Reportando

Pela Ignorância do Próximo (Mas não tão próximo, por favor)

Por Tiago Lopes - 16/12/2007

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Numa das mesas do Encontro Natalense de Escritores desse ano, falou-se sobre literatura (sério!). Os autores participantes dessa mesa falaram um pouco sobre suas obras (quase nada, que é pra não ir além da auto-propaganda e deixá-las expostas à discussão). Depois, levaram mais de uma hora de conversa em opiniões redundantes sobre a perniciosidade das atuais listas de best-seller, e como os leitores de bons livros tem sumido do mundo (inclusive do 1º mundo), e como isso é ruim e oh!-como-sinto-pena-e-gostaria-de-trazer-esses-infiéis-leitores-de- Dan-brown-para-o-mundo-de-luz-e-sabedoria-do-Philip-Roth.

Nunca vi tanto altruísmo ser desperdiçado em causa tão inútil. Esperei ansiosamente que a seguinte situação acontecesse:

Uma das várias madames no recinto se levanta e fala em defesa de suas paixões:

- Ah é! Dan Brown é ruim? Você poderia dizer para todos nós o que você já escreveu?

O acusador levanta da sua cadeira, se dirige a refinada senhora com um pequeno volume na mão e a entrega. Platéia em silêncio absoluto. Ela folheia rapidamente o livro de pequeno porte. Depois de um breve e constrangedor barulho de suspiros, a madame sentencia:

- Isso, meu filho, não dá nem pra segurar a porta da minha cozinha de um vento forte, que nem meu “Ponto de Impacto” fez depois que o li. E, pelo que eu tô vendo aqui, você não consegue fazer um capítulo ir além de duas páginas.

Platéia ri, ainda não se sabe se de escárnio da madame ou da observação feita por ela. O autor acha que é pelo primeiro motivo e ri juntamente com os outros. É um tolinho mesmo.

Back to the real and painful life, tentei imaginar a utopia dessas pessoas sendo posta em prática, numa hipotética Natal de um hipotético futuro. Todo mundo muito letrado, todo mundo muito proustiano, joyceano, flaubertiano, camuniano, calviniano. Ao ouvir alguém perguntar um simples “como tem passado”, o cidadão comum responde:

-Pela manhã acordei meio sartriano mas, entre o café-da-manhã e a parada de ônibus, me senti tão otimista quanto um escritor baiano. Infelizmente, depois de uma discussão com meu chefe, te juro que durmo com esse complexo de Raskolnikoff martelando a minha cabeça (assim mesmo, com aliterações e absurdas adjetivações de nomes de autores).

E as novas tendências seriam apresentadas assim na capa da Nova: “O Stream of Consciousness volta com tudo nesse verão! Saiba o que usar e qual o melhor modelo de bolsa para carregar a mais recente edição bilíngüe de Ulysses sem sofrer tensões musculares!”. Ou: “Vestidinho Plissadinho Estilo Virgínia Woolf: você ainda vai ter um!”.

Os medíocres e idiotas PRECISAM existir, principalmente em grande número. Foram eles que inspiraram a minoria a criar grandes obras, serviram de matéria-prima para a composição de personagens ou fazendo nascer o sentimento de exclusão em algum gênio literário da vida. Precisam existir também para evitar que exemplos hipotéticos como os daí de cima se tornem reais. Nada mais chato do que ouvir um “viu a nova tradução de Madame Bovary? Que descrição, que descrição!” ao invés de “a Luana Piovanni tá muuuito gostosa na VIP desse mês, gostosa pra caralho!”

And it gets worst: no lugar do futebol da quarta, cafés filosóficos seriam a maior audiência da TV desde a refilmagem de Roque Santeiro sob um prisma “gracilianico”. Tópicos de discussão: A América do Sul finalmente desnudada da maneira que merece! Escritores lançam sucessivos socos no estômago da nossa hipocrisia! Chegou a nossa vez! Participam da mesa Arnaldo Jabor e Flávio Luiz da Silva.

Por causa desse possível futuro horrivelmente incontornável, peço que vocês esqueçam desses seres ignóbeis e não os incitem a ler at all. Caso não resista à tentação, indique o Dan Brown da moda mesmo. Essa pessoa com certeza vai se tornar um grande e rico executivo e ter seu perfil publicado toda semana num jornal diferente, dizendo o quanto “O Monge e o Executivo” mudou sua vida, ou que adoraria conhecer as terras onde as pipas são caçadas, ou o quanto a mini-larápia de livros foi uma inspiração em sua vida.

E evite também a adjetivação de nomes de autores. Cada vez que alguém do seu lado falar “fiz uma viagem tão cortaziana!” dê-lhe um cascudo (digo uma “reada” na cabeça com o punho fechado, não o folclorista comedor de camarão). E, acima de tudo isso, evite encontros de escritores que não falam sobre literatura. Nenhum escritor tem a obrigação de só falar sobre literatura, mas os convidados do ENE levam essa afirmação muito a sério.

7 Comentários para “Pela Ignorância do Próximo (Mas não tão próximo, por favor)

Rodrigo Levino comentou em 17/12/2007 às 7:17 pm

Ai, ENE é tão last season…

Ludy comentou em 18/12/2007 às 4:21 pm

eu gostei daquele livro do Dan Brown, como é mesmo o nome? (risos)

=( comentou em 19/12/2007 às 4:03 pm

Que onda…Engraçado.
Nesse dia aí, esperei, ao menos, um tímido (não vindo de mim)”desculpe, sr. escritor, mas o sr. esqueceu de pesquisar os sebos…”
O ruim não é a maioria medíocre, mesmo. Sempre houve. Ruim é a mediocridade ornamentada. Pior, ainda, é a ausência de uma minoria excepcional pública.

Davi Araújo comentou em 20/12/2007 às 3:21 am

Bom texto! Só pra não perder a viagem: é Ralkólnikov, my dear!

Tiago Lopes comentou em 20/12/2007 às 4:30 am

Caro amigo Boina, a tradução que eu li era Raskolnikoff mesmo (conferi e tudo mais depois da sua correção).

ponto de impacto foi, de longe, o pior livro que eu li na vida.

concordo em partes com o texto, acho que o problema estão nas situações limítrofes. Todos idiotas (como hoje) ou todos letrados. O ideal seria o meio termo.

Idiotas e letrados?! Existe mesmo uma linha que os separem?! “Cagalho”!

Dá licença que eu vou no banheiro.
Misturei Dan Brown com James Joyce novamente!

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