Reportando

Abril Pro Rock 2008: Segunda Noite – Já Pegou Leve Hoje?

Por Alexis Peixoto - 22/04/2008


Ah, Olinda. Terra do frevo, das ladeiras intermináveis e do maior contingente de guias turísticos mirins de que se tem notícia em terras ocidentais. Talvez para combinar com estes reveses da geografia e da fauna humana da cidade, a organização do Abril Pro Rock 2008 tenha reservado para a segunda noite do festival aquilo que se aproxima bastante do que seria um calvário indie: das 17h às 3h da manhã, nada menos do que catorze bandas se revezaram entre os três palcos montados no Chevrolet Hall.

No papel, parecia tudo uma maravilha. Afinal, entre as tais eleitas estavam algumas das mais interessantes crias do “róque” brasileiro dos últimos anos, com o adendo dos neo-zelandeses metidos a tinhosos do Datsuns. Na vida real, onde tu tem que agüentar tudo isso bebendo Nova Schin a três pilas a lata, o buraco é mais embaixo.

A verdade, nua e crua: aquele que era o maior trunfo da segunda noite do APR – a longa lista de atrações – acabou se transformando num aspecto negativo. Com muitas bandas programadas, alguns acabaram tocando cedo demais ou tarde demais, o que deixou público e artistas igualmente indispostos e cansados depois de certo tempo. O resultado foi um excesso perigoso de shows burocráticos feitos por bandas aparentemente desinteressadas (e outras eram pura e simplesmente ruins de doer), intercalados pelos esforços de uns poucos e esforçados heróis que conseguiram fazer com que a platéia ocupasse o maxilar com outra modalidade de exercício que não fosse o bocejo. Para não catucar demais a ferida e dar uma idéia do quão penoso foi a empreitada, dividi os shows em blocos temáticos de acordo com o clima que cada um instaurou na noite, intencionalmente ou não. Parafraseando um professor de química que tive em algum ponto entre a oitava série e o segundo ano, curtam essa lombra.

O infiltrado
Embora o nome do festival seja Abril pro ROCK, nêgo teima em colocar na programação umas coisas estranhas pra dar mais “diversidade” e “abrir a cabeça” do público. Pois só se for com uma lobotomia – experiência, aliás, que deve ser bem mais divertida do que ver um show de Vítor Araújo… Com 18 anos de idade, o pianista-prodígio desfilou caras, bocas, dedos e um discursinho sobre a presença da música pernambucana nas rádios que vai ficar lindo quando ele se candidatar à presidência do C.A. do curso de Artes Cênicas da UFPE. Felizmente, o som do piano – de cauda, é bom frisar! – estava maravilhosamente baixo, o que aliviou um pouco a chatice da situação. Um pouco, mas não o suficiente. – Ôuxe, velho, isso parece… concertos pra juventude, tá ligado? – definiu um local que já estava pra lá de Bogotá e também fugia dos floreios de Araújo. E o pior é que eu fui obrigado a concordar. Outra Schin, por favor…

Os intrépidos desafiadores da paciência humana
Estes são aqueles que, por motivos diversificados, testaram os limites da paciência humana, essa virtude que se torna tão cara quando um cidadão tem que lidar com figuras do quilate de Céu, Júpiter Maçã, Rockassetes e Violins.

Mesmo grávida de uns 25 meses, a cantora paulista inverteu seu codinome e transformou o Chevrolet Hall num verdadeiro inferno hippie. Imagine uma comunidade onde as sandálias de gladiador, as saias rodadas e as camisas brancas de algodão dominavam o salão. No inferno, os berimbaus e os atabaques nunca param…

Na sequência, me aparece Júpiter Maçã. Completamente chapado, o gaudério mandou um repertório calcado nas faixas mais abusadas de sua carreira (vide a fresca “As Mesmas Coisas”, do recente Uma Tarde na Fruteira, cantada num insuportável sotaque de português de padaria). Praticamente todas as músicas foram tocadas em versão extendida, com a banda segurando o mesmo riff por uns dez minutos enquanto Júpiter rolava e babava pelo chão, tentando se comunicar com a platéia num inglês de jornalista bêbado no backstage do Tim Festival. Do clássico A Sétima Efervescência, o gaúcho só tocou três músicas – e conseguiu a proeza de errar a letra em todas.

Enquanto isso, no diminuto palco 2, os sergipanos do Rockassetes mandavam seu rockinho quadrado de brechó, com aquele indefectível cecê de quem teima em usar terno de veludo no clima glacial de Aracaju. Sem problemas de origem aromática, o Violins sofre de outro mal: é irremediavelmente pretensioso, chato e cafona mesmo.

Os azarões
Mas nem só de tristeza é feita uma noite meia-boca. Como que para mostrar que ainda é possível fazer desse tal de “festival de rock” um programa divertido, algumas bandas conseguiram fazer shows memoráveis, mesmo tendo sido delegadas aos palcos pequenos e em horários inglórios.

Foi o caso do Barbiekill, o primeiro hype para a geração fotolog orgulhosamente produzido em terras potiguares. Tendo nas mãos o rojão de tocar no início da noite e no pior palco do lugar, a banda driblou os problemas que atacaram o som na base da esculhambação e da galhofa (vulgo muganga) e fizeram uma das apresentações mais divertidas da noite, com direito a interação com a platéia e assédio de fãs sub-13 no pós-show. Se você é dos que tem medo do sucesso deles, tenha mais ainda depois do Abril Pro Rock. Quem avisa amigo é…

Em situação inversa, tendo que encarar a bronca de tocar já no final da noite e antes das duas atrações principais (Datsuns e Lobão, respectivamente), os gaúchos do Superguidis e do Pata de Elefante não deixaram barato. Os primeiros souberam aproveitar o pouco tempo a que tiveram direito (perderam cinco minutos por conta do sorteio de uma guitarra autografada promovido pela Petrobrás) e fizeram um show intenso, com o volume das guitarras no talo e canções tiradas de seus dois – sensacionais – discos. Já o trio instrumental dos pampas deixou muita gente boquiaberta com temas que iam do rockão à la Cream e Hendrix, passando por flertes com Funkadelic, country-rock e surf music. Coisa fina.

O feijão da mamãe
Comida de mãe você sabe como é: sempre muito boa e bem vinda, mas sem novidade alguma. Tal e qual foram os shows dos gigantes do Autoramas e dos gringos do Datsuns. Ambos muito bons, mas sem uma nota fora do esperado.

No caso do Autoramas, a curiosidade em ver a nova baixista Flávia Cury não durou nem meio riff: fora o fato de ser mais magra, tem a mesma voz, figurino e, felizmente, competência das antecessoras. De resto, foi a catarse de sempre com direito a palminhas, coreografias e uma versão surpresa de “1, 2, 3, 4″ do Little Quail & the Mad Birds (antiga e saudosa banda do vocalista e guitarrista Gabriel), entoada por poucos e corajosos presentes.

Embora tenha rolado toda uma pilha por parte da imprensa nacional, os Datsuns mostraram que rock com clichê (cabelão, calça jeans agarrada, Les Paul dourada e riff com slide de metal no dedo) não faz tanta falta assim do lado de cá. Não que seja culpa deles, claro, mas àquela altura do campeonato era difícil distinguir quem acompanhava o show porque realmente curtia o som da banda de quem só resistia em pé porque não queria perder o show da banda estrangeira.

O sabido
Poucas horas antes de dispensar aos empurrões os incautos que o abordavam durante o show do Superguidis, o ex-punk brega Wander Wildner armou um golpe digno de um Danny Ocean dos pobres. O que começou com todos os requisitos de mais um show “requentado”, com muitas faixas em espanhol tiradas do disco mais recente do cantor, acabou virando uma bizarrice assaz interessante. Do meio pro final. Mr. Wildner sacou da cartola uma versão surf music de (acho) “Hippie Punk Rajneesh” e recitou “Amigo Punk”, da Graforréia Xilarmônica, em tom de milonga. Como se não bastasse, convocou músicos da Orquestra Contemporânea de Olinda e encerrou com versões carnavalescas de seus hinos à fossa, “Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo” e “Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro”. Quem é fã do homem, diz que foi o melhor show do festival. Sem querer entrar no mérito do que foi ou não melhor, admito que o cara foi o mais sabido da noite. E tenho dito.

Os invisíveis
Aos que sentiram a ausência das bandas Madalena Moog, Erro de Transmissão e Sweet Fanny Adams no texto da cobertura, eu explico: perdi os shows dessas bandas. E olhe que eu até cheguei cedo no lugar, mas como a passagem de som atrasou a abertura dos portões, procurei o caminho do shopping mais próximo para degustar um chopp com os companheiros de viagem e levei falta nos três primeiros shows da noite. A história inversa vale pro show de Lobão. Depois de treze bandas e nove horas de paciência, não agüentei nem duas músicas do show: pedi pra cagar e saí.

Abril Pro Rock, até o ano que vem! Ou não…

Créditos Imagens: Divulgação APR 2008/Luciana Ourique

3 Comentários para “Abril Pro Rock 2008: Segunda Noite – Já Pegou Leve Hoje?

Denise comentou em 22/4/2008 às 6:41 pm

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Um dia esse mau humor há de passar… eu tenho fé!

O show do Wander foi o melhor dos que eu assisti no sábado, tb tenho dito!

Enfim…
.

Uala. Foi isso aí mesmo. Eu que sou babão do Autoramas, digo que foi o melhor show da noite. hahaha

bom… eu cheguei na primeira banda e sai juntamente com o ulitmo bus que levou ao hotel do fest.

e posso dizer que nao perdeu nada nas tres primeiras atraçoes, e no show do lobao… acredito que tmb nao mudou minha vida.

Eu discordo quando falou do Datsuns… banda muito foda que deixou fans do hellacopters felizes por assistir um show de ROCK naquela noite.

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