Palavreando

Sabbath

Por Carlos Gurgel - 03/04/2007

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Eu estou aqui perdido no meio da noite. Feito um anjo malvado que carrega consigo a luz de uma lanterna mágica e indolente. A noite, como ninguém, entende o sonho dos outros. Mesmo que esses outros, não consigam se explicar para os desatinos dos passos, e arremedos de todos os pensamentos das árvores que encontramos pelo meio do caminho.

As estrêlas que estão no céu, são como morcegos, sugando de nós, os segredos guardados há muito tempo. Como confirmando que somos frágeis, apesar da pele rude e do assobio que perseguem as moças que estão tão presentes e próximas de um idílio. Como se fosse uma terra sonhadora e cheia de encantamento da sua própria existência.

Assim, a vida passa, como um velocípede que voa alto. Acompanhando todos aqueles personagens que escolhem os seus dias como bordoadas dos seus próprios esconderijos. Parecidos com os olhares intrépidos das corujas, tão amiúdes, tão indissoluvelmente mágicos e perniciosos.

E o que dá consistência ao que solicitamos da madrugada que nos acompanha, são os seixos que lançamos ao sol nascer, como folhagens de quimeras, formigamentos tão ardentes. Ambulantes sombras, passageiros de uma destroçável ampulheta, que vai se arrastando como léguas, línguas, vermes e virulentas fendas e simulações. Pios de sapos. Lagoas e capins…

É mesmo de noite que descobrimos os ninhos onde se escondem os pecados que são acometidos de culpas e venenos. Somos, como pássaros que vagueiam, o rumor de uma promessa maldita e esquecida. Filha de uma sobrancelha que cala, como descortinando o iminente romance de um porco com uma jibóia.

Perdido amuleto que carrega a cela que tange o boi! No trilho escuro e pontilhado por muros e maledicências de uma cidadezinha. Como bote que assiste a luz de um casebre, no meio da noite que não dorme como lenha dos seus íngremes pastos.

Sim, somos quase eternos e semi-deuses. Como uma capela que recolhe o preito de todos os pedaços de uma disvirginada oração. Como pressa de quem honra a preguiça, que ousou olhar para o céu. Imaginação que da sua fortaleza, destrambelha os fios de novelos. Como soluço de uma serpente que passeia por entre suas ruas vastas e desertas.

O que faz a noite um nicho de pigmentação melindrosa e fatídica? São os cães que adoram as suas estrelas, e se entorpecem das conversas dos bêbados que atravessam suas lembranças, como memória de uma anacronia utópica e cheia de bares.

No interior de uma cidadezinha pequenina e louquaz, como uma lua, que na noite dialoga com fantasmas e espólios. Como ventos que no velório do esquecimento fabricam a razão de um silêncio. Pano de fundo que não resiste ao vocabulário das tentações. Aloprados velocípedes de uma lenda que espalha com o seu suor, o binóculo da ilusão e imensidão de um serrote que não pára de chamar pelo seu rio. Velas e mais velas, açucenas que socorrem línguas, olhares, abraços de uma caudalosa e irrefreável embolia geográfica.

Assim, no rastro de um caminho noturno; grilos, jias, sapos, pernilongos e corujas, espiam como corte audaz, as conchas de uma expedição de faces humanas. Coisa tão principiante, rebotalho de quem nunca procurou refletir sobre o que é capaz, para quem vive no escuro e no intenso raso das nossas febris véias. Fervoroso comichão da ausência da razão.

Parece-me, que aos olhos dos outros, as cobras não picam. É tanto que todas andam descalças. Como se fossem pó, areia, barro, metralha de uma terra santa e insossa. Forma, utensílio de quem carrega no bojo da madrugada, o riso e o grito de uma nudez do horto que procria e multiplica a perdição, a vontade de contar o que se faz. Coisas de uma enxurrada, levante da memória. Para quem sempre viveu próximo da vida dos seus sonhos. No esquecimento dos seus próximos passos.

E é na sombra de quem pára e fica olhando para o céu, que existe o báu, como embarcação que revela o enxame de enxadas e armaduras. E também a colheita de pornografias e romances. Espelho que reflete e resiste sem cessar ao sabor de um risco. Um raio que atravessa a praça, a igreja, o mercado, a feira, o açude. E aos sossegos de um pároco, que de tão afeminado, rebuscou bambús e graviolas.

Já, por outro lado, a bexiga de uma conversa interminável. Pigarro, cuspe que tange com o seu ar, o cheiro do rolo de fumo, a imagem de dentes careados, a pele branca, amolecida. E de filhas tão amanhecidas, tão lindas, impávidas, princesas, esfinges. Deusas de uma beleza que transporta para o lugar onde vivemos, uma lagoa pranteada de ouro.

E quem tem sandália de rabicho é judeu. Lixo no meio da rua é tesouro. Latido de cão, é como se fosse uma besta fera que fecha a boca e rasga a pele. Como fome que se quer impaciência. Porisso, que mais uma vez, o silêncio e o seu arado, são como postes que apagam e acendem. Denunciando o seu pálido rosto, o mundaréu de um povo, que arde e chama, lava de canhão, templo do que não se entende, falta de raciocínio, fraqueza de pensamento e escolta de uma cerca que não recolhe o ar que nela reside. Acolhimento de uma culpa sem fim.

Certamente lá nos grotões de uma palavra não dita, como se fosse uma caverna melindrosa e armamentista, uma pólvora corre ágil e táctil, como aceno desconhecido de inocências e vistas puras.

É certo, que onde existe pouca gente, todo mundo sabe de tudo, com muito menos tempo.

O que se sabe, é que no corredor onde se conduz a repetição de uma mentira, no outro dia, pela manhã, tudo é como se fosse a única verdade.

Túmulo que borrifa com as suas faces, o acontecimento do aparecimento de enormes e vastas versões. Fogueiras que tangem como só o vento da subida da serra pede, o remorso e a razão, o destroço e o perdão.

Assim, tudo fica alvo, mira. Como o retrato de uma freira. Imagem que a igreja do lugar, anuncia pelos quatro mil auto-falantes, pedindo que todos nós sejamos fiéis e canibais. Alimentos das suas idiossincrasias. Aluvião que transporta a noite e suas corujas, vampiros, maldições, juras, pecados, e a dor de quem trespassou a doença das criaturas que se alimentam de pestes. Como os girassóis que se multiplicam pelos cantos e campos do povoado que nunca dorme.

E é assim que os loucos que vagueiam por cá, são como porcos que vomitam com o seu pensar, a vontade de dizimar a idiotice, a vulgaridade do silêncio do seu lugar.

Como imagem de adoração, que locomove com a sua fé, o desespero de quem sempre gritou, esperneou e esculpiu a inexorável maldade humana.

Bem longe da nudez das meninas do lugar, que se banham e se lambusam na lagoa das suas coxas perniciosas. Fogueira da noite da cidadezinha que nunca terá início e nunca terá fim. Breu.

2 Comentários para “Sabbath

Chico Lira comentou em 4/4/2007 às 6:18 pm

Escreva aqui…
Também perdido no meio da noite de Olinda, me acho entre velocíledes voadores e o vento da subida da serra (das ladeiras) que pede o remorso e a razão, o destroço e o perdão.
Gurgel transborda lucidez num texto “como os girrassóis que se mutiplicam pelos cantos e campos do povoado que nunca dorme”.
Quem sabe agora eu aprenda que a fome que sinto é deste delírio gurgelniano.
Viciei.

Escreva aqui…
O iminente romance de um porco com uma jiboia. è isso.

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