Por Pablo Capistrano - 27/04/2008

Assistindo na DW-TV as repercussões Européias da vitória da tia Hillary sobre o Barak Obama nas prévias da Pensilvanya, sou subitamente possuído por uma dúvida: “por que todo mundo diz que o Barak Obama é negro?”.
Vou à Internet e vejo uma foto do cara nos braços da mãe quando tinha dois anos. A mocinha branca do Kansas que casou com um queniano e depois foi morar na Indonésia, não parece, de modo algum, com os esteriótipos culturais de uma moradora do Harlem. Tecnicamente, se tivesse nascido no Brasil, Obama seria um “moreno claro”. Mais um dos mestiços que enchem nossas ruas e fazem o estranho mosaico de rostos das metrópoles brasileiras. Para entender, porque, o candidato aspirante à vaga democrata na próxima eleição para presidente dos EUA precisa virar “negro” eu tive que voltar para 1915.
Em oito de Fevereiro daquele ano longínquo, aparecia nas manchetes dos jornais dos EUA a mais nova superprodução de Hollywood. Com direção de D. W. Griffith “O Nascimento de uma Nação” era um épico histórico no melhor estilo do cinemão norte americano que venceu após a guerra a escola alemã de Murnau, e Fritz Lang e dominou o mercado da cinematografia internacional do pós-guerra. O filme se divide em duas partes. Em uma primeira, conta-se a história da guerra da secessão na perspectiva das relações entre duas famílias, os Cameron (do Sul) e os Stonemann (do Norte).
Na segunda parte do filme… bem a segunda parte do filme é tenebrosa… o diretor retrata o ambiente do sul dos EUA da época posterior a guerra (após o assassinato de Abrahan Lincoln) do modo mais afro-fóbico possível. Os escravos libertos são retratados como selvagens idiotas e sem modos, primitivos e intelectualmente inferiores, que, submetem a antiga elite branca a uma insuportável opressão.
O pior é a figura de Silas Linch (personagem do filme). Um mestiço, mulato, retratado como alguém ardiloso e maquiavélico, que busca o poder a todo custo e almeja, casar com a filha branca e lourinha do seu protetor, o senador nortista Stoneman. No filme os mulatos são retratados de forma mais grotesca. Eles são lascivos, sem caráter, devassos, e, o pior: são inteligentes (ao contrario dos negros, todos broncos e abobalhados). Grifith deixa à mostra a idéia de que os mulatos combinam a flacidez moral dos negros, a lascívia sexual dos africanos, com a inteligência e a meticulosidade dos brancos (Essa é a idéia do filme). Por isso mesmo, os mestiços são muito mais perigosos. O filme acaba com os Cameron (a família do sul), destruídos pela opressão dos novos senhores negros, encontrando uma única e inexorável saída política: fundar a Kux Kux Klan! Sim, a Ku Klux Klan (a entidade nazista e racista que enforcava negros, judeus e homossexuais, e queimava cruzes imensas no sul dos EUA).
No filme ela é vista como a última esperança branca para manter a honra e a dignidade da nação. Sentiu o drama? Mas não é só no cinema. Lendo alguns contos do H. P. Lovecraft um dos mestres da ficção e do suspense, vejo coisas como: “mas o espírito diabólico da escuridão e da esqualidez segue incubando em meio aos mestiços nas casas velhas de tijolos…”; “um bote foi colocado na água e uma horda de facínoras morenos e insolentes subiu a bordo do Curander…”; “e Marlone não pôde deixar de lembrar que o Curdistão é a terra dos yezidis, os últimos sobreviventes persas dos adoradores do diabo”.
Em Lovecraft, como em Grifith o mal é sempre fruto da exótica mistura das raças. O mal tem a cara morena de religiões distantes e de cruzamentos inter-raciais. Esse parece ser o maior de todos os tabus dos norte americanos. Cruzar a barreira racial, partir a fronteira catalogada e definida daquelas convenções ideológicas que separam seres-humanos. Por isso, Barak Obama, teve que rejeitar a herança da mãe e assumir a raça do pai. Percebeu, como há um cheirinho de 1915 nessa campanha eleitoral norte americana?
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