Por Carlos Gurgel - 04/06/2007

Tenho pelo sertão uma paixão incontida. O seu sol como luz que não se esgota, ilumina trincheiras e descobertas. Triunfos e comboio. Nessa esteira onde nascem ícones, mitos e personagens, a trilha que se escolhe é feita de suor e tesão. Tensão e romances.
Sim, a terra seca destampa a coragem que guardamos quando precisamos demonstrar o amor que sentimos pela terra onde nascemos.
Assim, ao redor de fogueiras e folias, foles e cachaças, se faz o imaginário de uma região única, rodeada de tulipas e túnicas.
A pele de quem nasce no sertão é protegida por camadas de heroísmos. Com a seca, parece que ficamos mais parecidos com os filhos de uma hospitalidade atávica, semelhante ao prazer que abre porteiras, constrói ilhas e que germina o aparecimento de uma lua que provoca pedaços de pecados.
A poesia nessa terra é como se fosse uma flor. Uma flora também. Uma rosa que nasce por entre rios secos, pontos de líquida paz e muito burburinho.
Isso tudo faz parte do que se poderia dizer da grandeza que existe no livro de Oswaldo Lamartine, “Uns Fesceninos”.
O livro, assim como seu autor, requer estudo e debruçamento. Debulhar o seu conteúdo é como um mistério que não se esgota.
O chulo vem da imaginação, como também a elegância de um escárnio. O que se estabelece como verdade no “Uns Fesceninos”, é justo o que se presta ao burlesco, ao escárnio.
Oswaldo, como garimpador do universo sertanejo, nesse seu livro, cultua o fascínio como verdade, como identidade de um povo que pisa ouro e ferro. Pepitas tão ricas, como rios de risos. Um platô de sacanagens, versos epidérmicos, loas aos seios.
Sim, o deboche do verso livre e rompedor, provocador, viés do limite entre moral e pilhéria, princípio e sismo. Sem arrodeios e labirintos, o universo fescenino no olhar de Oswaldo, proclama aos quatro cantos os encantos de uma poesia viva e verdadeira.
Percebe-se que desde o primeiro instante, o livro é uma fábula, uma tabuleta de preciosidades, que alimenta o riso, o escárnio e suas inúmeras faces. E a comprovação que se tem é como uma descoberta que arregaça o pudico, como o mínimo, uma obrigação que se deve ter para quem procura a leitura que instiga instintos e maledicências.
Prova-se aqui, a importância que o verso burlesco exerce sobre a maturidade de quem lida com a vida como uma expressão renovadora e enriquecedora da alma humana.
Oswaldo com a sua lupa, declara a sua simpatia pelo charme do chiste, pelo humor sem pudor, como mercadoria do pecado, ávida por uma azáfama epidérmica, nesse universo que multiplica e espalha inúmeras versões e inúmeros versos.
Essa poesia que se presta ao que se pensa que não presta, como o promíscuo do verbo que se lambuza com romances e transas verbais. Folhetins de bocas de bares e das marés que inundam leitos e reinos. Como sobejo de um beijo requentado na ponta de uma vela acesa e rodeada de cúmplices.
Destampando riquezas e paraísos, descobertas e jardins; a poesia que Oswaldo escolheu como norte do seu suor, glorifica quem da vida se fez mote, pote de uma promessa que declara a existência de um sertão sacro e profano.
A riqueza das suas falas, nesse sertão que se espalha por entre rochas, bois, caçuás e bigornas, resguarda no seu interior a fornalha de fodas e fadas. Além de uma lista interminável de histórias que curam dores e cotovelos.
Sim, o sexo, assim como o chiste, como peças de um vendaval que descobre com o seu ímpeto, ensaios e partituras, é luz que alimenta incrédulos e tão pálidos. Oswaldo, nesse seu trabalho de ossos e gozos, garimpa brilhos e relíquias. Liberta e revela segredos de uma obscenidade que beira o cais dos nossos mais recônditos desejos.
Nesse universo boêmio e noturno, vadio e pornográfico, parece que quem é pobre de grana é rico de espírito. Como a certeza que se tem, que a desgraça de uma vida sofrida, é a exata dimensão de um vulcão que se abre irradiando bocejos obscenos e a licenciosidade de copos e corpos suados, extenuados por uma estação onde se reconhece a mão que suporta vinhos e vilões. Risos e lágrimas.
Sim, pilhéria e riso, deboche e erotismo andam juntos, justos como uma manivela afiada e venal. Como uma pólvora que contagia a enorme fogueira das nossas pelejas corporais . Essa correspondência tão transparente do bocagiano pileque de uma noite que não tem fim, recorta as rédeas onde nascem cópulas e fórmulas que transpõem monastérios, clausuras e dogmas. Desabrocha nos seus autores a irreverência, abundância de tipos, sarcasmos e escarros. E a espontaneidade da maledicência como profusão de caras e cartas marcadas.
Essa radiografia que agora Oswaldo nos mostra, desse enorme mar que revela o escroto, o esgoto onde guardamos nossas imagens, nossas sacanagens, é a referência de um roteiro onde se consagra a genialidade de um amor proibido recheado de pactos e cactos. Risos e porres.
Geralmente o que se verifica na criação do verso fescenino, é o interimável uso que se faz do próprio cotidiano desses poetas, como matéria prima das suas mais imprevisíveis rimas. Irmã de escândalos e pântanos. Chutes no chulo do achincalhe que não prospera e na obscena cena que todos observam como reino do respeito e admiração. Admiração por se mirarem em penumbras e sombras de si mesmos.
Eles relacionam tudo a uma fermentação epidérmica. Sempre, ou quase sempre, qualquer fato, qualquer boato, é fermento e bússola, algibeira que se utiliza do vocabulário que eleva e derruba eus e egos. Ferramenta que produz, que imagina, a sua própria criação.
Essas manufaturas são feitas na hora. Como encomendas de minutos. Esse senso, rapidez de coletar rimas e misturas finas, transborda-se em relíquias. Verdadeiros achados que sobrevivem como a mais pura e genuína interpretação de uma peleja psicodélica e surreal.
Também os achados, transitam entre o que é substância, alimento da alma, e a realidade, e praticamente se credenciam como principais tesouros de quem acredita na poesia que conspira curvas e curas.
Oswaldo, nesse seu trabalho, como guardião de sermões sertanejos e dionisíacos, certamente lança créditos sobre a importância de se perceber que o universo sertanejo, como uma planície, acolhe anjos e demônios. Secas e abundâncias. Trovões e a cantilena de pássaros e serpentes. Assim, certamente, todos os poetas que redimensionam as suas vidas, utilizam versos e imagens como profecias, faróis das suas enormes aventuras.
Esse universo sertanejo de Oswaldo, está rodeado de atalhos, retalhos, borralhos. Rico, exuberante e de uma luminosidade ímpar. Pois, se caminhar por entre quadras, versos, poemas desse imenso mundo, é como dar de cara com bandeiras e brasões, estandartes e dragões. Uma coletânea que agasalha espantos e o tesouro de lendas, encantos e penitências. Riachos e aguapés. Sabores e amores. Extremamente surreal. Como lugar onde se ressuscitam reinações e a encarnação de uma sombra que protege e afaga a solidão de um candeeiro.
Assistir ao parto de um poema é tão indescritível como a floração de um parto humano. Manifestam-se dores e êxtases. Forno e criação, suor e sexo. Essa multiplicação do que há, do nascimento, do engatinhamento, de asas que voam como procurando chão e casa, personaliza a própria revelação da existência. Pouso e alimento. Como um caminho que se faz por cima do capim da roça. E que depois de seguidas vezes, as marcas das palmas dos pés, fervilham no chão, como o chão aceitando o peso dos nossos corpos.
E no sertão, de nuvem tão densa, de lua tão bela, de feira tão livre, isso tudo passa pela mente como uma hospedaria de cores. Como desfile que estampa a dor de quem perdeu um grande amor. Como brasa que acalma o sofrimento de quem se largou no meio da escuridão da noite que cega e abana o sussurro dos grilos.
Assim é o sertão, como uma cancela que vai e vem, que escala montanhas e olhares, amores e colchões. Desafiando esses caminhos escorregadios e misteriosos. Como fantasias e riquezas de pensamentos. Romarias fugazes e a presença das lembranças como borrifando vontades e calafrios.
Esse sertão, que é o sertão de Oswaldo, sobrevive , porque a fé do seu povo transporta o tempo da terra para a porta do céu. Como a boca do fescenino verso que declara o seu amor pela paixão desassossegada e anacrônica.
Assim, rimar é tão difícil quanto amar. E amar, como procura, é como gostar de um poema. E se casar com alguém é como viver com um poema. Como um poema onde possamos amar, viajar, sonhar e se multiplicar. Na companhia das palavras de um matrimônio tão intenso e tão íntimo. Como o beijo que se dilacera no dorso de uma montanha de ancas e seios sagrados.
Assim profano e sagrado se entreolham. Como instrumentos de um pacto de fenômenos e espantos. Como uma ponte que liga o tempo da ilusão e o tempo dos nossos olhos. Farinha e cuia. Matulão e traição. Imaginação do olhar daquele vislumbre de curvas e calmas.
Idílio de índole e dom. Chocalho que atanaza a cor do couro de quem luta e conquista. Vaqueiro e promiscuidade. Beijus. Sobejo da sobra de pinga como fécula da fé sertaneja. Ronda que roda preces e fuzarcas. Como uma esquina de pé de rua, que se dobra e onde se encontram ciúme e perdão, súplica e pecado.
Sim, precisamos do sertão. Com a sua vastidão de fantasmas. Com os seus amanheceres. Costumes e descobertas. Precisamos que o sertão nos ensine o que Oswaldo nos deixou. Precisamos que Oswaldo nos confesse o que o sertão lhe amou. Como árvore frondosa e soberana. Como semente que nasce e reparte colheitas e procissões. Como a fruta que floresce ao redor da lua das nossas lembranças tão nuas e arruaceiras. De tudo que podemos lembrar. De tudo que podemos ousar. De tudo que podemos amar.
Como uma igreja que guarda socorros e nascimentos. Terços e ninhos de sofrimento. Como uma fagulha de uma fogueira que ilumina cegos e pecadores. Bêbados e couraças.
Somos sumos do sertão. Salmos do sertão. Palmos do sertão. Tão vasto. Tão parto. Tão cúmplice de leitos secos e peitos sem leite. Andorinha que sobrevoa léguas e grotões. Mentiras e os nossos pulmões. Humanidade que habita sonhos e a despedida da melancolia do dia e da noite.
Sejamos fortes, iguais as grutas que circundam bois e boiadas. Como o verde da árvore que recebe chuva e goza. Como nessa interioridade toda, parede e meia de molduras das nossas vidas, bandeiras e âncoras, holofotes e estações.
Como protagonistas de triunfos e quintais. Sombras, frestas, estopins e celebrações.
Cheiro de atalho repleto de sorrisos e raízes. Filme que passa inteirinho, como uma epopéia épica e gloriosa. Vestimenta que une lábios e corpos. Espíritos e vazantes de uma raça cheia da graça de um espírito santo bem-vindo. Sorriso de uma criança. Futuro de um coração que pulsa, aterrissando jardins e luares. Cantigas e pilhérias. História de portas de bares. E o corpo de uma mulher nua. Mãos e bocas. Espinha e pescoço.
Assim, o sertão de Oswaldo e o sertão de todos nós se manifestam. Nesses fesceninos uns. Nús, maltrapilhos. Humanos e pecadores. Pescadores de uma noite de sonhos e iguarias. Como as bifurcações de uma estrada. Onde enchemos de esperança o porto de onde se chega. Partos.
Assim, esse tapete que levita chuvas e canhões, timbres e bordeis, enobrece povoados, alpercatas, guinés e canções. Desnudos fornos saciam seios e aquarelas.
Esse tapete é o sertão de Oswaldo. Com cruz e cajado. Licenciosidades e o poder que a língua tem. Néctar que transforma e transborda milharais.
Sertão eu. Sertão meu. Sertão seu.
gabriel comentou em 5/6/2007 às 11:25 am
Grande homenagem, Gurgel, bem ao seu estilo.
Pena que tão poucos, como você, tenham idéia da importância de Oswaldo Lamartine, que dissecou como nem um outro pesquisador, a alma, os costumes, a personalidade do Sertão, que pode ser muito horrendo e muito lindo, como vc sabe.
Na manhã seguinte ao suícidio, eu fui realmente às lágrimas quando li a manchete “Chora Sertão!”, que o Diário estampou na capa de seu caderno de cultura em referência ao acontecido. Mas confesso que não chorei apenas por causa da morte dele, mas sim, principalmente, pelo descaso que Lamartine quase sempre recebeu dessa terra esquecida por Deus.
Tarcísio Gurgel comentou em 24/6/2007 às 7:56 am
Legal, Carlão, legal.
Eu não tinha tido a chance de ler a tua sacada sobre o sertão de Oswaldo, mas percebo feliz que ela é pura e autêntica emoção. O que prova que o atavismo expõe as nossas raízes juvenalinas e dalilescas. Parabéns.
tarcisiogurgel
Chico Lira comentou em 25/6/2007 às 9:58 am
Escreva aqui…
Oswaldo Lamartine devia ter lido este texto de Gurgel. Acredito até que leu e deu um maroto sorriso de canto de boca: “Taí, gostei”.
Gurgel tem tido nestes cronicões uma lucidez e uma capacidade de criar frases tão espetaculares que o “formato poesia” não lhe permitia. Agora nada lhe tolhe e o poeta continua lá.
Digo mais: os jornalões de Natal estão comendo mosca de não ter um Carlos Gurgel nos espaços especiais dos domingos. O homem virou fera.
Antonio Cavalcante comentou em 27/6/2007 às 5:41 pm
Uma homenagem muito bonita e justa a Oswaldo Lamartine de Faria, sobretudo ao livro “Uns Fesceninos” que ganhei nos anos setenta e logo o perdi emprestando.
Poderia me ajudar a adquirir um exemplar desta jóia?
manuela comentou em 30/6/2007 às 11:18 am
acabei de ler um texto profunda e profanamente poético.Fi-lo de um trago como suponho acontecer-me com tudo que é torrencial, límpido e excitante “provocação” à vida.
Aqui, o sertão mexe, abunda, inunda, transborda…como todas as águas, imaginárias ou humanas.
Edinara comentou em 9/9/2007 às 6:51 am
otimo comentario sobre oswaldo lamartine mais bem que voçês poderiam colocar uma foto dele.
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