Por Alexandre Honório - 14/07/2007

Tudo bem, o homem é um insano completo; alguém capaz de reestruturar e destroçar mitologias em busca de algo realmente relevante. Grant Morrison é assim: anárquico, pungente e um iconoclasta em estado latente. Não bastasse ter criado a mais punk de todas as HQs já concebidas – Os Invisíveis, que, alguma entidade permita, será republicada pela Pixel Media em algum momento daqui até o fim dos tempos -, brincado com as mais inofensivas criaturas (um cão, um gato e um coelho de estimação em We3) e recontar a mais batida das mitologias do século XX (na série All-Star Superman publicada aqui com o título de Grandes Astros: Superman), Morrison decidiu que tudo isso não fora suficiente para aplacar sua fome…
Esta é a justificativa que temos logo na primeira página de Os Sete Soldados da Vitória, trabalho do cidadão que está em sua primeira edição – lançada pela Panini Comics – e que acabo de comprar neste fim de mundo. Na introdução deste tour de force de delírio e super-heróis esquecidos, Morrison nos explica que, com esta nova série, buscou, sim, recontar algumas histórias, matar alguns personagens e recriá-los segundo suas aspirações e visão. Em resumo, o homem queria brincar de Deus…
Como no Universo DC Grant Morrison tem, como poucos, carta branca para contar suas histórias, somos apresentados a um verdadeiro delírio e sete tempos: os sete soldados da série são aqueles heróis de terceira linha da editora; personagens cujas histórias são muitas vezes itens coadjuvantes daquelas dedicadas aos “medalhões” da DC. Não, Sete Soldados da Vitória não é publicado pelo selo Vertigo, Wildstorm ou qualquer um outro vinculado à DC: Morrison lida diretamente, por exemplo, com personagens como Zatanna, Guardião e Senhor Milagre – para ficarmos nos mais conhecidos – e numa releitura bastante particular de, pasmem, Frankenstein.
A primeira edição da revista – que condensa o número zero que saiu lá fora e as primeiras aventuras de Klarion e de O Guardião – é um desafio aos sentidos. A primeira história – uma espécie de introdução movida a ácido -, “Eu, Aranha” nos apresenta a alguns heróis que organizam-se para enfrentar uma “aranha gigante” que surge de um portal entre dimensões encravado em território indigena norte-americano (???). Difícil, não?!?
Esta é uma equipe organizada às pressas por um dos Sete Soldados da Vitória original. Esqueci: Os Sete Soldados da Vitória era um grupo criado para a revista Leading Comics em 1941. Para ter uma idéia, o Arqueiro Verde – um dos medalhões da editora – teve algumas de suas aventuras nesta equipe. Ela, na verdade, nada mais era que uma espécie de limbo para onde eram enviados os heróis, digamos, sem muito a oferecer: uma revista reunindo-os, portanto, os “menos cotados” da DC. Grant Morrison, com sua releitura, além de massacrar alguns dos integrantes originais da equipe logo na primeira história da nova série – Vigilante foi uma das vítimas do homem desta vez -, ainda criou uma ameaça que intercalará de modo bastante particular todos os heróis envolvidos na reformulação dos Sete Soldados originais.
Somente Morrison tem, como suas muitas criações denunciam, a capacidade de construir atmosferas delirantes e ao mesmo tempo manter uma interconexão entre todos os eventos por ele narrados. Esta também, segundo a introdução à série, foi sua pretensão: criar, com personagens esquecidos ou, como disse, mero coadjuvantes, uma aventura que permitisse a confluência de suas aventuras individuais até o desfecho contra uma força antagônica comum a todos; um grupo de heróis que, alheios à existência de seus pares, fosse formado em processo e terminasse por debelar uma ameaça conhecida por cada um…
O mais impressionante é, com Morrison, termos a impressão de que tal história – ou série delas – soa como uma espécie de desafio; uma tentativa do autor de esgotar as possibilidades que o universo das HQs é capaz de condensar. Vejamos, por exemplo, Os Invisíveis: a série é um apanhado de idéias que passeiam do punk à cultura azteca em dois tempos; que estabelece uma relação com a contemporaneidade ao mesmo tempo que explora conceitos que, por sua natureza, guardam semelhanças com a mitologia concebida por autores do quilate de H.P. Lovecraft; que estabelece um diálogo entre o pós-moderno e a antiguidade. Junte no mesmo pacote Burroughs, Phillip K. Dick, Neoismo e Marquês de Sade e terá uma pequena amostra de Os Invisíveis...
Portanto, para um autor capaz desse tipo de “construção”, reestruturar mitologias de heróis pré-existentes é algo simplório. Mas é com Os Sete Soldados da Vitória que Grant Morrison nos apresenta algumas de suas armas para seu passo mais audacioso; uma releitura da mitologia de um dos principais bastiões da DC: o Superman.
All-Star Superman, série que foi sua nova empreitada após o encerramento de Os Sete Soldados da Vitória, reconta as origens do “homem de aço” e amplia a mitologia do personagem além do delírio – vide a história que Morrison constrói em torno da Tropa Superman e da passagem de uma criatura chamada “Cronóvoro”. Desconstruir e reconstruir parece ser a dinâmica de Morrison – vide a “aditivada” que ele vem também dando na cronologia gringa do Batman (apresentando seu filho e colocando-o em lençóis ainda piores que os habituais).
Bem, para não alongar muito, o resumo da ópera é o seguinte: pegue alguns reais, corra à banca mais próxima e compre este convite de Grant Morrison à sua nova empreitada. O primeiro volume Os Sete Soldados da Vitória é mais um capítulo na trajetória deste gênio contemporâneo das HQs.
Exagero? Dê uma chance a Morrison e renda-se…
Alexis comentou em 16/7/2007 às 6:33 am
Morrison não deve ser normal mesmo. Além dos Invisíveis seria uma boa se a Pixel relançasse (ou, em tempo, lançasse numa edição decente) as histórias que o figura escreveu pro Homem Animal. Só pela participação do Nowhere Man, que sofria de um desarranjo molecular crônico (!) e que para se manter inteiro usava o método cut-up de Burroughs, já valia.
Tiago Lopes comentou em 16/7/2007 às 7:22 am
Essas dicas financeiras no fim dos teus textos dão toda uma personalidade ao disruptores…
Garrit comentou em 4/3/2008 às 8:11 pm
Apenas retificando o comentário, o Nowhere Man apareceu nas histórias do Homem animal escritas por Peter Milligan, logo após a saída de Morrison…
Dyego Saraiva comentou em 2/8/2008 às 9:35 pm
muito bom o artigo, também escrevi sobre o careca e concordo plenamente com o que diz. Terminei de ler “7 soldados” há pouco, pra poder degustar melhor, e, sim, preciso ler outra vez, porque, como um bom cânone da literatura, exige do leitor, não ofende sua inteligência.
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