Por Carlos Gurgel - 22/07/2007

Galhos de folhas. Folhas de galhos. Sertão. Aquecendo suor e saliva. Mãos e música. Boca e o tungstênio dos nossos passos. Caminhos. Lá dentro. E cá fora. Réstia de porta. Cancela que fermenta a fartura da seca pelos nossos olhos tão íngremes da paixão pelo seu pontilhão. Região de milhares de bocas com fome e fé.
Chico nasceu primeiro. Foi a primeira enxada de uma procissão, de um cortejo de indescritíveis tesouros sonoros. Tinha uma imensa facilidade de ser genial. Tanto que varou noites e quintais. Dos outros. E dos outros dos outros. Sempre ruborizando com o seu pandeiro, o mungunzá, o ganzá de ambas as pernas que não ficam paradas. Entrelaçam-se em frenesi. Na feira. E nas flácidas faces dos enormes arvoredos da sua infância. De tanto êxtase, alergia de frêmitos. Como uma coçadeira que não pára. Ampara.
Era como se fosse toda uma cidade que acompanhasse os passos de um cidadão que sempre na pobreza do seu vestir, e na riqueza do seu sentir, passou por nós como uma lenda. Uma eterna tenda da gratidão dos seus braços e sentimentos.
Alforria. Cheiro do chão batido. Por entre vozes e caramujos. A cantiga que não pára. Mexe. Por dentro dos sonhos e das sensações de um menino que viu o pasto crescer e se transformar em uma imensa pasta de recreios e recordações .
Assim era Chico. De tez que se sobressaía como um Deus. Como um estranho e incalculável tesouro para sua região de morros e serras. Uma subida de um monte de promessas para uma gente que necessitava de alguém que fosse um bom alpendre. Vasos com plantas por todas as partes Um propagandista dos seus mistérios e sentimentos. Como uma quartinha cheia d’água para saciar a sede de quem sempre procurou pelo caminho que sonhou, garimpou. Por uma vestimenta que espelhasse o sol que habitava. Onde morava.
Como se fosse ao mesmo tempo a glória e o cajado. Uma ruma de rima. Que desfia com os seus dentes e dedos o que de mais escondido tem nos seus temores. Como uma cacimba que se guarda para quando chega o aluvião dos nossos enormes e soberbos predicados de rodas e celebrações de incelenças.
Sim, o mundo é um moinho de mudos e profundos recados. Chico foi e sempre será uma rocha. Uma imensa e preciosa serra. Arrodeada de transformações da sua língua bendita.
Tal qual a sua face como escorrendo velames e fios de rios que alimentam os bois que carregamos pelas imensas pradarias dos nossos infindáveis recomeços introspectivos e interioranos.
Já o outro, mais atual, de tanta riqueza no falar, é como se fosse o termômetro do tempo. Uma escrita que desafia a cabeça de quem imagina que sabe tudo. Uma tinta que escorre solta e veloz. Como acentos que cravam, acima de tudo, a eterna compaixão pele desvelamento do seu próprio ser, como uma flor que nasce por cima de uma pedra que não recebe a chuva do sertão, e se sente, assim mesmo, como um intenso e irrecusável destino, traçado e alimentado pela infindável quantidade de cantos e iluminada vestes verbais.
Com seu jeito único e polígrafo, um soldado, um escudeiro que sempre defendeu o seu riacho, o seu chão. Uma enorme e profunda paixão por toda a criação humana. Que ultrapassa como um gavião, o senso comum de uma poesia cheia de sol e lágrimas.
Como uma tremenda lição de um açude que acolhe e acorda todos os que se perderam por entre uma região invadida por carabinas. Em poças de sangue de um coração que chora. E se redime do descompasso de toda uma fortaleza de rezas e perdições.
Sim. Somos chocalhos. Lodos. Borbotões de granizos e vigílias. Histórias que correm soltas. Gravitando pelo calor inclemente dos nossos cérebros como solapando com toda a sua intensidade, o que nos esquecemos de lembrar. Tudo do que necessitamos é de uma cura. De uma lua. Uma rua que nos traga a certeza de que precisamos viver no arvoredo de uma constante e revolucionária represa de quilômetros e mais quilômetros de achados, descobertas do nosso inconsciente de pedras e pérolas.
Tanto Chico como Francisco ficam no meio do Antônio. Tanto Chico quanto Francisco são Antônios do mesmo arvoredo. Antônio Francisco. Antônio Paulino. Antônio Cícero. Antônio Paulo. Antônio José. Pedintes e sombras dos nossos mais perpétuos e imortais quintais.
Uma infinita capacidade de recriar o sofrimento e a seca. Uma inesgotável e perene busca por um trecho, uma trilha, que nos livre de macambiras de estados. Geográficos. Telúricos. Insanos. E inadmissíveis.
De uma festa, de uma profana e libertária crença na capacidade que as pessoas geniais tem de radiografar com as suas florações e instrumentos todo um compasso de espera e de partida.
Chão. Rachaduras. Sinos. O tilintar de açudes e açucenas. A irrefreável sedução de quem se deixou ir, por entre cactos e plânctons. Para todo o sempre. Como o relicário de quem ficou olhando para o futuro semelhante a uma promessa de pontes, avermelhadas janelas de um cupim que abotoa rosas e parte
Filó. Os filamentos de um doce de abóbora. O ciúme de uma serra. Poli. O cheiro que exala do amor que sentimos, quando sentimos que o que se fala e o que se toca, é como se fosse a extensão do nosso corpo, do nosso chão. Cravado de siriemas, barcos, tocaias, betume e o beijo do sagui no meio da noite que chora.
Um vendaval de preciosidades marítimas e terrestres. Através da cor dos caís. Bambús. Caçúas. Arrumadinhos de galopes no meio da praça que procura pelos seus videntes. Meia luz. Charco de pintassilgos e florestas de cigarros inchados de tanto se dar. Trovas e tropel. Um olho que vê. Uma boca. Uma barca que pronuncia a vazante de uma lembrança que não tem mais fim.
A infinita capacidade do horizonte do céu perdoar as cigarras sentinelas, os cogumelos que nascem por entre as romarias que o padres se pergaminham pelo caminho tomado de escarros e escudos. Sim. Somos feitos de compressas. Como requentando juízos e avisos. Apitos que soam. Garça que gralha e rasga com sua ventania, a opacidade de um vulto que se resguarda de escorpiões e o frio da noite. Pendões e refrões das montanhas que circulam os nossos sonhos e somem.
Uma farinhada evolução dos nossos pés, como a procurar pelas enxadas do caminho, a gota que salva territórios e delírios. Que tateiam e tatuam os nossos silêncios como armaduras do nossos jardins multicores. Cantos que massageiam todas as armadilhas dos que ambicionam como pessoas engomadas e bucolicamente bêbadas, a verossimilhança dos seus ímpares corpos nús.
Por isso que precisamos de gênios. De uma raça que lança mão dos seus perfumes e aroeiras. De um exército que salve seus bois e os seus arreios. Rios e risos.
Uma enxurrada de cantochão. Uma vela que arde acesa como uma vida que nunca dorme. Uma gaivota poesia. Um pássaro que corre aceso. Anunciando que por trás do trovão, vem chegando o varal de uma imensa cordilheira de tapumes e sortilégios.
De uma luz que ilumina com os seus artistas, o sinal de quem nunca imaginou que o riacho que se batizou, é como se fosse uma frondosa e enorme benção. Uma selva. Uma fenda. Uma lenda. Uma sombra que salva.
Um estopim que se apresenta como a verdadeira loção, que espalha com o seu frescor, o volume da esperança e do porvir.
Salve Chico! Salve Francisco! Salve o Antônio dos dois! Como seus anônimos de mestres e folias. Como uma lufada que parte e que toca. Como um barro que fervilha ouros e ilhas.
Salve seu Chico Antônio e seu Antônio Francisco! Dois sóis. Doloridos. Coloridos. Duas dunas que arregaçam com o seu motim, um povo que ressuscita com o seus óleos, o tempo de uma estrada que nunca passa. Fica arvoredo. Se eterniza pela beleza das suas bandeiras. Maduras e eternamente amadas.
2007 ® Todos os Direitos Reservados
Todos os textos deste website possuem registro Creative Commons License.
DZ3 Design