Palavreando

As mil e duas noites de Fausto Wolff

Por Hugo Montarroyos - 21/11/2006

fausto_01.jpg

Fausto Wolff é o desconhecido mais ilustre a surgir no Brasil. Se você nunca ouviu seu nome e jamais viu sua rotunda figura na TV, o motivo é um só: Wolff escolhe trilhar esse caminho. Do alto dos seus 65 anos, Fausto é contemporâneo e amigo de figuras como Millôr Fernandes, Ziraldo, Oscar Niemeyer, Jaguar e outros tantos. Começou no jornalismo aos 14 anos.

Foi do primeiro time do “Pasquim”. Para se ter uma idéia de sua importância, em uma festa em sua homenagem em Nova York, Fausto acabou conhecendo Truman Capote, a quem descreveu como arrogante, prepotente e afetado. Sem nunca ter freqüentado uma faculdade, fala inglês, espanhol, francês, italiano, alemão, norueguês e entende um pouco de holandês.

Mas, afinal, por que um homem com uma credencial dessas não é nacionalmente conhecido? Algumas pistas: ele é comunista, ateu, detesta rico, odeia a Globo e o neoliberalismo, não suporta banqueiros, economistas (“o único economista que conheci que pensou no bem da humanidade foi Karl Marx”), não tolera patrão e até chegou a bater em um deles. Trabalhou na Globo em 1965, mas logo viu que a empresa servia ao poder e pulou fora. Ou seja, o típico sujeito de quem você gosta de cara e torce para ter a chance de um dia tomar um chope com ele.

fausto_02.jpg
Capa de A Milésima Segunda Noite, de Fausto Wolff, lançado pela Bertrand Brasil

Bem, toda a introdução acima foi para falar do último livro dele, “A Milésima Segunda Noite”, editado pela Bertrand Brasil. Fausto resolveu condensar seus 65 anos de vida, oito casamentos e mais de quarenta anos de profissão de forma inusitada e criativa. Tomando como modelo As Mil e Uma Noites, resolveu escrever mil e dois contos, cada um representado uma noite.

Nesses cotos, o leitor encontra de tudo: fatos pessoais da vida de Wolff, pequenas histórias surreais e divertidíssimas, aprofundamento do pensamento e da vida pessoal de “gente” como Maquiavel, Proust, Karl Marx, Nero, Sócrates, Platão, Cristo e muitos outros. Sem contar o personagem que inventou, o cronista social Nataniel Jebão, autor de pérolas como “A liberdade de expressão é uma força de expressão”.

A Milésima Segunda Noite é um caso raro de leitura fácil e gostosa (sem jamais ser fútil e preguiçosa) combinada com rica literatura e um grau de erudição e de conhecimento que só não se torna arrogante porque o autor faz questão de se expor como ser humano em suas páginas: ou seja, ele é um senhor que já broxou, tomou drogas, ficou de porre, deu vexame, comeu quem bem quis, foi corno e corneou.

Enfim, um cara como outro qualquer, com a vantagem de ter levado uma vida dedicada ao conhecimento, à integridade de caráter e ao compromisso com seus ideais, palavrinha esta geralmente designada para classificar “babacas”, “ingênuos” e “dinossauros”. Não é à toa que dão pouca visibilidade a Fausto Wolff. Em tempos em que “luta de classes” parece algo ultrapassado, Fausto permanece sendo alguém que caminha majestosamente na contramão do sistema.

Quem quiser aproveitar enquanto deixam, ele ainda (pode ser demitido a qualquer hora devido ao ácido conteúdo de suas colunas) escreve no Jornal do Brasil, toda quinta-feira e aos sábados. E, quem quiser fazer uma viagem completa de mil e duas noites nas entranhas da humanidade, esta Milésima Segunda Noite vai te ajudar a ter dias ainda mais esclarecedores.

2 Comentários para “As mil e duas noites de Fausto Wolff

Tenho muita curiosidade de ler um livro do Fausto. Acompanho sempre sua coluna no JB e me divirto com seus comentários geniais. Falando em ser demitido, semana retrasada ao também esculhambar Bornhausen pensei: depois de Emir Sader ele será o próximo a ser processado. ahhahahahaha. Ele não mede palavras, gosto disso.

Parabéns pela descrição do Fausto.
A leitura do Fausto é obrigatória. Quanto ao “Mil e Duas Noites” é o próximo.

Abraços

Deixe seu Comentário

16/08/2010

Decadência e redenção de um herói por Miller e Mazzucchelli

Por Alexandre Honório

O que torna uma história em quadrinhos fundamental? Equilíbrio entre trama e traço aliado ao talento por trás deles. É isso que transforma Demolidor: A Queda de Murdock em um clássico do gênero e o coloca entre as principais criações da década de 1980 e dos quadrinhos mundiais. Criada por Frank Miller e ilustrada por [...]

[+] Leia Mais

05/08/2010

O brilho e glamour dos monstros de Palahniuk

Por Alexandre Honório

A primeira cena de Monstros Invisíveis poderia ser descrita como o cruzamento entre Scarface, Carrie – A Estranha e Quatro Casamentos e Um Funeral: uma garota, em um vestido de noiva completamente destruído, empunha no alto de uma escadaria um fuzil enquanto, diante dela, aos pés desta mesma escadaria, enquanto tudo ao redor grita em [...]

[+] Leia Mais

16/06/2010

Um conto assustador sobre um atlante com asas nos pés

Por Alexandre Honório

Namor, o Príncipe Submarino, nunca foi um dos meus personagens favoritos. Qualquer personagem que, submarino, traz asas adornando seus pés é no mínimo um absurdo, não? Correto. Porém, devo morder a língua quando o assunto é Namor: As Profundezas, encadernado com o personagem que está atualmente nas bancas de revistas. A edição caprichada faz jus [...]

[+] Leia Mais
BuscaPé, líder em comparação de preços na América Latina

2007 ® Todos os Direitos Reservados

Todos os textos deste website possuem registro Creative Commons License.

DZ3 Design