Por Pablo Capistrano - 24/07/2007

Nelson Rodrigues foi um grande fazedor de frases. Uma das que eu mais gosto é “Se cada um conhecesse a intimidade sexual dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”. Na época de Nelson o pudor sexual era um indicativo de um tipo muito particular de sentimento moral: a vergonha.
Irmã da culpa, a vergonha é aquela sensação miserável, aquele sentimento devastador e inquietante, que tira teu sono quando você é flagrado fazendo algo moralmente condenável. È certo que o que é moralmente condenável varia. Na época da minha avó, que também era a época de Nelson Rodrigues, mostrar as pernas era algo moralmente condenável. Uma mulher honesta, decente, não mostrava as coxas.
Do mesmo modo, o moralmente condenável varia de lugar para lugar. Um vereador holandês flagrado recebendo propina para votar uma lei qualquer pode ser possuído por um tão profundo e avassalador sentimento de vergonha, que sua única saída seja o suicídio, mas, pode não dar a mínima se um eleitor o encontra na porta de um Coffee Shop de Amsterdã que vende a melhor e mais variada maconha do planeta. No Brasil, a coisa parece que se inverte.
È o “moralmente condenável” variando no lugar e no tempo. Agora, o que parece não variar, nas sociedades humanas, são os sentimentos morais. Da mais distante aldeia, até o bairro mais descolado de Nova York; da fazenda mais fria na Baviera, até os mais caudalosos desertos cortados por caravanas de beduínos berberes; a vergonha é a mãe do homem.
Ela é que nos faz humanos. Que constrói as bases desse mundo artificial que nos rodeia. A vergonha e a culpa são as melhores ferramentas para se formatar um sujeito que não roube, não receba propina e atire na cabeça de um outro ser humano Que não espanque mulheres em paradas de ônibus e não bote fogo em um homem que está dormindo na rua em uma madrugada fria.
Confúcio, que viveu entre 551 e 479 antes da era comum já sabia aquilo que minha Avó me ensinou: “Se conduzirmos o povo por meio das leis e realizarmos a regra uniforme com a ajuda dos castigos, o povo procurará evitar os castigos, mas não terá o sentimento de vergonha. Se conduzirmos o povo por meio da virtude e realizarmos a regra uniforme com a ajuda dos ritos, o povo adquirirá o senso de vergonha e além disso se tornará melhor”.
Sem a vergonha e a culpa, fica muito caro para um sistema social qualquer se manter inteiro. Os custos que o Estado vai ter para desenvolver um aparato repressivo que coíba as atitudes consideradas moralmente condenáveis é muito alto em um mundo no qual a vergonha perdeu o sentido. È completamente inútil a existência do Direito sem que haja uma quantidade mínima de vergonha e culpa que auxilie os juizes, os promotores, os advogados e os policiais a manter a ordem social.
Quando os próprios agentes do Estado, quando vereadores, juizes, policiais, prefeitos e governadores, perdem, em conjunto, a vergonha então, meu amigo, a chapa fica muito, mais muito quente; porque aquilo que nos une, aquilo que faz com que um vizinho possa viver em paz com outro vizinho se esfacela e o caminho é um só.
Não estamos nesses últimos dois anos vivendo uma crise moral. Ela é bem mais antiga do que a mídia quer fazer pensar. Essa idéia de que a corrupção aumentou nos últimos anos e lá lá lá, é balela política. A crise do “moralmente condenável” no Brasil tem, no mínimo, cinqüenta anos. Ela está ligada a transição de um universo rural e aristocrático, fortemente influenciado por uma moral religiosa, para um mundo burguês. O confronto entre a geração da minha avó (a de Nelson Rodrigues) e a da minha Mãe (a de Nelson Mota) marcou esse momento de passagem no final do século passado.
O Brasil abandonou a velha moral, como fez a Europa nos últimos anos do século XIX, e adotou a moral do mundo da indústria e do consumo. Hoje, para muitos pais de família, casar sua filha com um rico canalha é bem melhor do que com um pobre honesto. Hoje, a maior vergonha não é de ser “esperto”. Nos sentimos culpados por não termos dinheiro suficiente para comprar um belo apartamento e uma Mercedes. Nossa maior vergonha é a de não sermos ricos, jovens, descolados, bem nutridos com o vinho mais sofisticado e o prato francês da estação.
Temos vergonha de não fazermos sexo o suficiente, de não termos os músculos certos nos locais exigidos, de não usarmos a roupa cara da loja de banalidades. Nossa vergonha é a de não ser visto saindo de um carro preto na frente dos mais sofisticados restaurantes e de não ter dinheiro para pagar ao colunista pelas nossas fotos publicadas na revista de fofocas.
Abandonamos uma velha moral e não conseguimos ainda encontrar uma moral melhor para pôr no lugar. A crise da nossa vergonha é de conteúdo não de forma. Se há uma função social da vergonha é a de evitar a guerra de todos contra todos e num mundo onde não há verdade, nunca vai ser possível haver paz.
Esse artigo é dedicado aos sem-vergonha da própria vergonha (Desculpe Nietzsche, mas eu tive que escrever isso…).
daniel comentou em 2/9/2007 às 8:40 am
Caramba, esse texto é sensacional, fantástica análise da falta de vergonha nacional!!!
Marcelo comentou em 28/2/2008 às 7:19 am
Pablo, seus textos são realmente excelentes. Parabéns!
Carlos comentou em 9/9/2008 às 7:02 am
Disse tudo!
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