Por Carlos Fialho - 12/04/2007

Lourenço Mutarelli é um homem de talento. Uma das figuras mais respeitadas das histórias em quadrinhos que um dia resolveu virar escritor. De sua mente inquieta e perspicaz, nasceu “O cheiro do ralo”, um dos romances mais surpreendentes dos últimos anos. Então, um dos mais cultuados autores dos quadrinhos passou também a colecionar fãs em outra área, a literatura.
Felizmente, Lourenço não estava só nem em sua inquietação, nem na perspicácia e, muito menos, em seu talento. O Marçal Aquino leu “O Cheiro do Ralo”, falou dele para o Heitor Dália, que disse que ia filmar. E teve o Selton Mello, que também leu, e disse que tinha que fazer o papel principal e, depois de muito trabalho em equipe, sacrifícios e aperto financeiro, nasceu “O cheiro do ralo”, o filme. Lourenço Mutarelli agora é respeitado em mais uma forma de expressão artística.
Mas o que mais me toca na história contada por Lourenço é a paixão que o personagem principal desenvolve por uma… bunda. Isso mesmo: ele se apaixona por uma bunda. Grande, volumosa, bem torneada, belíssima, podemos afirmar. Para os puristas e ignorantes, uma história indecente. Mas eu, por experiência própria, afirmo que não é nada disso. Uma bunda pode despertar sentimentos nobres e ser objeto de afeição sincera. Só quem já se apaixonou de verdade por uma bunda compreende todo o sentimento e a beleza, ocultos no livro do Lourenço!
Faz alguns anos. O cenário era a praia de Pirangi, 30 quilômetros ao sul de Natal. Estava eu curtindo um típico sábado de verão, andando pela praia, procurando algum rosto conhecido para trocar uma idéia ou belas mulheres de biquínis para limpar a vista. Foi então que vi, uns 10 metros à minha frente. Uma mulher loira, cabelos longos, de grossas pernas e a mais bela bunda de toda a praia que, é válido dizer, estava abarrotada de gente.
Segui-a por toda extensão da praia. Pouco afeito a caminhadas, devo ter andado uns dois quilômetros, na esperança de que em algum momento ela se virasse e eu pudesse ver o rosto à frente daquela maravilha anatômica, da prova cabal da existência e do perfeccionismo de Deus. Tomado por uma crescente curiosidade, prossegui hipnotizado a trajetória daquele poema em forma glútea. Eu queria saber quem era a dona, a proprietária, a princesa de tão generosas posses. Queria saber se ela dividiria aquele patrimônio comigo, se me faria seu consorte e protetor daquela ode à beleza feminina. Naquela manhã escaldante de verão, olhando aquela bunda, eu soube o que era estar apaixonado.
Não havia mais nada ao nosso redor. Tudo o que havia era eu, a bunda e a dona misteriosa. Mas mesmo com minha insistente e dissimulada perseguição, fiquei sem conhecer o tão almejado rosto. Ela se foi. Sumiu dentro de um automóvel que, por sua vez, esgueirou-se pelas ladeiras que levam de Pirangi. A partir de então, vivi um verão bastante romântico. Passei o mês inteiro buscando maravilhosa visão daquela bunda para saber quem era a Cinderela desconhecida. O sapato de cristal não era uma imagem mental daquele início de verão, daquele sábado inesquecível. Minhas buscas, porém, se mostraram estéreis. Nunca mais vi o objeto de minha paixão. Nem naquele verão, nem em nenhum outro.
Às vezes sonho com aquela sensacional visão e penso se um dia reencontrarei, se a tocarei, se conhecerei sua dona. Mas são devaneios vãos, eu sei. Por ora, vou me contentar com o filme baseado no livro do Mutarelli. E, ao ver o personagem principal, um pobre diabo como eu, apaixonado por um traseiro de mulher, saberei que não estou só no mundo.
Aristeu comentou em 14/4/2007 às 12:50 pm
“Só quem já se apaixonou de verdade por uma bunda compreende todo o sentimento e a beleza, ocultos no livro do Lourenço!” Vejamos, o livro/filme chama-se “O Cheiro do Ralo”, cheiro que o protagonista se esforça em informar aos outros, é do ralo, é do ralo… A paixão pela bunda é a metáfora pela paixão dele ao cheiro do ralo, ao que há de podre e vil no mundo. É a metáfora dele mesmo, incapaz de amar, de se dar, é a coisificação. É brutal. Não vejo nada de muito nobre nisso. Ah, e eu não sou purista. E o filme, é ducaralho!
gabriel comentou em 19/4/2007 às 12:57 pm
Nunca vi uma bunda dessas em Pirangi. Só umas gordas horríveis e seus maridos pastelões arrastando criancinhas pra lá e pra cá, além de farofeiros grotescos e uns panacas brincando daquele troço q é uma mistura de wind-surf com sei lá o que o custa a mó fotuna.
Fialho comentou em 19/4/2007 às 2:50 pm
Aristeu tem toda a razão. Essa versão que ele deu é a metáfora representada pela bunda do filme e não a beleza que enxerguei e relatei em meu texto. Na verdade, utilizei o mote de Lourenço para escrever essa crônica e “homenagem” às mulheres.
Fialho comentou em 19/4/2007 às 2:51 pm
Caro Gabriel, eu vi, garoto! EU VI!!!
gabriel comentou em 20/4/2007 às 6:01 am
hehehe, então foi por isso o seu espanto. A visão fugiu da “fauna” habitual de Pirangi. kkkkk
Alex comentou em 23/4/2007 às 10:04 am
O filme pode até ser mais profundo, mas que a bunda é massa, é sim!
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