Palavreando

Crosta Rubra do Caibro

Por Carlos Gurgel - 20/01/2007

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Empacou rochas como o coaxar de bichos exóticos. Como saco de farinha que vai distribuindo pelo caminho a seita de uma imensa cancela. Lá chegando amofina cuspes e a desculpa de quem nunca soube de nada.

Sou de uma cidade anã. Onde moro, se corre o risco de não se ver mais pelas ruas, o rio que circunda a imensa e inesquecível pororoca. Mesmo que queiramos uma dócil e mulambeira alegria. Como lua que se abufela na porta de quem jamais pensou que fosse entrar. Trincheira da vazante do rio que acalma o perigoso gastar pelas praças da nossa fratricida infância.

Sou de ostras. Como conchas de uma onda, de uma ventania que sacoleja como boleia de um transporte boêmio, a fulana que nunca pensou em voleios carnais. Sim, da casa que se avista, da rua que me cobre, olho o mundo como coisa de fantasma. Como redondilha de cimento acarpetado, todo arrodeado de grunhidos, gritos de sapos e nacos de dormir.

Forquilha. Como represa de uma voz que não para de jorrar. Propagando pelo atalho do coração, a feira, a feiura que passa, a rua que anuncia mais um leilão de mim.

Sou como frases. Como parafusos que vão se espalhando pela mesa, quarto, cozinha e quintal. Prelibando as cercas de quem só quer o meu bem. Fulô de crenças e enormes circos que anunciam a claridade das grávidas rochas. Das suculentas arcas de uma enorme cratera que se abre por toda a planície de rouxinós e xilindrós. Vingativos e traiçoeiros.

Os sapos e os sacolejos que eles dão são vésperas de feriados. As bulas que escutei de quem retornou da noite, de quem nunca procurou encontrar, são como pérolas arremessadas ao mar, prontas como escravos para proclamar os segredos de quem nunca ouviu falar das coisas esquecidas da nossa frágil e irrequieta memória.

Na casa que parti existem imagens de santos. Como línguas que faíscam os recados de um surto, que se deu na madrugada do esconderijo na beira de uma estrada. Como caminho de quem encontrou balas e carimãs.

Como quem sempre se colore quando se depara com tobogans de lajedos, fãs de carícias de infernos e purgatórios. Como uma promíscua celebração que segrega falos e filhos de cegos.

Escrotos escarcéus. Imensos mascates de um frágil terço que roe a calmaria de um lugar assoberbado de fuleragens cósmicas. De vazantes de um riso que corta rochas e maruins. De uma ponte que tange seus sodalícios ecrans. De uma pasta do mato que renova perdições e o cheiro de uma roça que não pensa em noturnar para a imundície dos seus próprios paredões.

Queiramo-nos menos (ou mais?). Entreolhemo-nos para o quadratim da fazenda. Como tecido que vai surrupiando botões, garças esvoaçantes e o colírio do pecado.

Como a louca da Josefá que de tão esquálida pensa que pica é a torneira por onde prensa a mão que nunca pensou em se dar. Josefá, assim como nós, é de Alzenraim, assim mesmo, loca de enormes dores das sementes que só confessam a promessa de brinquedos gastos, carros de rolimãs, daquelas latas de leite, com arame, areia e a coragem de quem escala paralalepípedos e a janela de onde se percebe enormes plantações de cogu e borra de bosta.

Sei, sim, tenho vontade de me troçar. Como paradigma dos corrupios, conversas, boatos que se abufelam pelas infinitudes dessa terra que um dia há de me comer. Nessa feira, da cidade todinha, onde fervilham profundas ladainhas solares.

Sulancas das suas bainhas, que vão socorrendo os bodes que a população nunca pagou pelos seus erros. Como raizes de um doido varrido envolto na poeira de uma manga espada, que recolhe os destroços do cerro daquele lugar. Redondilhas de esquisitíssimos olhares, estranhas colheitas das olheiras dos inúmeros págens de uma procissão pagã. Como nuvens coladas nos rostos de quem nunca escalou sonhos e impropérios. Olhando a vida como um rítmo ferroado, desgraças de um tempo arroxeado de velames.

Como compressa que fia na carroça uma taça de alambique, como casa -de- farinha, que vai requentando miolos e os diluvianos destroços. Como vestido de menina mais bela e que não sabe por onde procurar, passear por grotões de lágrimas e sangues.

Luzindo o ubre da ruralidade de todos os segredos dos nossos estóicos quintais. Como negrume de uma ruma de lembranças que aceita mentiras e de uma língua retalhada pela liberdade de quem nunca pensou no que fez.

Só sei que no dia ninguém veio. Fiquei como só o sol sabe. Espartilho que famigerou a cuia vazia. Eco, proclamação da luva da estrada. Arreio e cangote de pedaços de carnes esquartejadas. Promessa de um lugar que nunca mais se lembrará das suas enormes serras. Aboio de um vespeiro, como golpe de cachaça que desce logo e leve some. Vontade como só o tempo lembrará de esquecer. Pelas terras da vastidão como a solidão dos morros de quem nunca desejou partir.

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