Reportando

A Pedra do Reino e a TV

Por Alex de Souza - 10/07/2007

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Neste fim de semana fui tomado por uma febre intensa. Por cinco horas ardi até que restassem pouco mais que cinzas. Tudo por causa dos pequenos milagres que só a santa internet poderia realizar.

Falo assim porque na tarde do sábado, assisti, numa leroada só, aos cinco episódios da microssérie A Pedra do Reino, exibida pela Rede Globo recentemente. Como na época da estréia estava viajando, acabei perdendo a chance de acompanhá-la. A façanha se deu pelo advento dos bit torrents (quem é do ramo virtual está careca de saber o que é) e pela generosidade do amigo Alexandre Honório, que procurava uma companhia para a maratona, por obrigações da pós-graduação em Sociologia.

Sou até suspeito para falar de Ariano Suassuna. É, para mim, uma das maiores personalidades da literatura brasileira. Uma admiração que começou ainda na época da finada ETFRN, quando tive a oportunidade de assistir a uma das já lendárias aulas-espetáculos. De lá para cá, o interesse só aumentou. Desconheço livros ruins de sua lavra. Pode até ter um ou outro mais fraquinho, como A História de Amor de Fernando e Isaura, mas todos estão bem acima da média.

Por ainda não ter assistido, meio que me desliguei da celeuma que os comunicólogos de plantão e os cadernos culturais fizeram em torno da série. Lembro que a Folha publicou alguns artigos com análises e mais análises sobre o porquê de a produção ter sido o fracasso de audiência que foi.

Podem dizer o que quiserem: estou para ver algo tão marcante, tão pungente – e também tão fiel ao espírito da obra máxima de Suassuna. Ficar discutindo se o público achou isso, ou achou aquilo é irrelevante: não vai diminuir o valor da obra de arte produzida pela Rede Globo (e eu nunca pensei que seria capaz de escrever algo semelhante a isso na vida).

O mérito do diretor Luiz Fernando Carvalho foi perceber que a teatralidade é uma marca importante da obra de Ariano Suassuna. E trazê-la para A Pedra do Reino, que é um romance de dificílima adaptação para outra linguagem, outro meio, foi aceitar o caráter mítico da narrativa, muito superior a seus aspectos históricos, já que a história tem a Revolução de 30 como pano de fundo.

Outro pulo do gato foi a construção do roteiro. Mesmo atendo-se aos trechos que concentram as ações do romance (e eliminando boa parte do enciclopedismo sertanejo que o envolve), o trabalho de Bráulio Tavares e companhia conseguiu manter intacto o texto de Suassuna, no qual reside toda a força da obra. É impossível não vibrar ao reconhecer trechos e mais trechos em que a voltagem poética do velho paraibano alcança picos.

A onipresença de Quaderna, como duplo narrador e protagonista, reforça seu papel de alter-ego do autor – e também sua ligação profunda com o Quixote de Cervantes, tanto pela própria caracterização, como pelo teor metalingüístico. O ator Irandhir Santos está perfeito no papel.

Ora, Carlos Drummond de Andrade declarou, à época do lançamento do romance, que não era qualquer alma que produzia uma obra daquele quilate (ou foi qualquer coisa muito parecida com isso). Não era de se querer que uma adaptação de tal ‘monumento’ fosse algo didático, burocrático. Seria comprometer todo um compromisso estético de Suassuna, do qual A Pedra do Reino é o exemplo máximo.

Esse compromisso é o movimento armorial, que pretende elaborar uma arte de cunho ‘elitista’, erudita, ou seja, uma arte que requeira repertório e estudo por parte dos realizadores (e por conseqüência, nos apreciadores), a partir de raízes populares.

Confundir essa matriz popular do armorial com a superficialidade da cultura de massa e as soluções dramáticas esquemáticas e empobrecidas da televisão, ou defender que seja possível um meio termo entre elas é ignorar que esse não é o objetivo estético de Suassuna.

A tevê? A tevê que se lixe.

Um Comentário para “A Pedra do Reino e a TV

gabriel comentou em 11/7/2007 às 1:59 pm

Também quero ver a série completa. Talvez a coisa completa apague algumas impressões negativas que tive ao assistir o 3º capítulo (único que vi).

Nem quero discutir se a TV “comporta” ‘A Pedra do Reino’, porque também já estou de saco cheio dessa conversa.

Acho que tecnicamente a minissérie está perfeita (falo de luz, câmera, figurino, edição, essas coisas).

No entanto, devo dizer que achei as atuações exageradas, aquela coisa do ator de teatro desconhecido de Recife querendo mostrar tudo o que tem porque tá na Globo.

A dicção de alguns atores me foi incompreensível em certos momentos. O texto de Ariano é bem shakesperiano nessa coisa de ter frases imensas, então o ator tem que ter cuidado redobrado pra falar tudo sem atropelar.

Outra coisa: no terceiro capítulo acontece uma CAVALHADA, uma das mais clássicas manifestações folclóricas herdadas pelo Brasil da Península Ibérica. Mas os personagens chamam o evento de “CAVALGADA” (?) repetidas vezes.

Também acho que a escalação de atores não nordestinos provocou uma penetração de sotaques completamente estranhos àquele universo. Isso também deveria ter sido evitado, penso eu.

Finalmente, eu fiquei com a impressão, talvez errada, de que Luis Fernando Carvalho é diretor de uma estética só, porque a associação com Hoje é Dia de Maria é inevitável.

ABS!!!

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