Reportando

APR 2008: A primeira noite e aquele tédio velho de guerra

Por Alexandre Honório - 19/04/2008

Primeira noite de Abril Pro Rock 2008 e aquela sensação de que estava embarcando em um loteria teimava em apitar no meu ouvido. Não deu outra: entre o dormível-ensurdecedor e o repetivo “novo som das futuras gerações”, salvou-se pouca coisa. Sobrou para o New York Dolls segurar o que ainda restava da noite que, nas minhas contas, descambara bem antes dos caras subirem no palco.

Mas, vamos por partes: em primeiro lugar, apesar de bem localizado, o Chevrolet Hall parece não ter estimulado o “apetite” do público pelo festival. Na noite de sexta-feira, entre chutes e palpites da moçada que cobria o evento, viam-se, por alto, umas três mil pessoas que se “acotovelavam” para conferir as atrações do festival. Difícil de entender já que a edição deste ano contou com um set de encher os ouvidos.

Mas tanto não foi suficiente. O público, mesmo aquele mais ávido aos apelos do festival, parecia envolto em um quê de apatia que contaminou todo o lugar da metade para o final da primeira noite de evento. Os que se “acotovelavam”, passaram a procurar um cantinho para sentar e descansar o esqueleto – eu mesmo fui um dos que cambaleavam de tédio lá pelas duas da manhã. Porém, voltando ao início do evento…

Tendo “catado” uma das vagas do projeto Link Musical, o AMP (PE) me pareceu uma das novidades interessantes da cena pós-mangue pernambucana. O palco pequeno e o público que começava a se reunir depois da abertura dos portões não foi problema e, de certa maneira, deu um bom clima pra performance. O AMP – formado por uma “dissidência” do Astronautas -, que faz um som cru e pesado à QOTSA, sagrou-se como uma cria que certamente vai virar figura fácil nos festivais Brasil a fora.

Os também pernambucanos Project 666 subiram ao palco em seguida com, como definiu – se bem me lembro – o Hugo Montarroyos, sua “pauleira do mal”. O show me pareceu bacana, apesar de não gostar tanto assim do gênero. O ponto que mais me chamou a atenção foi a movimentação do público e a roda de pogo que se formou logo que os caras tascaram os primeiros acordes – a primeira de uma aparentemente interminável série…

E então, foi a vez do The Sinks (RN). A banda se saiu muito bem em sua participação, mas, contrariando a opinião de alguns amigos, abro um parêntese: não encaro o The Sinks como o enfant terrible que vêm incensando por aí. Foca, Dante e Marcelo seguram as pontas no palco, mas, no mais, a impressão que ficou foi a mesma que manifestei – mas não escrevi – durante o Festival DoSol: a banda quê de “ei, vamos contar quantas referências classudas das duas últimas décadas cada canção traz em si”. A meu ver, apesar de ser o melhor projeto em que Anderson Foca se embrenhou nos últimos dez anos, o The Sinks ainda me parece pouco inspirado.

Na seqüência, para delírio do público hardcore que compareceu como que convocado para uma convenção, foi a vez do Mukeka di Rato. Dedicando o show ao cantor Adelino Nascimento, a banda mandou um set de canções que “amoleceram” os corações no Chevrolet Hall. Viva a Televisão, Rinha de Magnata (do álbum Carne, de 2007) e uma saraivada de pauladas transformaram o Abril Pro Rock num imenso pogo.

Bem, daí veio o Zumbis do Espaço (SP). Não sei o que diabos há para se gostar ali, mas, pelo “frisson” que a banda causa, imaginei que teria algo interessante pra ouvir. Nada demais: pegue um peão de Barretos afeito aos maneirismos do mundo country, entupa o cidadão com doses cavalares de whisky de quinta e bota o cabra pra entoar algumas canções envoltas em alguma barulheira. Nã…

Ok, pensei que o show do Bad Brains seria, no mínimo, divertido. Mordi a língua e, pior, presenciei um dos shows mais “dormíveis” que já tive notícia: nem o Fantomas, de Mike Patton, conseguiu tamanha façanha em sua passagem pelo Claro Que é Rock naquele “túmulo do rock que atende pelo nome de Rio de Janeiro”. Mesmo com toda a boa vontade que tive – e respeito pelo currículo dos caras – joguei a toalha e fui a procura de algum lugar onde pudesse esticar as canelas. Enquanto isso, Israel Joseph (vocalista da banda) tentava emplacar sua “mensagem” com uma mistura rídicula de espanhol, “purtuguês” e inglês.

Não sei bem o que aconteceu – já que solenemente decidi ignorar o show -, mas pelo que pude perceber, mesmo se tratando de um dos pilares do punk e do hardcores californianos, a mistura dos caras aparentemente desandou. Quando Dr. Know, Darryl Jenifer e Earl Hudson (os três remanescentes da formação original), juntamente com o “cheio de jah” Israel Joseph, se concentravam no hardcores, a coisa funcionava bem. Porém, quando o quarteto abria pro “reggae roots”… amigo, que dureza!

Terminado o martírio regado a reggae e hardcore – mais o primeiro que o segundo, diga-se -, foi a vez do Vamoz!. Como de costume, uma banda competente e inspirada – atenta à transição que vem acontecendo no cenário rock’n'roll pernambucano. O ponto negativo da apresentação, que me parecia “redondinha”, foi a insistência do vocalista em mandar um discurso sobre “as bandas de Recife” e o fato delas não precisarem “pagar pau” pra ninguém. Minha opinião: deveriam ter guardado a “lição de moral” pro bar, consertado a pele da bateria e tocado mais. Vendo por este ângulo, na verdade, não foi um show tão bom assim…

E, para me tirar da espiral de marasmo em que me via enfiado, naquela altura do campeonato, só um milagre.

Não foi bem isso, mas o show do New York Dolls, de longe, foi dos mais interessantes e carregados que tive a oportunidade de assistir. Desconte o fato que, da formação original, restam apenas Sylvain Sylvain e o vozeirão de David Johansen – isso pouco importa. O que realmente deve ser dito é que um show do New York Dolls é, antes de qualquer coisa, uma sensação – pergunte ao Wander Wildner, se puder, e entenderá o que falo.

Personality Crisis, Trash, Babylon… Uma sucessão de canções deliciosas – e outras nem tanto (caso das novas) – fecharam a primeira noite do Abril Pro Rock 2008 com a graça que o evento merecia. Por mais estranho que possa parecer, diante da debandada de boa parte do público, Johansen e Sylvain não esmoreceram e mandaram uma apresentação que, pelo viés intimista que esta estabelecera com o público, me pareceu a melhor da noite.

Créditos Imagens: Divulgação APR 2008/Luciana Ourique

6 Comentários para “APR 2008: A primeira noite e aquele tédio velho de guerra

Alexis comentou em 20/4/2008 às 6:59 am

Realmente, o show de Serguei, digo, do NY Dolls foi o “menos pior” dentre os que eu vi. E Vamoz! é uma bosta, convenhamos. Inspira, no máximo, uma ida ao banheiro.

Boa a cobertura, foi isso mesmo. O melhor pra mim foi Mukeka. Eu até gosto do Vamoz, mas o show aqui em Natal foi melhor.

O show de Serguei e companhia foi bom, só. Bad Brains foi um saco.

foca comentou em 21/4/2008 às 4:12 pm

copiamos umas coisas do weezer, ramones, mc-5, umas paradinhas de riff do ac/dc. Divertido demais e parece que apareceram uns caras para gostar, que bom!!

eu tava nervoso no abril mas o show me pareceu bom lá de cima. Valeu!

foca cuomo – sinks

Denise comentou em 22/4/2008 às 6:44 pm

.
Gosto é como…

Concordamos com o New York Dolls, já tá de bom tamanho.
=)

[Eu quero a entrevista!!! Protesto!!]
.

descordo com o peão de barreto, hunfr.

aquilo é horrorbilly, hunfr

se fosse aqui no nordeste, algo como “serão sangranto”

=P

o primeiro dia do APR foi foda, mas o segundo foi quem me surpreendeu mesmo.

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