Por Waldenor Júnior - 21/03/2008

Bem se sabe que Richard Strauss compôs sua obra Assim Falou Zaratustra baseado no poema filosófico homônimo de Nietzsche e que este até se gabava que podia descrever qualquer coisa em forma de música, e essa composição é a mostra mais contundente dessa afirmação. Parece-me que esta parte da composição de Strauss está intimamente ligada a “Visionários do Além” ou “Dos Crentes em Além-mundos” dos “Discursos de Zaratustra”.
A música, o prólogo, reflete exatamente essa sensação, um vislumbre do porvir que se esconde em alguma parte entre os lampejos dos trompetes e os trovões dos tímpanos, um envolvimento sonoro crescente que culmina em frases de acordes mais longos e vigorosos que parecem dizer “Olhem! Olhem! Vejam o que vejo”, o radiante, e o desperto, como o Buda nascendo em sua iluminação e contemplação, e por fim toda a calma e plenitude desse acordar do espírito nos acordes organísticos e confortáveis que encerra a música, e é como o próprio Zaratustra sentia esse despertar, em forma de chamado, uma dádiva que deveria compartilhar com os homens, sair do alto de sua montanha, de seu estado elevado e retornar ao terreno mundano.
Assim é toda a obra de Arthur C. Clarke, um chamamento ao vislumbre de mundos além, não como os ditos no discurso do Zoroastro, que são aqueles que querem enxergar mundos além por ignorância, por fuga, delírio, mas sim como a música de Strauss que nos aponta para o horizonte e para o além deste.
Arthur C. Clarke fazia-nos mergulhar em mundos distantes, mas com a sabedoria de construí-los a imagem da possibilidade, contrário ao fantasioso-onírico que sempre rondou o gênero ao qual escrevia. Sua obra adulta de ficção-científica nos colocava frente às discussões filosóficas e a um sentido de existência mais elevados, dignos da comparação que faço a Nitzsche e Strauss.
Sua obra mais conhecida foi imortalizada pelo olhar de um outro gênio, Stanley Kubrick, em 2001: A Space Odyssey, e é nesse olhar do olhar de Kubrick que mostra a genialidade de sua escrita, escolhendo nos revelar como foi a aurora da consciência humana imaginada por Clarke a luz da sonoridade de Strauss.
Mais tarde, quando o monólito negro é encontrado na lua, e pesquisadores vão a seu encontro, surge uma outra obra musical impar em sua maestria e força, composta por György Ligeti, considerado um dos maiores compositores da chamada música “erudita” do século XX.
Essa em oposição a Strauss, mas também em consonância, nos mostra o inusitado e amedrontador mundo que está além, com um discurso de vozes aparentemente cacofônicas e dissonantes, mas em harmonia com as sensações que Kubrick queria passar, nos dizendo o quão inusitado também eram os mundos escritos por Arthur C. Clarke, não apenas mundos mas a essência das idéias que construíam esses mundos, as tramas psicológicas profundas que vibram como aquelas vozes em acordes dissonantes e espetacularmente sincrônicas, feito o caos que nos inunda, constrói e destrói em mesmo tempo comparado a uma dança, a dança do Deus Shiva.
Arthur Charles Clarke morreu… o espaço é vazio, frio e não há som que se propague, somente as emissões eletro-magnéticas cruzam a imensidão povoada pelo indefinível e inefável. Apenas ele podia nos trazer o que sonhava, descer de sua montanha, de sua profundidade humana e poética e fazer-nos vislumbrar muito além dos mundos, isso vai ser clichê, sei, mas ficamos órfãos
gabriel comentou em 2/4/2008 às 6:16 am
Muito bom Wal!! Em oito parágrafos, rendestes uma bela homenagem a Clarke e outros quatro gênios.
Pablo Capistrano comentou em 4/4/2008 às 2:07 pm
Pois é Wal,
a idéia do Zaratustra é essa:
o homem é uma corda entre o animal e o além homem, perigoso parar, perigoso olhar para trás,
só sobrevivem aqueles que atravessam a corda sobre o abismo,
aqueles que não tem medo de olhar dentro do abismo.
Nietzsche é sinistro, não é?
e o Kubrick mais ainda porque junta tudo isso em um filme, a música certa,para a idéia que tem em vista.
não conseguindo encontrar nada fora do lugar nos filmes de Kubrick.
coisa de judeu não é?
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