Por Yuri Borges - 30/03/2008

“Uma noite, no inverno de 1965, eu levei a minha moto – e um passageiro – pro lado mais alto de uma estrada escorregadia por causa da chuva ao norte de Oakland. Eu entrei numa curva obviamente perigosa a uns 110 Km/h, esticando a minha segunda marcha. A pista molhada impediu que eu inclinasse o suficiente para compensar a tremenda inércia e, em algum lugar no meio da curva, percebi que a roda traseira não estava mais seguindo a dianteira. A moto estava indo para o lado na direção de uma rampa de trilho de uma ferrovia e não havia nada que pudesse fazer a não ser esperar. Por um instante, a sensação era de muita paz… E depois foi como ser atirado para fora da estrada por uma bazuca, mas sem nenhum barulho.”
O trecho acima, do livro Hell’s Angels, em que o jornalista e escritor Hunter S. Thompson narra como se esbagaçou em sua moto – chegando no pronto-socorro “com o couro cabeludo caindo nos olhos e uma camisa encharcada de sangue grudada no peito” – pode ser considerado como uma síntese de duas modalidades de jornalismo surgidas quase que no mesmo período e profundamente inspiradas pelo movimento de contra-cultura das décadas de 50 e 60: o Novo Jornalismo e o Gonzo Jornalismo. Mas Hell’s Angels (publicado por aqui em 2004, pela Conrad), por ser uma espécie de obra de transição de Thompson, ajuda a demonstrar mais do que isso: explica as diferenças entre o Novo Jornalismo e o Gonzo e explica porque foi ele, Thompson, – e não Capote, Talese ou Mailer, por exemplo – quem levou a contracultura às últimas conseqüências em sua obra jornalístico-literária.
O livro foi publicado originalmente em 1967 nos Estados Unidos e trata, claro, dos grupos ou gangues de Hell’s Angels, que na década de 60 foram alvo de grande estardalhaço por parte da imprensa americana e povoaram o imaginário da população do país como perigosos malfeitores. E, na verdade, não eram mesmo sujeitos lá muito amigáveis. Thompson, no entanto, desvenda os exageros e mitos criados pela imprensa da época a respeito deles e explica como surgiram e o que eram essas gangues de motoqueiros formadas por sujeitos que estavam à margem do Sonho Americano, tinham as motocicletas como elemento simbólico constitutivo de sua identidade de grupo e eram conhecidos pelo estilo violento e errante. Mas o grande lance é que o livro não é um amontoado de relatos de segunda mão – como tão frequentemente costuma continuar a ser o jornalismo – nem uma tese de antropologia, apesar de ser tão profundo quanto uma e com certeza muito mais vibrante. Hell’s Angels é um livro feito a partir de uma técnica chamada “imersão na realidade” ou “captação participativa”.
Isso quer dizer simplesmente que, para escrever sobre os caras, Thompson praticamente virou um deles: passou a conviver com eles diariamente durante cerca de um ano, a rodar em cima de sua própria motocicleta e ver pessoalmente como eles viviam e o que faziam. Até aí se trata da mesma técnica fundamental do Novo Jornalismo, que incluía, ainda, outros procedimentos constitutivos: 1.) a construção cena a cena, ou seja, contar a história passando de cena para cena, através do texto narrativo; 2.) o registro de diálogos completos entre os personagens reais; 3.) o ponto de vista da terceira pessoa, o que proporciona inclusive o registro de reações emocionais e pensamentos dos personagens; 4.) e o registro dos gestos, hábitos, maneiras, costumes, estilos de mobília, roupas, decoração, maneiras de viajar, comer e outros muitos detalhes simbólicos do dia-a-dia que possam existir dentro de uma cena. Não é preciso dizer que tudo isso só é possível graças à tal imersão na realidade e que a fonte natural dessa nova forma de fazer jornalismo era o velho e bom Realismo.
Mas a novidade que isso tudo trazia era que os novos jornalistas estavam dizendo: “vejam, isso é jornalismo, mas também é literatura”. Porque os textos tinham qualidade literária e se utilizavam das técnicas da narrativa literária. Como se não bastasse essa afronta aos limites comportados e bem assentados que separavam os dois campos – Jornalismo e Literatura – eles, e também Hunter Thompson, se atreveram a registrar os movimentos sociais e personagens de um mundo em ebulição política e comportamental, coisa que a literatura do período, em grande medida imersa em questões formalistas, não vinha fazendo. E tudo isso era feito sem os filtros da grande imprensa, sem o crivo opinativo das fontes oficiais sobre cada um dos fatos e fenômenos. Assim como faziam todos os movimentos influenciados pela contra-cultura, também aqui o discurso oficial, o discurso do status quo – quer fosse de esquerda ou de direita – era profundamente questionado, através de narrativas que proporcionavam compreensões muito mais amplas do real.
A transcrição no início deste artigo demonstra, antes de tudo, até que ponto Thompson estava disposto a ir em sua imersão na realidade. A título de ilustração, basta dizer que, em outro trecho da obra, ele é surrado por um grupo de Hell’s Angels. Mas o cara ainda extrapolaria ainda mais na “imersão” e é aí que se encontra a pedra de toque que iria distingui-lo dos novos jornalistas. Thompson terminaria por se tornar o protagonista de suas histórias, invertendo completamente a lógica jornalística. Isso fez com que inclusive outras características – presentes em Hell’s Angels – se exacerbassem depois, em livros como Medo e Delírio em Las Vegas (1972). Dentre elas está 1.) a utilização do narrador em primeira pessoa, 2.) o consumo de drogas e a descrição dos acontecimentos a partir deste ponto de vista, 3.) o uso do sarcasmo e/ou vulgaridade como forma de humor, 4.) a dificuldade de discernir ficção de realidade e 4.) a tendência de se distanciar do assunto principal ou do assunto por onde o texto começou, ou seja, o mote jornalístico inicial.
Thompson teve colhões suficientes para, primeiro, renegar o jornalismo convencional – e simultaneamente afrontar os literatos. Mas isso já havia sido feito pelos novos jornalistas. Ele, então, resolveu ir além do que se faziam no Novo Jornalismo e foi fundo na subjetividade, a ponto de mandar a regra número um do jornalismo, a referencialidade, pras cucuias. Sua obra foi parar num limbo entre jornalismo e literatura e literatura confessional, confrontando, ao mesmo tempo, as regras de todos eles e demonstrando quão frágeis podem ser vários de seus parâmetros. Assim como queriam vários dos movimentos contraculturais, ele consegue questionar discursos sociais (nos quais se incluem discursos profissionais também) cristalizados e desfazer determinados limites ou linhas divisórias pré-estabelecidas pela tradição. É claro que tudo isso teve seu preço, que pode ter a ver com a sua morte, com um tiro na cabeça, em fevereiro de 2005, há três anos atrás.
Tiago Lopes comentou em 31/3/2008 às 6:26 am
“Bazuca Contra-cultural”??
Sério mesmo?
Ramon Ribeiro comentou em 1/4/2008 às 10:29 pm
Texto bem interessante.
Queria saber o motivo de escrever sobre o Thompson, já que o seu aniversário de morte foi em 20 de fevereiro, o que já faz mais de um vez. algum outro motivo especial?
Hunter Thompson e a galera do novo jornalismo em geral ainda são pouco vistos nas faculdades de jornalismo brasileiras, sobretudo aqui em Natal.
Com certeza esse jornalistas/escritores precisam ser mais estudados. Eles podem ser uma alternativa textual para o cada vez mais apocalíptico fim do impresso.
gabriel comentou em 2/4/2008 às 6:07 am
Pois é, Yuri, e vale lembrar que a Conrad também lançou outros quatro títulos de Hunter Thompson: “Medo e Delírio em Las Vegas”, “Rum – Diário de um Jornalista Bêbado”, “A Grande Caçada aos Ttubarões” e “Screw Jack”. Abs!
gabriel comentou em 2/4/2008 às 6:07 am
Pois é, Yuri, e vale lembrar que a Conrad também lançou, no Brasil, outros quatro títulos de Hunter Thompson: “Medo e Delírio em Las Vegas”, “Rum – Diário de um Jornalista Bêbado”, “A Grande Caçada aos Ttubarões” e “Screw Jack”. Abs!
Alexandre Honório comentou em 2/4/2008 às 1:37 pm
Pois é, Ramon: a idéia inicial tinha sido uma espécie de “especial” sobre Thompson em que os colaboradores comentariam os livros do cidadão por ocasião do aniversário de sua morte. Não deu, no final: percebemos que não somos muito disciplinados e, então, para não deixar passar – os textos, claro – decidimos publicá-los na medida em que deixavam o forno.
Bem, é isso…
yuri comentou em 2/4/2008 às 1:57 pm
Ufa, ainda bem que o editor explicou o porquê da efeméride fora de época. rsrs
yuri comentou em 3/4/2008 às 4:00 pm
Gostou da bazuca hein, Tiago?
Hugo Morais comentou em 4/4/2008 às 7:17 am
O filme Medo e Delírio é terrível.
Tádzio comentou em 7/4/2008 às 10:07 am
Hugo, tens razão. O filme não é uma tragédia total, mas o livro é beeeem melhor.
yuri comentou em 8/4/2008 às 12:04 pm
Olá, Hugo. Infelizmente não vi o filme, porque só encontro cópias em fita VHS. Mas já me disseram que Johnny Depp está magistral no papel de Thompson.
Lex comentou em 11/4/2008 às 1:11 pm
Aposto como vocês viram o filme de cara. Caretas!
Filipe Mamede comentou em 17/4/2008 às 1:12 pm
Excelente artigo. E atualmente, Yuri, existiria no Brasil uma figura que bebesse dessa fonte que é o Jornalismo Gonzo?
Yuri comentou em 18/4/2008 às 10:02 pm
Olha, Filipe, tem uma galera de Porto Alegre que criou, há alguns anos, a Irmandade Raoul Duke. Hoje em dia não funciona mais, eu acho, mas eles produziram várias textos inspirados no estilo gonzo, que estão disponíveis no site dos caras. Nesse site tem inclusive uma monografia sobre o assunto: Gonzo – o Filho Bastardo do New Journalism (http://qualquer.org/gonzo/monogonzo/), que eu cito no meu artigo na parte em que enumero características do jornalismo gonzo. Além disso, me falaram de um cara que escreve ou escrevia pra revista Trip e que também tinha um estilo inspirado no Thompson. Mas confesso que não cheguei a ver essas reportagens dele. Ah, deixa aproveitar pra dizer uma coisa: tem outra citação no texto, quando enumero algumas características do Novo Jornalismo. Essa é do livro Radical Chique e o Novo Jornalismo, de Tom Wolfe. Eu tinha colocado uma nota de rodapé explicando isso, mas Norman achou que ficava meio acadêmico demais e limou o troço.
Yuri comentou em 18/4/2008 às 10:05 pm
Ah, Alex, legal a nota que você colocou na coluna. Mais de uma pessoa me procurou pra comentar.
Ramon Ribeiro comentou em 19/4/2008 às 11:48 am
o cara da Trip é o tal do Arthur Veríssimo. é um bixo muito doido. usou droga pra caralho e é meio ligado em paradas misticas. ele se auto intitula gonzo, mas seus textos não são todos nesse estilo não. vale a pena dá uma sacada, pois o cara faz altas loucuras. vive rodando o mundo atrás de bizarrices. teve uma matéria que ele fez, acho que fez até mais de uma vez, sobre a CANABIS CUP, a tal da copa anual da maconha que é em amisterdã. dá pra sacar alguns textos do maluco lá no site da Trip.
Aina comentou em 18/6/2008 às 8:06 am
Yuri, o q vc tem contra a Antropologia?
“Imersão na realidade” ou “captação participativa” se parecem muito com “obsevação participante” ou “particapação observante”, ou ainda, “particiapação observativa” ou “observação participativa”. E mais, muitas das boas antropologias também se confundem com literatura. Sei que você não deve ter nada contra a antropologia, mas só para lembrar uma questão epistemológica desta área do conhecimento e que se relaciona com o método utilizado por Thompson de captar o real: a imersão em outros modos de vida não requer apenas a tradução de diálogos, cenas, humores e etc, mas a percepção do que é o real para outras pessoas. porque o real não é uma convenção comungada por todos, mas uma eleição de relações que podem inclusive remeter ao mundo onírico e por aí vai.
Gostei muito do seu artigo.
Abraço, Aina.
Pedro comentou em 24/6/2008 às 1:53 pm
Como disse a Aina, esta técnica de imersão na realidade é da antropologia e do século XIX, então não tão nova assim.
Gosto bastante do que conheço de Hunter Thompson, mas dizer que isso é o supra-sumo da novidade não é lá bem verdade… Talvez dentro do jornalismo, quem sabe…
Yuri comentou em 24/6/2008 às 5:59 pm
Olá, Aina! Não tenho absolutamente nada contra a Antropoligia. Pelo contrário. A primeira referência que eu faço é positiva; digo que o livro do Thompson é tão profundo quanto uma tese de Antropologia. E, quando falo que é mais vibrante que uma, me refiro apenas ao fato de que uma obra literária oferece inegavelmente mais fruição estética que um trabalho acadêmico. Só isso.
Que bom que você gostou do texto. Abraço grande.
Yuri comentou em 24/6/2008 às 6:22 pm
Oi, Pedro. A imersão na realidade não é algo novo, mesmo para o Jornalismo. A técnica passou a ser usada sistematicamente com o New Journalism, na década de 60, mas antes disso figuras como o Joseph Mitchell já a utilizavam, na década de 40. E ainda antes disso, também os escritores realistas (século 19) o fizeram, só que para transpor aspectos do real para a ficção. O que o jornalismo fez de novo foi inverter esse circuito, ou seja, partir da técnica ficcional para fazer não-ficção. E o Thompson, como demonstro no artigo, ainda extrapolou essa proposta para fazer algo diferente. Essa é a novidade que ele traz, que permanece atual em função de sua ousadia. Além disso, o jornalismo narrativo é prenhe de possibilidades inovadoras, principalmente quando bebe de outras fontes de conhecimento, como pode ser o caso da Antropologia e de outras ciências.
Yuri comentou em 24/6/2008 às 6:28 pm
Ah, e pra quem interessar… a Piauí publicou na edição deste mês e na de maio, na seção “diário”, dois textos em que o ilustrador e parceiro de Thomoson, Ralph Steadman, conta um bocado de sua convivência com o Sr. Gonzo. São textos esclarecedores sobre a personalidade do jornalista/escritor.
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