Por Alexandre Honório - 27/01/2009
Laerte é uma invenção; um dos poucos cartunistas brasileiros que têm à mão aquela marca particular: uma capacidade quase que inesgotável de surpreender e contar uma boa e, por vezes, bizarra e hilária história em pouco mais de três ou quatro quadros. Isso fica ainda mais claro quando nos deparamos com algo como O Manual do Minotauro, blog criado por ele como uma espécie de vitrine de suas experiências com as tirinhas diárias que cria e que circulam em publicações Brasil afora.
O que mais chama a atenção em O Manual do Minotauro é que em seu curto período de existência – o blog tem poucos meses de vida – fica evidente que a criatividade de Laerte é aparentemente irrefreável. Exercícios metalingüisticos, arte seqüêncial – lá se vão duas palavras com o “finado” trema -, arcos de tiras que brincam com as relações, com a filosofia, com o cotidiano delirante que tem sido a marca de muitos dos trabalhos recentes do cartunista e ilustrador.
Por exemplo: o arco O Manual do Minotauro, primeiro e aquele que empresta nome ao blog, parece saído de alguma reflexão perdida entre doses de bourbon e uma percepção lisérgica acerca das já divagantes – no melhor sentido possível – páginas de Classificados, tamanha a carga surrealista que Laerte empresta às tramas – um drama bizarro sobre um Minotauro reticente, sobre aqueles que querem ir ao seu encontro e outros que pretendem sua extinção. Enfim, um exercício surreal em tiras que nos levam a um passeio por um sem número de significados.
O Manual do Minotauro, o arco de tiras que empresta o nome ao blog criado por Laerte – sem firulas, preciosismos ou outras frescuras midiáticas no Blogspot – aparenta ser um exercício interessante tanto para o autor quanto para os fãs: Laerte publica no blog as tiras no dia imediatamente seguinte à publicação de cada uma delas nas páginas da Folha de São Paulo e de outras publicações. A idéia – tá lá no blog -, segundo o próprio Laerte, foi criar “uma espécie de experiência: os leitores veriam as tiras diárias do autor publicadas na Folha e acessariam o blog para ver seu desenvolvimento”.
Laerte pretende que os leitores tenham uma idéia completa de cada série; a leitura completa de cada uma das tramas por ele criadas. Grande sacada. Levar o leitor a acessar o site e permitir que ele percorra as tiras cronologicamente – a medida em que estas são publicadas na mídia impressa ou mesmo antes dela – em um suporte eletrônico é uma idéia no mínimo interessante ness.
Atualmente o blog O Manual do Minotauro já conta com quatro arcos: o homônimo, as séries Eu, Travesti, Dona Ruth, Minha Guerra Mundial e SPC – Sete Pecados Capitais. E envereda agora por um “rewind” aos tempos do saudoso Cyber Comix – onde passava pelo menos uma vez por dia para conferir, nos idos de 1998, os trabalhos que por lá rolavam – e põe na roda As Aventuras Rocambolescas de Dionísio Galalau.
Mas a principal sacada d’O Manual do Minotauro é a presença do próprio Laerte interagindo com os leitores do blog, explicando o contexto e o processo de seu trabalho de criação ou mesmo o porquê de eventuais atrasos – como quando viaja por aí e esquece, literalmente, de atualizar o blog.
Até agora O Manual do Minotauro vem sendo atualizado com a regularidade de um nerd. Bom para os leitores que podem, além de, de quebra, trocar uma idéia com o criador d’Os Piratas do Tietê, ver o que diabos está passando pelos miolos do cidadão. Laerte é uma invenção, mas, suas criações parecem saídas de algum plano bizarro; saídas de algum plano entre Classificados, Condomínio ou Piratas do Tietê.
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