiano. O de José Padilha foi o escolhido da vez, segundo Pablo: logo tranformou suas reflexões em um artigo que você lê também nesta edição.
Esta “antena” que ele mantém para os humores da sociedade terminaram por levá-lo a embarcar em um projeto que nos pareceu bastante singular: crônicas e artigos jornalísticos nos quais a filosofia – ou a história dela – funcionaria como fio condutor. Primeiro no Jornal de Hoje e depois no Diário de Natal, a idéia vem rendendo, segundo o autor, bons resultados
Capistrano não tem receio de soar polêmico: o título desta entrevista é prova disso. Sua relação com a filosofia e mesmo com a escrita é singular; particular: no melhor estilo do it yourself, peitou seus livros e botou-os na rua. Com Pequenas Catastrofes, seu terceiro trabalho, descobriu que as fronteiras potiguares não mais representavam um problema – ou não tão grande assim. Como afirma na entrevista abaixo, Pablo é um contador de histórias e estas passam invariavelmente pelo mundo da filosofia: “contar histórias e trazer idéias”, afirma. Confira a entrevista
Alexandre Honório: De onde foi que surgiu essa idéia de dosar a filosofia “em pílulas”, em artigos de jornal?
Pablo Capistrano: A idéia começou quando eu entrei em crise criativa, no final do ano passado. Eu percebi que eu tava escrevendo sobre maioridade penal, violência, essas coisas. Aí pensei, “Porra, porque é que eu tô escrevendo sobre isso?”. Quando eu peguei o Diário de Natal, o Jornal de Hoje, vi que todo mundo tava escrevendo sobre os mesmos temas. Um belo dia fui assistir o Jornal Nacional e descobri que estava sendo pautado por William Bonner. Quer dizer, o Jornal Nacional jogava o tema e todos os caras iam escrever sobre. Aí, eu perdi a vontade de escrever pra jornal, deixei de cumprir os prazos, enchi o saco mesmo. Algum tempo depois, eu estava conversando com um amigo meu, o Sérgio Trindade, e ele me sugeriu: “Porque você não faz uma série de artigos sobre algo que você gosta?”. Gostei da idéia e comecei a escrever os artigos de filosofia pro Jornal de Hoje. Depois, recebi a proposta do Diário, que deu um tratamento melhor e tal.
Honório: Você já conseguiu sentir o retorno?
Pablo: Várias pessoas chegam pra mim e falam que tão colecionando, juntando pra depois eu autografar. Tem gente que chega pra mim e diz “Pô, to deixando de ir à missa pra ler seus textos”. Tomara que Ratzinger não descubra (risos).
Alexis Peixoto: Mas como foi que você chegou ao formato da crônica jornalística, ao invés do artigo acadêmico convencional?
Pablo: O artigo acadêmico é o formato “oficial”, mas a filosofia tem vários suportes textuais. Um cara escreve filosofia em forma de poesia, outro escreve em forma de diálogo, outro em forma de carta, de diário, de romance… Não existe um único tipo de gênero filosófico. E eu não conheço ninguém que tenha escrito filosofia em crônica de jornal. O que acontece é que muita gente escreve crônicas usando temas filosóficos. A minha idéia foi, ao invés disso, falar da história da filosofia, recontar a partir da Grécia até os dias de hoje. Aí eu misturo narrativa, um pouco de experiência pessoal. Eu volto ao passado e recomponho a História até os dias de hoje, contextualizando aquele pensamento. Porque hoje em dia, o cara diz que se interessa por filosofia e as pessoas perguntam logo “Você tá com algum problema, tem algum distúrbio?” (risos).
Alexis: Ou então perguntam “Para que serve? como se ganha dinheiro com isso?”.
Pablo: Cansei de responder a essa pergunta…
Honório: Então, responde de novo: filosofia serve pra quê, afinal?
Pablo: Filosofia é como sexo oral: não serve pra nada, mas é muito legal (risos). Quer dizer, não tem fins práticos, mas tem lá o seu objetivo. Outro dia, num congresso, um professor falou que nós estávamos perdendo o nosso tempo fazendo filosofia, que não tinha nenhuma utilidade. Pô, tem muitas coisas que são inúteis, mas são extremamente importantes. Como o sexo oral, por exemplo. O problema é que a gente vive numa sociedade tecnicista, na qual é necessário que tudo tenha uma justificativa técnica, que haja um artefato, um apetrecho. E a filosofia não tem esse artefato, o que não quer dizer que ela não seja prática. No meu entender, a filosofia visa a ética e a política. A idéia é que da especulação teórica você extraia algum efeito pra sua vida. É isso o que os Antigos buscavam: a prática, a práxis. A filosofia, na verdade, é uma preparação pra morte. Você vai morrer, sua vida vai passar, e se você não tiver um preparo pra lidar com esse dado, você pira.
Honório: E como é que você puxou essa bagagem filosófica para a literatura?
Pablo: Cara, eu acho que eu sou um escritor que fala sobre filosofia, não um filósofo que fala sobre literatura. A minha veia é de escritor, eu conto histórias mesmo quando escrevo sobre filosofia. Essa coisa narrativa está comigo desde sempre. Eu sou filho de sertanejos, todo mundo da minha família é do interior. Quando eu viajo pra lá, percebo uma coisa muito curiosa no modo como as pessoas se expressam. No sertão as pessoas não são dissertativas, são narrativas. Lá as pessoas não ficam emitindo opiniões sobre as coisas, elas contam histórias. O homem urbano é muito dissertativo, o sertanejo, mais arcaico, é mais narrativo. Eu trago essa característica narrativa, que eu aprendi com os meus antigos, para a filosofia.
Honório: Mas quando isso se manifestou de modo mais evidente? No Pequenas Catástrofes?
Pablo: Foi no Pequenas Catástrofes. Antes disso, eu estava numa fase de negar a prosa. Na época do Sótão 277 eu produzia muita coisa em fanzine e escrevia uma espécie de prosa poética. Aí, acabei passando um tempão preso nessa de experimentação de linguagem e deixei a prosa de lado. Quando eu escrevi Pequenas Catástrofes, foi a volta da prosa, que eu havia abandonado lá pelos 14, 15 anos – quando escrevia uns contos imitando Lovecraft e Poe. Depois dessa fase experimental do Sótão, me deu vontade de escrever prosa, de contar uma história. Pra que reinventar a linguagem? Pequenas Catástrofes não tem nenhuma inovação lingüística, é só uma história. A minha pretensão era contar uma história e trazer idéias.
Alex de Souza: O seu primeiro livro, Domingos no Mundo, foi de poesia. Você ainda escreve poemas?
Pablo: Eu não me considero um bom poeta. Como poeta eu sou um pouco pior do que a média. Como prosador, talvez eu seja um pouquinho melhor (risos). Agora, eu confesso a você que eu ainda escrevo poesia sim. Mas é uma coisa muito esporádica. Ano passado, por exemplo, apareceu um poema. Esse ano ainda não. Eu vou juntando. Quem sabe um dia eu faça outro livro de poesia. Mas eu não sei se realmente vale a pena.
Honório: E como é matar um leão para escrever um romance em Natal? A geografia ainda é problema?
Pablo: É um problema sim, mas eu acho que é menor do que a maioria pensa que seja. Acho que se criou muito esse fantasma da distância dos centros, um sentimento de derrotismo provinciano muito forte. Existe uma dificuldade em você estar longe dos grandes veículos de comunicação e das pessoas que fazem parte desses grandes veículos, que podem abrir portas pra você e divulgar o seu trabalho. Só que com a Internet essa distância ficou relativa. Você pode fazer amizade com um cara da Folha que pode lhe arrumar um espaço pra você ir pra São Paulo e apresentar seu material. Antes, era um pouco pior. Hoje você tem como encontrar caminhos pra fazer seu trabalho chegar até lá, e isso acaba tirando um pouco desse sufocamento da geografia. Mas você tem que ter saco pra fazer isso. Essa é a parte política da coisa. Tem que fazer amizades, tem que apresentar seu material, mediar, trocar idéias, vender seu peixe. Agora, se você me perguntar se existe preconceito com a literatura nordestina, eu vou lhe dizer que existe sim.
Tiago Lopes: Preconceito em que sentido?
Pablo: No sentido em que os caras esperam que você escreva sobre cangaceiro, sertão e quando você não faz isso, eles estranham. Há um estereótipo da literatura nordestina, que está diminuindo atualmente, mas ainda existe. Já aconteceu de eu receber email de um leitor do centro-sul me convidando pra tomar um café em São Paulo. Quando eu respondo que moro aqui em Natal, os caras se espantam. “Pô, mas nem parece que você mora no Nordeste, teu livro não parece ser nordestino”. O regionalismo é interessante, tem sua função, mas marcou muito a literatura nordestina. Isso acabou produzindo um estereótipo de uma região que não é globalizada, que é arcaica.
Honório: E o livro novo, em que pé está com a editora?
Pablo: Eu escrevi uma novela e remeti pro pessoal da editora, mas eles acharam que eu deveria fazer uma edição: consideraram o texto muito longo; muito complexo pro público médio. A editora até se ofereceu pra editar e eu só autorizar o resultado final depois, mas eu não gostei da idéia. O texto está muito bruto ainda, prefiro eu mesmo editar. Mas, pelo menos por enquanto, está no congelador. Estou mais animado com esse projeto das crônicas sobre filosofia: conversei com o pessoal da editora e eles já sinalizaram a possibilidade de lançar o material. Paralelo a isso estou trabalhando em alguns contos, mas ainda não consegui atingir o timing certo.
Alex: Você tem acompanhado a literatura contemporânea?
Pablo: Isso é engraçado. Harold Bloom diz uma coisa muito interessante no sentido de porque você deve perder tempo lendo os clássicos. É simples: porque a vida é curta e você vai morrer e, fatalmente, você não vai ter tempo de ler tudo. Então, é preciso selecionar o que você vai ler. E isso fez com que eu me apegasse a leitura dos clássicos, pelo seguinte: não sei quando eu vou morrer. Então, prefiro ler um Dostoievski a um novo autor. Não que eu não goste ou tenha preconceito em relação aos autores contemporâneos, é só que eu tenho medo de morrer e não ter lido certos livros clássicos. Não é nada ideológico, é uma questão de falta de tempo apenas.
Honório: Mas você não leu nada que foi escrito, sei lá, nos últimos cinco ou dez anos?
Pablo: Li, li sim. Eu li o Marcelino Freire, o pessoal dos Jovens Escribas. Teve uma mulher que eu li e achei muito interessante: Hanna Tinti. Uma outra figura foi Amanda Stern, uma escritora norte-americana. Mas um outro detalhe é que eu leio muita filosofia. A leitura de filosofia é muito intensa pra mim. E, além disso, tenho DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção): não consigo concentrar minha atenção numa coisa só por muito tempo. Então eu leio várias coisas, leio onze livros ao mesmo tempo. (pausa) Rapaz, é até ruim dizer isso. Quem for ler a entrevista vai pensar “Esse bicho é doido, tem que internar esse cara!” (risos). Mas entre o monte de coisas que eu leio, entre livros técnicos e tal, sempre tem literatura. E em geral, é um clássico. Agora, por exemplo, eu estou lendo a Eneida, de Virgílio. É do caralho. Mas tem também uns clássicos que eu não consigo ler, que eu acho sacal demais. Eu tentei ler Fausto outro dia e não consegui, a tradução era péssima. Aí, desisti.
Alexis: Você deveria tentar adotar o sistema de ler um autor contemporâneo pra compensar quando conseguir ler um clássico…
Pablo: Rapaz, pode crer. Vou pensar nisso.
Nayara comentou em 16/11/2007 às 7:23 am
Grande Pablo Capistrano.
Só quem já teve aula com ele sabe da grandeza desse caba, inteligente e engraçado! =)
Gostei da comparação entre literatura e sexo oral
kkkkkkkkkkkkk
muito boa.
Ta escrevendo filosofia pro jornal e eu nem sabia.
Parabéns!!
Ada comentou em 20/11/2007 às 7:08 am
Pablo Capistrano. Ouço tanto falar dessa figura, mas é a primeira vez que leio uma entrevista com ele.
Muito boa!
E Alex de Souza, eu lembro de você, bom te encontrar por aqui! Ótimo espaço o de vocês, com certeza voltarei.
Abraço!
Fábio Farias comentou em 22/11/2007 às 7:50 am
Pablo Capistrano é uma das pessoas mais geniais dessa cidade calorenta.
Parabéns pela entrevista, uma ótima escolha.
Filipe Mamede comentou em 19/12/2007 às 5:04 am
No começo do curso de Jornalismo, quando eram mais constantes minhas incursões pelo setor I da UFRN, vez por outra avistava o Pablo por algum corredor. Um amigo meu certa vez me disse: “Esse bicho aí tem um livro publicado pela Rocco”. E eu falei: “Caralho! Então o bicho se garante viu!?”. Pois é, se garante mesmo. Tenho acompanhado suas doses homeopáticas de filosofia no jornal. A maneira simplista da escrita aproxima o tema do leitor, o que é muito bacana…
Um abraço a todos.
Luis Sávio Dantas comentou em 7/1/2008 às 6:13 pm
Discordo de cara de Pablo, sexo oral serve para gozar, e filosofia para pensar, conceber ou produzir são coisas que não servem em si, o que abre a possibilidade de serem ultrapassadas no tempo futuro, pelo que está por vir, enquanto o pensamento e o gôzo já possui o presente, e é um semeador do futuro.
Ramon Ribeiro comentou em 21/1/2008 às 10:05 pm
O Pablo foi o cara que me apareceu com a filosofia e disse, saca esse bagulho aí que é do bom.
Me serviu bastante no meu 1º ano lá no COC, quando ele dava aulas de filosofia, socioligia e atualidades. Ótimo professor.
Só acho seus textos longos pra caralho nos jornais. Sei lá, bixo, tu poderia colocar subtítulos, ou fazer um texto menor e com pequenas notas filosóficas ao lado, mas claro, sem perde esse seu tom descontraído de narrar.
Fernando Alves comentou em 24/8/2009 às 12:45 pm
Venho registrar aqui apenas meu apreço, por um amigo de vários anos que não vejo há tempos, tendo em vista que me bandeei da saudosa Natal, do querido Rio Grande do Norte, migrando para outro Rio Grande. Mas fica o grande abraço e o reconhecimento incontestável de seu precioso talento literário. Valeu!
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