Por Alexandre Honório - 30/03/2009

Hábitos Perigosos é uma daquelas séries de histórias em quadrinhos que pegam o leitor pelo gogó. O arco escrito por Garth Ennis como parte de sua passagem pelo mundo de John Constantine e sua série Hellblazer é um daqueles casos de unanimidade incontestável.
No Brasil, a história teve sua primeira publicação na revista Vertigo da Editora Abril em meados da década de 90 e recentemente ganhou nova edição, sendo uma das publicações que funcionaram como “canto do cisne” da editora Pixel Media – especializada em quadrinhos e recentemente desmontada depois de sua absorção pelo grupo Ediouro.
A edição da Pixel reúne o arco em que John Constantine, às portas da morte, consegue sua maior façanha: sobreviver e, mais que isso, no seu melhor estilo, enganar três dos Caídos – garantindo vida útil para seus pulmões entupidos por maços e maços de cigarros e vida desregrada. Os Caídos em questão, se preciso realmente explicar, seriam os “pilares do porão” – basta uma leitura rápida de O Paraíso Perdido de John Milton para que você entenda o que Ennis explora em Hábitos Perigosos e em muito de sua passagem por Hellblazer.
O volume já começa com tudo em cima com a introdução do próprio Ennis sobre o personagem e sobre como pretendia, sem o menor remorso, tentar mandá-lo dessa para melhor. Para Ennis seria esse o melhor modo de contar uma grande história sobre um dos principais anti-heróis – senão o primeiro – do universo Vertigo da DC Comics.
Com seu maço de Silk Cut, um café e o resultado ainda na cabeça de uma visita ao oncologista, Constantine começa o arco lidando com o fato de que, sim, está com um câncer terminal e que, diante disso, pouco lhe resta senão aceitar – ou tentar evitar de alguma maneira – a contagem de palmos em direção à sepultura.
É sobre esse pressuposto que Ennis faz sua festa particular. Constantine se vê, despido de parte de sua particular arrogância, “fodido e mal pago” e parte buscando empregar suas últimas cartas.
Depois de visitar um amigo – um mago recluso que tem por hobby transmutar água-benta em cerveja e também está com os dias contados – e aprontar uma boa com o Primeiro dos Caídos, Constantine percebe o que tem que fazer: estabelecer um acordo às avessas que garanta sua sobrevivência.
Depois de tomar umas “brejas batizadas”, jogar o “Primeiro dos Tinhosos” num poço de água-benta e descobrir que o próprio coisa-ruim pretende arregaçá-lo como vingança pela “brincadeira”, Constantine decide pela máxima: “Ta no Inferno? Abraça o Capeta”.
É com essa mistura e com doses cavalares de horror que Garth Ennis se esbalda. Não é por acaso que o arco Hábitos Perigosos serviu de base para o filme Constantine estrelado por Keanu Reeves. Apesar do resultado do filme não ter sido dos melhores – apesar de gostar muito dele –, é lendo o arco escrito por Ennis que a virulência do personagem criado por Alan Moore e Steven Bissette ganha contornos radicais.
O traço de William Simpson não é lá dos melhores – não chega sequer perto de Steve Dillon (parceiro de Ennis em Hellblazer, Preacher e em Justiceiro) – mas consegue dar conta da trama e imprime o nível de tensão e acidez que são particulares à Constantine e suas histórias.
Um dos melhores momentos de todo o arco – além do confronto entre John Constantine e os três Caídos – é o encontro do mago com o arcanjo Gabriel em um clube londrino. Representado como dono de uma arrogância inigualável – algo que em números posteriores de Hellblazer será seu ponto frágil – Gabriel nega ajuda a Constantine e deixa-o em desgraça.
Jurando vingança e lembrando Gabriel do olhar atento de seu Pai, Constantine deixa o clube e parte para a forra.
Talvez o último quadro de Hellblazer 45, a penúltima história do arco Hábitos Perigosos dê a dimensão geral do personagem e do porquê de ser um dos favoritos do selo Vertigo: com o dedo em riste, tendo literalmente fodido com três das principais entidades infernais, Constantine resume todo seu currículo com um “Vão Se Foder” carregado com sarcasmo e vício.
Hábitos Perigosos é o melhor cartão de visitas para o mundo de John Constantine e o que ele tem de pior. Não é por acaso que, saído das páginas de O Monstro do Pântano de Alan Moore, o personagem tenha ganho vida própria e se transformado em uma das mais longevas publicações do selo Vertigo. No Brasil, entretanto, a publicação serviu como despedida para uma editora que vinha se notabilizando por apresentar grandes histórias para um público cada vez mais interessado no lado marmanjo dos quadrinhos.
Uma pena que Hábitos Perigosos tenha proporcionado para seus leitores brasileiros nesta reedição o mesmo efeito que a vitória de Constantine sobre os Caídos: um gosto misto de amargura e satisfação. Essa foi minha sensação com o fim recente da Pixel, mas satisfeito por finalmente ter nas mãos uma história primorosa.
Milena Azevedo comentou em 4/4/2009 às 8:37 am
Alexandre, você disse tudo, tanto sobre Hábitos Perigosos quanto sobre a Pixel Media. Faço minhas as suas palavras. Texto primoroso!
Alexis Peixoto comentou em 6/4/2009 às 2:01 pm
Eu quero que você me explique como diabos alguém faz “uma leitura rápida” de O Paraíso Perdido…
Alexandre Honório comentou em 7/4/2009 às 8:07 pm
Uma leitura rapidinha. A minha, por exemplo, demorou dois meses e alguns dias. Na época eu tinha bastante tempo livre pra isso e tal…
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