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Surfista Prateado, o Hamlet dos super-heróis

Por Alex de Souza - 25/12/2008

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Mesmo na grande indústria dos quadrinhos, com seus universos esquemáticos e personagens que tendem a se pasteurizar por causa de décadas de publicação ininterrupta e por passarem pelas mãos de um pelotão de roteiristas ao longo da trajetória comercial, existem aquelas criações que são como assinaturas deixadas pelos grandes gênios.

Apesar de ter criado um batalhão de personagens, Walt Disney sempre será lembrado pelo Mickey Mouse. O mesmo acontece com Maurício de Sousa e o dinossauro Horácio, que até um dia desses era o único personagem da Turma da Mônica que ele não permitia mais ninguém tocá-lo. Na indústria norte-americana de super-heróis talvez não exista aproximação tão profunda entre criador e criatura do que a do Surfista Prateado e o roteirista Stan Lee.

O personagem foi criado em 1966 pelo desenhista Jack Kirby, para aquela que ficaria conhecida entre estudiosos e fãs como a Trilogia Galactus, publicada no grande sucesso da dupla, Quarteto Fantástico, por mostrar pela primeira vez o supervilão cósmico devorador de planetas. Kirby apresentou os esboços das páginas para Lee com a presença da estranha figura careca sobre uma prancha, que não estava presente na discussão entre eles para a saga.

Kirby argumentou que uma criatura tão poderosa como Galactus deveria ter uma espécie de arauto, para explorar os planetas que seriam seu alvo. Stan Lee adotou a idéia na hora e começou a pensar como deveria se comportar e pensar aquele estranho ser. Aqui, devemos render homenagem ao talento de Kirby como desenhista. Pois a altivez que seu traço emprestou àquele personagem fez com que Lee o imaginasse como alguém dotado de um espírito muito elevado, uma alma tão nobre e altruísta que seria impossível ser humana.

E aí, já viu: nascia um dos personagens mais carismáticos da editora Marvel, mas que nunca alcançaria o status de outros títulos como Hulk, Homem-Aranha, Capitão América e o próprio Quarteto Fantástico. Apesar do apelo dos fãs, o Surfista cairia no esquecimento por dois anos, até que, em 1968, Lee finalmente teria tempo para se dedicar a uma revista solo do ex-arauto de Galactus. Na época, o legendário desenhista John Buscema havia acabado de retornar a editora e aceitou o desafio de levar para as páginas as idéias cósmicas e filosóficas de Stan Lee, que, por sinal, não aceitaria que qualquer outro desenhista ficasse responsável pela revista.

A empreitada durou 18 números hoje clássicos, que tinham uma particularidade em relação aos lançamentos regulares da Marvel até então. Enquanto as revistas de linha saíam com 32 páginas, Lee conseguiu convencer os executivos a lançarem a Silver Surfer com 64 páginas. São as seis primeiras edições dessa série, mais a edição especial Fantastic Four Annual 5, de 1967, que estão reunidas no imperdível Biblioteca Histórica Marvel – Surfista Prateado – volume 1 (edição especial encadernada, formato americano, capa dura, 268 páginas, papel couchê, R$ 62, distribuição para livrarias).

Além de desenhista bastante imaginativo, John Buscema dominava como poucos a anatomia e a fisionomia humanas e era impossível ver a imponência do seu Surfista Prateado e não visualizar mentalmente personagens trágicos e torturados pelo destino como Hamlet (ok, podem atirar a primeira pedra os intelectuais de cuecão).

Isso fica evidente logo na primeira história do volume, A Origem do Surfista Prateado, em que somo apresentados à história de Norrin Radd, habitante do planeta Zenn La que, para evitar a destruição de seu planeta pelas mãos de Galactus, se oferece para tornar-se arauto do Devorador de Planetas, abandonando sua humanidade e seu grande amor, em troca do poder de vagar pelas galáxias encontrando mundos desabitados ou atrasados o bastante para aplacar a fome de seu mestre. Ao impedir que seu mestre devore a Terra, após apiedar-se da raça humana, o Surfista é amaldiçoado a ficar preso para sempre no planeta, distante das estrelas e de Shalla Bal, sua amada.

Trágico ou não?

Pode parecer esquisito, mas minha primeira lembrança do Surfista não vem de uma revista, mas de um filme. Tenho certeza que devo ter lido algumas histórias do careca esquisitão e lamuriento na extinta Heróis da TV, que comprava nos vários sebos de quadrinhos espalhados pelo camelódromo do Alecrim. No entanto, toda vida que vejo o personagem lembro de Gigolô Americano, aquele remake de Pickpocket feito por Paul Schrader com Richard Gere todo bonitão destruindo o coração da mulherada e lendo as histórias do cara.

O charme do Surfista está justamente no fato de ele ser o outsider dos outsiders no universo dos super-heróis. Enquanto a maioria dos personagens se vê às voltas com inimigos mortais, crimes misteriosos e missões de resgate, o pobre coitado só quer voltar para casa e, enquanto isso não é possível, tentar entender o que diabos é essa criatura tão complicada chamada ser humano.

É nesse ponto que entra o talento de Stan Lee. Ele se aproveita para levantar questionamentos morais até então improváveis de se encontrar nos comics. Que outro escritor para quadrinhos seria capaz de fazer um personagem declamar um solilóquio como esse flutuando pelo espaço?

Preste atenção: “Entre os incontáveis mundos que conheci… Entre as miríades de planetas em cuja superfície pisei… Jamais conheci uma raça tão infestada de medo… Tão tomada pela desconfiança… Com tantas sementes de violência em seu coração. E eles se denominam… Humanidade. Em toda natureza, os animais se embatem… Mas apenas por alimento… Para poderem sobreviver! Só o homem mata seu semelhante em nome de inúmeras e fúteis causas. Apenas o homem é instigado pela emoção… E direcionado pelo orgulho selvagem. Mas, quem pode dizer se isto é certo ou errado? O destino deles pode ser as cinzas… Ou uma glória que nenhuma raça jamais conheceu. E o meu destino é partilhar um desses extremos… com aqueles que tanto me desprezam.”

Gênio.

Um Comentário para “Surfista Prateado, o Hamlet dos super-heróis

Pobre Surfista Prateado divagando sobre o existencialismo dos humanos. Artigo muito bom.

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