Palavreando

O brilho e glamour dos monstros de Palahniuk

Por Alexandre Honório - 05/08/2010

A primeira cena de Monstros Invisíveis poderia ser descrita como o cruzamento entre Scarface, Carrie – A Estranha e Quatro Casamentos e Um Funeral: uma garota, em um vestido de noiva completamente destruído, empunha no alto de uma escadaria um fuzil enquanto, diante dela, aos pés desta mesma escadaria, enquanto tudo ao redor grita em chamas, um transexual entupido de drogas prescritíveis agoniza vendo sua barriga tanquinho destruída por um balaço. Tudo é narrado por uma nada glamourosa e atordoada ex-modelo deformada e chapada até os ossos.

Monstros Invisíveis é o livro mais recente do escritor norte-americano de Chuck Palahniuk a ganhar edição por aqui. Lançado lá fora em 1999, mas escrito bem antes disso, seria seu romance de estréia: terminou rejeitado pela editora por ter sido considerado perturbado demais. Somente quando Clube da Luta ganhou as telas e seu sucesso transformara seu autor em nome consagrado, Monstros finalmente pôde ver o pó das estantes.

Monstros Invisíveis é um romance perturbado, sim: perturbado e atordoante. De cara, nas primeiras páginas, somos tomados de assalto pelo absurdo da cena acima; depois disso, bem, o livro nos leva através de uma sucessão aparentemente interminável de bizarrices regradas por drogas prescritas e estrogênios conjugados cortando uma América que parece demonstrar o quão efêmero é esse tal american way of life e o peso em carne que ele espera cobrar.

Capa de Monstros Invisíveis, de Chuck Palahniuk, lançada pela Rocco

O livro é narrado a partir do olhar de Shannon McFarland: uma modelo medíocre que, juntamente com a amiga Elie Cotrell, destila “glamour” por alguns trocados e a ilusão superficial de estrelato. Tudo degringola, como um carro desgovernado em uma calçada cheia de pedestres, quando a narradora é atingida por um disparo que tinha sua cabecinha vazia como alvo.

Quando acorda no hospital, desfigurada e impossibilitada de falar qualquer coisa inteligível já que sua mandíbula fora destroçada pelo disparo anônimo, McFarland tenta lidar com o pouco que ainda resta de sanidade. É exatamente neste ponto da trama que entra em cena a poderosa Brandy Alexander: um transexual repaginado por inúmeras intervenções cirúrgicas que pega Shannon pelo braço e a carrega em seu próprio e bastante particular On the Road on Acid.

Mansões vazias, porém cheias de drogas. Uma família destroçada pela tragédia. Um irmão desaparecido ou morto. O ex-namorado que resolve comer a amiga da narradora. Tudo entra no caldeirão bizarro de Palahniuk envolvidos por uma narrativa que procura mescla a linguagem paralela das passarelas com o ritmo lancinante e efêmera de um Tyler Durden registrando a São Paulo Fashion Week enquanto um grupo de modelos decide atear fogo as madeixas carregadas por fixante.

Palahniuk carrega nas tintas em Monstros Invisíveis. Podemos dizer que o livro é o primo bastardo, fashionista e completamente pirado de Clube da Luta. No fim, o pano desce sobre o que restou da cabeça de Shannon McFarland e Brandy Alexander, descobertas são feitas e o mundo parece um lugar ainda mais estranho.

Monstros Invisíveis poderia ter sido um excepcional livro de estréia. Não o foi porque a tour de force narrativa empreendida por Palahniuk fora demais para as cabecinhas dos editores e o livro perdera em timing para o caótico clube de Tyler Durden e sua turma. O espocar dos flashes em delírio de Monstros Invisíveis, no entanto, mostra que em sua caótica cachola Palahniuk guarda monstros estranhos, mas cativantes.

2 Comentários para “O brilho e glamour dos monstros de Palahniuk

Nossa! Não sabia que esse livro era tão interessante! Adorei! Vou ler!
=1

Eu achei a história desse livro fascinante! Olha estou começando um blog onde escrevo histórias. Depois passa lá!
A.D.

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