Palavreando

No fim, vou rasgar meu diploma e virar Chefe de Cozinha

Por Alexandre Honório - 17/06/2009

jornalistas_index02

Hoje meu diploma de Jornalismo vale menos que aquele rolinho dentro do meu banheiro. No fim, com o argumento do nobre presidente do STF, Gilmar “Saia às Ruas” Mendes, acho melhor procurar um bom curso de culinária pois meu futuro é ser chef.

Meu sentimento agora, em relação a esta tal profissão de jornalista – que juridicamente, agora mais do que nunca, não deve ser levada a sério – é que é terrível ver um bando de juristas enfurnados em suas boçais togas comparando o suor que dediquei à formação que obtive com o mesmo “bafo de banha” que envolve algum cozinheiro à beira do fogão.

Hoje, com a chancela do STF – “uma séria casa em um sério mundo”, para buscar uma referência cultural próxima -, meu diploma pode ser incinerado, acomodar um bom prato de filé com fritas ou apoio para que os copos de cerveja não molhem minha mesa de centro.

Um raciocínio raso como aquele esboçado pelo presidente do STF em seu brilhante voto. Raso, pois, por cuidarem do próprio rabo, os ministros do STF e todos os que carregam diplomas de Direito nunca terão motivos de preocupação com outros metendo o bedelho e dizendo o que significa seu diploma em sua formação.

Com a ajuda dos nobres ministros do STF, hoje tenho vergonha de dizer que sou, como outros tantos patetas país afora, jornalista. Vou procurar me inscrever no próximo curso técnico em fotografia do SENAC e tentar a sorte com um futuro promissor de “escrivinhador retratista”.

Tentar a sorte com outros que desconhecem as técnicas do Jornalismo e que desconhecem os saberes que doutores, como parece também parece desconhecer o senhor Gilmar “Saia às Ruas” Mendes, procuram nas mesmas faculdades de comunicação país afora na esperança de aprenderem o que muitos jornalistas procuram nas cadeiras do curso de Comunicação Social.

Deixar nas mãos das empresas jornalísticas decidir quem é ou quem não é capaz de fazer bom Jornalismo é, senão um arroubo de completa estupidez, reduzir o papel do profissional de comunicação na sociedade. Se a comunicação é uma “profissão intelectual, ligada aos procedimentos vastos do conhecimento humano”, não sei o que dizer do Direito, da Administração, da História, das Letras. Simplesmente não sei o que dizer sobre um argumento patético como o esboçado pelos brilhantes ministros neste dia.

Não pretendo aqui argumentar em prol desta minha categoria que costuma trazer nas costas as marcas impressionantes de certo “pelegismo” imobilizador. Não vou perder meu tempo tentando retrucar o que os doutos ministros do STF decidiram em meu lugar: que o Jornalismo enquanto área de conhecimento, de formação e de profissão deixou de existir – ou perdeu sua razão de ser.

O saber que sei ser ciência, técnica e pensamento; o saber que hoje foi reduzido a “literatura”, “entulho”:  algo que “não implica riscos à sociedade”. Se hoje tivesse que ingressar em alguma das faculdades de comunicação deste país para cursar Jornalismo, pensaria duas vezes: voltaria ao banco da escola e escolheria melhor… Talvez o Direito saber no qual parece existir “verdade”.

7 Comentários para “No fim, vou rasgar meu diploma e virar Chefe de Cozinha

Nós, das Letras, sempre somos vistos com um certo desprezo pela sociedade. Tirando o curso de Direito, como Alexandre citou, História, Geografia, Letras, Jornalismo, são tidos como cursos de somenos importância. Eu ralei muito durante cinco anos, do meio pro final do curso trabalhei e estudei, e sei quão prazeoroso e doloroso foi fazer um curso no qual eu acreditava, mas que quando me formasse, não teria uma “profissão”, haja vista a profissão de historiador não ter sido (até hoje) regulamentada no Brasil.

A nossa universidade pública pode não ser uma maravilha, mas acredito que fazer um curso acadêmico é importante.

Eu, que rabisco desde os meus 11 anos de idade, não me considero jornalista. Há manhas que a gente aprende lendo e discutindo autores, aprendendo com os professores.

Essas decisão do STF, na minha opinião, mostrou mesmo foi o poder dos nossos “queridos” colunistas sociais, que não tem diploma, em sua maioria, e precisariam ir à sala de aula.

E, Alexandre, para finalizar, o único momento desse seu texto que eu preciso discordar diz respeito ao comentário sobre os “chefes de cozinha”, que também precisam estudar muito para saberem a pitada precisa de sal que vai na comida. Há cozinheiros e chefes, como há Jornalistas e colunistas sociais.

Amigo, meus parabens pelo texto. Concordo com a sua opinião e também achei um absurdo a votação do STF. No entanto, também achei uma falta de maturidade de sua parte cuspir na minha classe. Sou Cheff no MG e sei que meus colegas se esforçam e estudam muito em sua profissão. Não acho justo você nos diminuir pelo fato de sua classe ter sido prejudicada. De resto, meus parabéns.

“hoje tenho vergonha de dizer que sou, como outros tantos patetas país afora, jornalista.”

Rapaz, quer dizer que você, diplomado, sente vergonha de ser jornalista pelo fato de não ser mais obrigatório o diploma para exercer a profissão?

Então você realmente não nasceu para ser jornalista.

Sabe o que nós perdemos? A nossa acomodação.

Então, como outros, você acredita realmente que existiria, com o diploma, uma “reserva de mercado” para jornalistas? Não creio que perdemos “nossa acomodação”: pelo contrário, nos acomodamos ainda mais em uma aura romântica que relaciona jornalismo com uma liberdade metafórica que não resiste à realidade.
Trabalhei durante três anos em um jornal e sei, por experiência, que a única liberdade que vigora nas redações é a “liberdade de empresa”. De resto, fica a balela que sustenta muitos dos que argumentam contra o diploma.
Perdemos a acomodação? Não mesmo: perdemos, foi, o respeito por saberes que muitas vezes ultrapassam uma visão instrumentalizada que parece fazer a alegria romantizada dos “jornalistas” país afora.

sabe o que é pior Alexandre, em alguns lugares é justamente o direito que está fora do ´campo das formações universitárias.
Direito é uma técnica e não uma ciência, como os juristas gostam de propalar.
O fato de no Brasil existirem cursos de direito se dá pelo simples fato histórico da influência dos monastérios medievais na formação dos juristas em Portugal e na Itália.

eu comentou em 30/7/2009 às 4:32 pm

entao otario frita um ovo pra mim. vcs queriam ser os escribas do Brasil. agora vcs, os diplomados, sao apenas os fracassados de suas familias que nelas agregam doutores e outros que realmente ralaram e conseguiram uma qualificaçao superior de valor. falou otario!

Sem vírgulas, sem acentos, sem concordância e incompreensível. Alguns dos filhos desta geração bem que podiam ter uma boa gramática à mão.
Tsc, tsc, tsc…

Deixe seu Comentário

16/08/2010

Decadência e redenção de um herói por Miller e Mazzucchelli

Por Alexandre Honório

O que torna uma história em quadrinhos fundamental? Equilíbrio entre trama e traço aliado ao talento por trás deles. É isso que transforma Demolidor: A Queda de Murdock em um clássico do gênero e o coloca entre as principais criações da década de 1980 e dos quadrinhos mundiais. Criada por Frank Miller e ilustrada por [...]

[+] Leia Mais

05/08/2010

O brilho e glamour dos monstros de Palahniuk

Por Alexandre Honório

A primeira cena de Monstros Invisíveis poderia ser descrita como o cruzamento entre Scarface, Carrie – A Estranha e Quatro Casamentos e Um Funeral: uma garota, em um vestido de noiva completamente destruído, empunha no alto de uma escadaria um fuzil enquanto, diante dela, aos pés desta mesma escadaria, enquanto tudo ao redor grita em [...]

[+] Leia Mais

16/06/2010

Um conto assustador sobre um atlante com asas nos pés

Por Alexandre Honório

Namor, o Príncipe Submarino, nunca foi um dos meus personagens favoritos. Qualquer personagem que, submarino, traz asas adornando seus pés é no mínimo um absurdo, não? Correto. Porém, devo morder a língua quando o assunto é Namor: As Profundezas, encadernado com o personagem que está atualmente nas bancas de revistas. A edição caprichada faz jus [...]

[+] Leia Mais
BuscaPé, líder em comparação de preços na América Latina

2007 ® Todos os Direitos Reservados

Todos os textos deste website possuem registro Creative Commons License.

DZ3 Design