Por Alexandre Honório - 20/07/2008

Deixando o Século XX, primeiro encadernado de Planetary pela Pixel Media, é uma “pequena caixa de boas idéias”. Não sei quanto a vocês, mas a série – que teve seu último número publicado pela Pixel Magazine há pouco mais de um mês – nos apresenta um turbilhão de informações e interconexões que, para construir uma reflexão que realmente reproduza suas singularidades, o suporte em algumas das reflexões da complexidade podem ajudar.
Não é mero acaso que o título – Leaving the 20th Century, em inglês – soe como uma espécie de “atendimento” ao volume de Edgar Morin, Para Sair do Século Vinte. Me parece uma particularidade entre autores como Grant Morrison, Warren Ellis, Alan Moore e Neil Gaiman um enveredar pelo terreno e pensamento complexos; por um terreno que cobra uma postura multireferencial acerca da maneira como abordamos o contemporâneo… Isso marca, como é possível perceber neste volume, parte das cores de Planetary e do que suas histórias buscam no terreno fértil dos quadrinhos.
“Algo que se aprofunde nas raízes do gênero e que mostre suas marcas”. É assim que Warren Ellis apresenta sua criação e, mais que isso, após a leitura de Deixando o Século XX, é exatamente isso que se desenrola página a página. O volume reúne histórias publicadas entre os números 13 e 18 da série nos EUA – aqui o mesmo arco pode ser lido nas primeiras cinco edições da Pixel Magazine. São histórias que essencialmente se aprofundam na “meta-mitologia de quadrinhos criada por Ellis” – e não só dos quadrinhos.
Deixando o Século XX marca a retomada de controle das rédeas por Elijah Snow do embate entre o Planetary e Os Quatro. Logo na primeira história do encadernado, Século, vemos Snow em algum lugar da Alemanha – especificamente ao castelo de um certo Von Frankenstein – enfrentando criaturas estranhas; corte seguinte, Snow caminha pelas ruas de Londres e tem um encontro com Sherlock Holmes. O que Ellis pretende aqui, a meu ver, é interconectar a trama de Planetary com, senão com as recriações de Alan Moore, com uma mitologia popular do século passado. O resultado de toda esta “química” é impressionante.
Ponto Zero é outra grande história já que nos apresenta os momentos finais antes da queda de Elijah Wood e dele ter sua memória apagada pelos Quatro. A história, além disso, nos remete a ausência de límites dos vilões da série: um planeta inteiro é, segundo Snow, destruído para servir de “sala de troféus” aos interesses dos Quatro. Aqui mais uma vez Ellis brinca com nossa capacidade de interconectar referências de quadrinhos quando mescla à trama apontamentos em direção a personagens clássicos – como Thor, Capitão Marvel (da DC) e MiracleMan.
Além das duas histórias citadas acima, uma outra merece destaque: Hark. Um dos grande méritos de Planetary, além, claro, dos argumentos criados por Warren Ellis, é a arte criada por Phil Jimenez. O desenhista em Hark leva sua técnica a extremos; cria uma das mais belas narrativas gráficas já concebidas e, com um cuidado impressionante – algo que só encontra paralelo nos trabalhos de Frank Quitely em Grandes Astros Superman -, nos surpreende pelos detalhes, expressões e seqüências que parecem saídos de algum fotograma.
Deixando o Século XX é, a meu ver, um dos mais impressionantes exemplos do quão relevante é Planetary não só para a compreensão de uma mitologia da nona arte, mas para a interdependência que todos os componentes que ajudam na criação deste universo particular – recriando a partir dos conectores e zonas de sombra da cultura pop. Mais uma vez é preciso que se diga que, juntamente com os volumes anteriores, este me parece indispensável.
Indispensável não só para que possamos acompanhar a construção de uma das mais brilhantes criações em quadrinhos da contemporaneidade, mas para termos a dimensão de que a complexidade e recorrência à miríade de idéias que está a nossa volta não pode ser ignorada; pode, sim, ser des e reconstruída com resultados, como Ellis deixa bastante evidente, impressionantes.
thesuicidehandbook comentou em 23/7/2008 às 11:36 am
Ler Planetary na primeira vez foi como levar um soco no estômago. Não estava(ainda não estou) preparado para a qualidade da obra. Vai soar clichê, eu sei, mas Warren Ellis é um gênio!
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