Por Carlos Gurgel - 17/12/2006

No caminho que eu ando, encontro ao redor dos bichos, os restos do que o mundo me cede. A sede dos bichos que estão pelo meio do caminho quer dizer paz. Somos, porisso, o que encontramos pelo meio do caminho.
Pelas pedras que encontramos pelo meio do caminho, descobrimos o sofrimento de quem já passou pela morte e pelas suas enormes colheitas. Somos criados como imagem das nossas sobras e sombras. Como imagem de um silêncio que não se escuta. O caminho para quem parte dele, é o conhecimento de escarros e impropérios. Somos o que caminhamos pelo solo. Pisamos no chão como princípio de uma sobrevivência do corpo e do espírito.
O prazer que a estrada presenteia a quem nela anda, é como a dança do corpo, que solicita a quem interessar o seu ingresso, o desapego à carne, aos grãos e as drogas permitidas.
Estamos ao relento, como sobrevivendo aos fragmentos do espaço que respiramos, como animais sem lucidez, incapazes de reconhecer a sutileza de que a vida é breve e louca. Como alcançar o degráu onde pedir ao acompanhante que nos vê, o direito de cuspir na nossa face e de abrir fronteiras para o cumprimento dos ritos fenomenológicos do escárnio. É o que se imagina belo e enriquecedor.
No cofre de quem guarda segredos, os passos dados ao redor da aldeia que mira o flanar das cotovias, o brilho da ponta da faca e o voyerismo dos loucos senis ao sol; são elementos que nascem como sementes que perseguem o fanatismo dos dias impuros e notívagos.
Sentimos tudo que sonhamos. Seja uma viagem ao Japão, o imenso circo das nossas crianças ao redor do seu universo introspectivo e instigante, como velas que se acendem, iluminando pescarias e obstáculos.
No coração de quem rompe o silêncio de séculos, reside a morada de quem deseja ir mais fundo, na imundície de charcos e depósitos dos restos e rostos da nossa implacável preguiça contemporânea.
E o início da escuridão dos nossos olhos, serve como uma declaração do prazer, do insondável modelo das nossas preferências superficiais e do riso que só se apresenta na metade dos lábios.
Definitivamente somos todos hipócritas. Onde, em todos os momentos, encontramos formas de violar nossa própria liberdade.
Sombra de uma espécie que já não mais existe. Uso coletivo de mentiras e palavras fragmentadas por vícios e armadilhas. Inferno do nosso próprio gozo carnal.
Como moeda que toca copo e corpos suados. Aqui e no caminho que a gente encontar pela frente. Está tudo contaminado.
Alex comentou em 21/12/2006 às 11:32 am
Uma releitura drummondiana, um pouco desesperançada, mas ainda assim, bela. Legal. Parabéns.
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