Palavreando

Como Uma Bomba No Ar

Por Carlos Gurgel - 12/05/2007

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Hoje o sol entrou na esquina onde transitam respiros e odores suburbanos. Hoje, a luz da rua, como nômade de objetos esquecidos, passou como aviso que recolhe com o seu sentimento, suplicas de uma gente que não tem onde morar.

O traço de quem pede favor, no sinal onde se recolhem milhares de vultos, é como uma vazante de enormes braços, nessa encruzilhada entre espaços despedaçados de tanto viver.

Um olhar que se reparte em dobras de uma pele que enxuga com o seu recolhimento, o burburinho da praça, onde transeuntes e esquálidos tão vermes, descobrem que caminhar sobre um pedaço de fio, pode ser como uma chuva que traz tormentos e alegrias.

É como o vento que tange folhas e rostos, numa cíclica e clínica hemorragia social. Como beijos que se lançam e se despedem de episódios, tantos, que são poucos lembrados. Nessa ponte onde passa a vagarosa lentidão dos corpos, como suplicando pela concisão de uma lágrima que se espalha por sobre o silêncio de uma tarde vazia.

É possivel que o esquecimento que o tempo impõe a todos aqueles abraços desferidos contra miseráveis e desprezíveis hordas de identidades perdidas, se lance como um castelo ao lado do mar que aluga cômodos para gravetos e morcêgos. Como a lâmina do ar, que escolhe a brisa de um oceano cínico, para com a sua lavoura de visões mundanas, blindar a rua dos seus fantasmas da aurora.

Como no paraíso de cactus e esconderijos, onde se emite o reconhecimento da existência de uma descomunal flora que relembra o sangue de uma raça pranteada de superstições, como cloro e alfazema, crisântemo e lagarto. Fuleragem e finesse rara. Doidivanas manias que se abufelam dos cheiros escrotos dos seus hímens noturnos, como uma graça que se espalha por entre palhas de coqueiros e o cheiro do chão onde flora a bestialice dos nossos sorrisos.

Talvez o non-sense de um tropical lugar, rabisque com o seu olhar, aqueles espelhos empoeirados que ficavam ao lado do oratório de qualquer habitação na beira da estrada da nossa memória aquartelada por gritos de liberdade e do porão onde se esconde o último suspiro daqueles que não titubearam em se calar para sempre.

E a colheita, como profetizando o infortúnio de muletas e mulas, soa como uma indefectível sinfonia venérea. Pululante área hemisférica onde se jogar ao sabor de todos aqueles temperos de um sertão surreal e aborígene, era como um testamento, onde prevalecia a carne insossa e etérea de todos os homens que não tinham nenhuma outra opção, a não ser a conquista dos morros e senzalas do seu próprio jardim.

É preciso que falhemos. Que tropecemos. Que (indubitavelmente), sacolejemos o furor do medo e do pecado. A transferência de nomes e faces. Da imensa sarjeta onde proliferam as conversas baixas pela noite a dentro. Como o falar quase ininteligível , menos do que os passos de um inseto. Menos do que a lembrança de um amor perdido. Menos do que a maré de um rio que se lança no seu turbilhão, como esteio de cabeças e cabaços.

Menos do que (ainda), o que se deixou dos mortos conselhos dados. Como cetim que cobre mesas e defuntos. Como a fagulha de uma andorinha, onde pressente por entre suas asas, a celebração de uma noite de frágeis remansos.

Epifanias como vasos que suplicam pela sombra e pela quimera de enfados multiplicados por essa faixa onde moram hospícios e o riso de uma criança que nunca dorme.

O saber, frequentemente, fabrica com a sua seca língua, o repertório de boatos e fuzarcas. Porque a dobra do juízo, quando ela se multiplica, é farinha, indolente embarcação de uma travessia que olha pelas suas margens, o sorriso de uma moça que lembra do dia que passou pela ponte onde aconteceu o seu encontro com a serpente que prometera uma incalculável coleção de encardidos espinhos e a confirmação que a barra do dia morre.

Saibamos do que o pecado de um vento que nos leva, é capaz de fazer. Tecendo como fagulha de uma voz que se prolifera, a suicida maloca, fermento que penetra na mente dos recolhidos astros, pseudônimos, vulgos, alicates verbais da nossa exuberante produção de nomes e nomenclaturas das serras, renitentes serrotes, montanhas, embarcações de pedras e de areias.

Soa desse modo, a variedade de condenações e impropérios oriundos dos linguajares de toda sorte, como profetizando por entre a cruz de um lajedo que nem invoca mais nada, a desgraça dos líquidos menstruáveis, que nem quartinha se assemelha. H2o de uma avalanche de hectacombes e desastres. Crimes, arruaças do inferno, como praga de um esqueleto que de pronto, inflama com o seu cuspe, mais uma procura por uma provocação suicida.

Anuncio de uma espécie de banzo, como boi abatido, língua para fora, raça que destroçada, sobe aos céus, e espalha com seus instintos e sentimentos, tudo que pode-se compreender como prova de uma existência efêmera.

Sim, esse mundo já não vale bosta. Merda nenhuma. E as feses recolhidas pelo meio do caminho, servem como escargot para a finesse de uma burguesia, extrato de beócios escarros, e crassos erros do emplastro que se descortina.

Gangorra, fraticida bosta. Incremento da excrementação como divisor d’água imprópria para banho e limpeza de corpos. Talheres que cortam vidas e fúnebres festas. Furdunços de comércio de palavras e juízos. Palácio de ócio e ódio. Tapetes de brilhos e pó. Areia. Arreadas ancas de corpos nús e mefistofélicas sendas.

Barbitúricos que misturam a incompetência da pobreza com a burrice da burguesia. Tudo como um carrossel non-sense e vampiresco. Afresco de uma cisterna de ovos podres e línguas fecais. Arrotos como única forma de expressão para quem nunca soube o que disse.

Trem bala. Quando se caga. Quando se descarrega o infortúnio do excesso de contaminação do vazio de nós mesmos. Como plácidas faces. Tão frágeis como uma biloca que encontra o buraco e se esconde. Como a virgem santa dos nossos sacrilégios de uma verdade que nunca aparece. Tipo a ausência do estúpido de lembranças partidas. De uma avalanche de desordenadas coisas, como contaminando o último vôo de uma história mal contada.

Pelos arrecifes que as ondas de uma comunidade empalha. Como um cordeiro cheio de bugigangas imprestáveis, glostora de um circo fortuíto e lambedor de ostras e cardumes virulentos e podre. Metralhas, aperreios, curativos, mal olhados, quintilhão de gonorréias e apetrechos mofados e nunca amados. Parte do corpo que cede, sopro de uma melancólica lágrima que se arrasta pelos bueiros, jangadas, cinzeiros, calçados, isqueiros, baladas. Todos.

Circunspecto é o ar da morte que se estabelece por ai. Uma floresta que armazena raiva e vulgaridades. Tipo a fantasmagórica alegria de um pobre coitado que ri, para não morrer de fome e compaixão pela sombra que lhe persegue. Bordel da babel.

Somos todos lúpens da hipocrisia do nosso próprio chão encharcado de cruzes e credos. Proscritos como a escrita de um redemoinho de provações. Provocações indóceis e verossimilhanças de uma rezadeira de mijos e olhares falsos. Riso chulo. Chulé que se alastra pela veia contaminada do podre de um fim do mundo.

Sociedade de merda essa que a gente vive. Parecida com a aflição dos bichos que sentem tudo mas não podem fazer nada. Só a compaixão dos seus olhares se espalhando pelas geleiras derretidas. Como lentes de um mundo à deriva dos nossos próprios corpos carbonizados de mentiras e pecados. Objetos abjetos.

Pano defunto. Presente dos nossos delírios carnais.

3 Comentários para “Como Uma Bomba No Ar

Chico Lira comentou em 22/5/2007 às 10:04 am

Escreva aqui…

Depois de uma certa idade temos receio de escrever certas coisas e enxugamos nossos textos para virarem textículos. Vejo que este receio de se expor não pegou o pé o nosso poeta-cronista Carlos Gurgel.
Como bem disse João Cabral de Melo Neto, existem autores que escrevem como mija. Gurgel com este texto urinou nas paredes da podre burguesia. Duvido muito que no elefantão papa-gerimum exista gente mijando tão bem nos lugares protegidos quanto ele.

Francisco Lira comentou em 22/5/2007 às 3:25 pm

Escreva aqui…

Não estou entendendo vocês. Mandei meu comentário para este texto do Gurgel,hoje, precisamente às 13:25h, vi quando ele foi lá pra baixo bonitinho, dei oputra lida e depois escafedeu-se. Tem censura ou apagaram sem querer.
Agora como estou noutros estágios de consciência já nem sei mais o que falei. Culpa de vocês. Minha é que não foi. Sorte que o texto é tão bom que vou ler novamente.

Caro Chico Lira,
Não tem censura não?!
É que devido a “baixaria” nos comentários durante o Mada resolvemos moderar o sistema.
Ele só entra depois de aprovado.
Realmente o teu demorou um pouquinho, pois creio que ninguém viu o comentário aguardando aprovação.

Peço desculpas pela demora.

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