Por Alexandre Honório - 23/04/2009

Creio que por mais que se queira o contrário, encarar a cultura colaborativa que se dissemina através da Internet como algo que tem redefinido nossa relação com a própria cultura se transforma mais e mais em realidade incontornável. O problema, entretanto, é que a cultura enquanto indústria aparentemente não conseguiu acompanhar o ritmo das transformações ora em curso. Dois exemplos destas transformações irromperam nos últimos dias quando uma versão inacabada de uma superprodução hollywoodiana foi “lançada” à rede e a própria liberdade de expressão foi posta em xeque como conseqüência disso – quando um repórter chegou a ser demitido nos EUA por ter resenhado a cópia vazada.
Os sites e publicações especializadas em cultura em geral entraram em curto tão logo a notícia de que uma cópia inacabada de “X-Men Origins: Wolverine” fora disponibilizada na Internet se disseminou Internet afora. O filme que tem sido aguardado como uma das apostas para 2009, terminou compartilhado entre todos os sites que compartilham conteúdo audiovisual na Rede. Pirataria? Não é esta a pecha, mas há uma imperfeição que vem sendo ignorada.
A grande questão é que, de uma maneira ampla e complexa, vivenciamos uma transformação que aparentemente não foi ainda compreendida por esta “indústria da cultura” que se esconde por trás do que vemos e ouvimos contemporaneamente falando. “X-Men Origins: Wolverine”, menina dos olhos da vez de uma Hollywood que não consegue mais lidar com os humores da turba como há bons vinte anos atrás, amargou a derrota frente uma outra cultura que se esgueira e tem corroído um bocado dos pés desta criatura movida a som e imagem.
Tão logo a descoberta se disseminou pela rede, inúmeras “equipes” de legendadores, sincronizadores, semeadores e tantas outras comunidades se colocaram à disposição para inserir sua parte, seus saberes, nesta surpreendente situação. Em pouco mais de dois dias – como acontece com quase tudo que cai nas mãos desta “outra indústria cultural” – legendas para as principais distribuições do filme (pois foram tantas, assim como as tentativas de refrear o “prejuízo” do vazamento) pipocaram na Rede.
“X-Men Origins: Wolverine” ganhara uma pré-estréia involuntária e, por mais que se diga algo contrário a isso, mobilizou a atenção de todo o planeta para tanto. É assim que a nova configuração de uma cultura contemporânea se manifesta.
Essa tal manifestação enseja uma outra discussão como conseqüência: esta cultura de colaboração que se dissemina através das descentralizações que brotam nos mais improváveis cantos da rede é a vingança benjaminiana das massas contra a indústria. A FOX e sua obra foram as vítimas da vez das “vagas que envolvem a obra de arte em seu fluxo”, como previra Walter Benjamin.
O problema que o episódio acima encerra é emblemático, como fora aquele que tomara “Tropa de Elite” de seu diretor, José Padilha, assim como acontecera com tantos outros: foi ignorando “a recepção através da distração, algo que se observa crescentemente em todos os domínios da arte e que constitui o sintoma de transformações profundas nas estruturas perceptivas” que Hollywood perdeu seu aparente controle sobre suas audiências.
Em 30 de Abril o filme “X-Men Origins: Wolverine” ganha as telas de cinema de todo o país. O motivo para tanta pressa? Uma nova estética que bate às portas e vem inaugurando um novo limiar para os saberes culturais: a participação enquanto novo estado d’arte.
E antes que esqueça: bem-vindo outra vez ao futuro…
Milena Azevedo comentou em 4/5/2009 às 5:35 pm
“A vingança benjaminiana das massas contra a indústria”.
Assino embaixo dessa sua afirmação, Alexandre. Entendo a internet como uma janela democraticamente aberta para todos (principalmente por a inclusão digital englobar até quem nem tem TV em casa), trazendo literalmente o mundo para àqueles que sabem usá-la.
As polêmicas sobre os “vazamentos” de Tropa de Elite e de X-men origens: Wolverine terminaram até servindo como uma propaganda de divulgação dos filmes, haja vista a bilheteria de ambos. Mesmo quem havia assistido à versão workprint, foi ao cinema conferir a versão final.
Acredito que a indústria já captou isso e daqui pra frente aparecerão mais uns tantos filmes que “vazarão” inexplicavelmente na net. Eles continuarão fazendo barulho, afirmarão que irão atrás do responsável e tal, mas tudo lorota.
Aos poucos esse pessoal está vendo o poder da grande rede mundial de computadores, estudando-o para poder retomá-lo; querem o controle novamente nas mãos dos “mass media”, não tenha dúvida. Porém, eles não estão querendo enxergar que o povão já abriu o olho há muito tempo e bradou que esse mar é território livre.
cabreirus comentou em 8/5/2009 às 7:45 am
>:- ( nem vejo tanta revolução assim; fazem anos que as pessoas gravam os filmes direto num cinema americano, 3 semanas antes de lançar aqui. O filme do Wolvi é pipocão e se não me empolgou, pelo menos dei umas risadas vendo o Hugh com cara de mal com uns cabinhos atrás. É até poético, veja só. Marionete? did it ring any bells?
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