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Traço punk em recriação da obra de Eça de Queiroz

Por Alex de Souza - 31/08/2008

A literatura e os quadrinhos vêm demonstrando afinidades desde o surgimento da chamada nona arte. Nos últimos anos, o mercado brasileiro parece que despertou para essa proximidade. É cada vez maior o número de adaptações para os quadrinhos de obras literárias. E o melhor: muitas destas HQs têm primado por uma qualidade acima da média, reunindo não só livros fundamentais da nossa literatura mas também desenhistas e roteiristas de primeira linha.

Um trabalho que certamente chamou a atenção ao desembarcar nas livrarias e lojas especializadas – e que pode ser considerado emblemático deste momento editorial – é a transposição para os quadrinhos do romance A Relíquia (Conrad Editora, 224 páginas, R$ 32), do português Eça de Queiroz, feita pelo quadrinista Marcatti.

Primeiro há de se ressaltar o quão inusitada parece essa iniciativa para quem tem algum conhecimento da área. Marcatti pode ser considerado o pai do quadrinho punk nacional, junto com a turma de desenhistas radicados em São Paulo que redefiniu o quadrinho underground brasileiro no final dos anos 70, início dos 80. Junto com Angeli, Laerte, Luiz Gê, Glauco e outros, Marcatti participou de publicações seminais como Circo e Chiclete com Banana.

Militou em fanzines e, como todo punk, sempre procurou questionar valores estabelecidos, atrelando sua obra à escatologia e ao ‘mau gosto’. Essa relação com o punk pode ser atestada com as capas que fez para dois discos do Ratos de Porão, entre elas a do antológico Brasil. Revistas como Mijo e Tralha dão uma idéia, só pelo título, do tipo de trabalho pelo qual o desenhista se tornou conhecido.

Daí então a surpresa com que foi recebida essa transposição de A relíquia. Mas, se olharmos atentamente, talvez não seja uma mistura tão estranha assim. Afinal, se hoje Eça de Queiroz é uma vaca sagrada da literatura portuguesa e basta a menção de seu nome para aqueles alunos mais desapegados ao hábito da leitura tremerem, o escritor não foi assim tão ‘canônico’ em sua época.

Eça fez parte de uma geração que atuou de forma iconoclasta contra os costumes estabelecidos em Portugal. Dândi e burguês, com estudo superior num país mergulhado na ignorância e no analfabetismo, o escritor dedicou boa parte de sua obra para denunciar o atraso representado pela forte presença da Igreja em todos os setores da sociedade lusitana.

Antiga potência, Portugal demorou a se alinhar aos valores da modernidade muito devido à influência eclesiástica. Afinal, era Roma a maior proprietária de terras no país, o que dificultava a utilização de terras e de mão-de-obra para que o país ensaiasse qualquer tentativa de industrialização.

Esse pano de fundo era um prato cheio para a verve de Eça, que não ficava nem um pouco a dever a autores como Oscar Wilde, por exemplo. É justamente esse atraso social provocado pela força da Igreja o principal alvo do escritor em A Relíquia. O romance narra as artimanhas do órfão Teodorico Raposo para conseguir arrancar da tia carola uma herança de família que atrai a bajulação dos padres de Lisboa.

É justamente nessa crítica social em que Marcatti e Eça de Queiroz formam uma dupla de sucesso. O quadrinista mostra domínio da técnica narrativa ao selecionar a medida certa do refinado texto para dar a concisão necessária à história, suprimindo trechos do romance sem deixá-la desconexa, aglutinando vários personagens num só para garantir agilidade e, principalmente, respeitando o estilo de Eça, recheado de ironia.

Nesses momentos, Marcatti volta a ser o velho punk, ao explorar a sensualidade da vida boêmia do protagonista e a ousadia da escrita de Eça de Queiroz, como na seqüência em que Raposo se revolta com a tia velha ao ser preterido no testamento.

Uma boa pedida para professores de literatura trabalharem com alunos do ensino médio. A não ser, claro, que seja numa das escolas católicas tradicionais da cidade.

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