Por Alexandre Honório - 06/03/2008

No princípio, o Novo Jornalismo pretendia algo além que o relato tradicional que a pirâmide invertida oferecia; pretendia outra perspectiva para o relatado. O Gonzo tratou de incrementar um pouco mais o Novo Jornalismo e Hunter S. Thompson, seu profeta, tratou de levar consigo as chaves com as quais poderíamos tentar entender – ao menos rasteiramente – o que diabos fora este subgênero pária do jornalismo.
“Fora”.
O verbo está correto: Hunter S. Thompson foi o gonzo jornalismo; seu criador e compêndio, para resumirmos a conversa. Isso fica ainda mais evidente com a leitura de Reino do Medo, autobiografia/colagem de reflexões que o autor lançou em 2003 – dois anos antes de estourar os miolos – e que agora ganhou edição por aqui pela Companhia das Letras.
Reino do Medo é um livro esquisito, pois não se prende a qualquer dos formatos autobiográficos a que estamos habituados; não pega leve com o leitor de primeira viagem de Thompson. Justamente por isso o livro nos permite enveredar por uma região mais particular do autor: proporciona uma compreensão mais próxima de nosso “herói” e, sobretudo, se transforma em uma aula sobre esta “criatura selvagem travestida pelo jornalismo” que insistia se denominar simplesmente por Gonzo.
No livro – que ganhou tradução de Daniel Galera -, Thompson passeia por sua história pessoal com as mesmas marcas que fizeram seus escritos os favoritos entre os que sabem que jornalismo pode se metamorfosear em algo além que algumas perguntas secamente respondidas e uma concatenação de fatos.
O livro abre justamente com o primeiro encontro de Thompson com seus “conhecidos” do FBI; sobre como, depois de depredar uma caixa de correio – crime federal tanto lá quanto aqui – juntamente com um grupo de garotos, ele teve que encarar dois agentes do bureau de investigação e como, desde cedo, aprendeu que o braço da lei é longo, mas pode ser, digamos, levado na conversa de vez em quando.
Reino do Medo é irregular; imprevisível como seu autor. Thompson aparentemente não se prendeu a qualquer ordem cronológica ou hierárquica dos eventos que apresenta: o livro registra reflexões, casos, reportagens publicadas por e sobre Thompson que considerados relevantes pelo próprio. Dividido em três grandes capítulos, o livro é hora confuso, hora esclarecedor sobre os rumos de Thompson e, mais que isso, o rumo de sua musa: a América.
Reflexões sobre a infância, freak power, eleições para xerife do condado de Aspen, pensamentos sobre os EUA nos anos 2000, cartas, reportagens de periódicos: tudo junto em um caldeirão que, pasmem, diz muito sobre a criatura Hunter Thompson e mais ainda sobre o modo como via o mundo em que se inseria.
Há, além disso, uma aura de desesperança nos relatos de Thompson que integram este livro. Parte desta decorre das tranformações sofridas pelos EUA a partir de 2000 – quando George W. Bush ascende ao poder. Para Hunter Thompson este é o ponto de partida para a instituição generalizada do medo em cada canto da América. Os atentados de 11 de setembro e o pânico que se instaurou nos EUA, para Thompson, representariam os indicadores de uma nação que mergulhara no medo.
É em torno de toda essa confusão de referências, reflexões e rememorações que Reino do Medo ganha envereda pelo gonzo: nos relatos que pairam entre o superficial e o complexo; na construção em mosaico que Thompson desenvolve; no viço das opiniões, visões e expectativas em torno de um país que, mais que transformar-se, aparentemente abraçou e não tem pretensões de largar seus temores de mão.
Reino do Medo ainda assim reserva momentos menos nebulosos quando seu autor decide dar vazão ao niilismo jornalístico que foi sua marca: relatos sobre Copacabana, seus botecos e onças-pintadas que passeiam próximo aos banheiros; conflitos, Granada e charutos cubanos. No fim, toda esta munição aparentemente non-sense ganha os contornos que terminam por nos revelar – ou ao menos tentam isso – um pouco do que se escondia na cachola de Hunter Thompson.
Apesar da expectativa que cria, Reino do Medo não é tão gonzo: é um passeio pelo imaginário de um jornalista que, mais que qualquer outro, soube que no delírio ficam escondidas algumas matizes que passam despercebidas pela maioria. Essa, provavelmente, foi sua principal sacada e aquela que se sobressai em seus livros e ensaios.
O Reino do Medo a que Thompson se refere pode ser, portanto, uma alegoria de seus temores; ou, como quero acreditar, uma alfinetada nos nossos.
Ramon Ribeiro comentou em 28/3/2008 às 10:50 pm
Pô, cara, legal tu escrever sobre o Dr. Sou estudante de jornalismo e pouco se fala dele aqui na UFRN(pra não dizer nunca, assim como da galera do Novo Jornalismo).
Sou um estudioso da obra desse fera, cheguei até a homenagear seu aniversário de morte esse ano com uma matéria sobre sua vida e obra num fanzine meu, que em breve estará na 2ª edição e que também em breve chegará na web.
Reino do Medo é bom, apesar de rodar muito nas mesmas histórias. O legal mesmo é ver seus textos, os seus comentários sobre sua vida, a paranóia estadunidense…
e sim, vale ressaltar a tradução do Daniel Galera, de grande qualidade é bom dizer, afinal, o Galera há tempos conhece os textos do Dr. Gonzo.
gabriel comentou em 2/4/2008 às 6:20 am
Quero ler!
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