Por Alex de Souza - 06/10/2008
Em 1938, os jovens Joe Shuster e Jerry Siegel resolveram apostar no emergente mercado para ilustradores e roteiristas que se abria com a publicação de histórias em quadrinhos em jornais e nos primeiros magazines a reunirem historietas naquele novo formato. Os dois rapazes criaram então um personagem com roupas coloridas, que combatia criminosos com habilidades muito superiores as das pessoas comuns. O sucesso do personagem, batizado de Superman, daria início um dos mais lucrativos ramos da indústria cultural norte-americana – o das HQs de super-heróis.
Para comemorar os 70 anos dessa data, que coincide também com a do “nascimento” da DC Comics, gigante dos quadrinhos que cuida de personagens como Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde e Flash (entre centenas de outros), chega às bancas o volume 1 da Coleção DC 70 Anos (As Maiores Histórias do Superman, R$ 22,90, 194 páginas), uma seleção abrangendo os diferentes períodos que o Homem de Aço atravessou.
São 10 histórias que, se não são realmente as melhores, reúnem o que há de mais representativo na trajetória de um ícone dos quadrinhos norte-americanos. Vai desde a primeira história publicada em revista solo, que narra a origem do personagem, até uma ótima aventura publicada em 2001, que coloca o herói frente a um mundo que logo enfrentaria o 11 de setembro.
É interessante notar como a publicação ininterrupta de histórias do Superman ao longo de sete décadas forçou os vários roteiristas que passaram pelo título a enriquecerem o personagem, amontoando elementos a uma mitologia pop que logo se cristalizaria na lembrança de crianças e adolescentes pelos elementos fantásticos que carrega.
Em duas dessas histórias, “Os Últimos Dias de Superman” e “Confronto Entre Luthor e Superman”, somos apresentados a vários desses elementos: a cidade engarrafada de Kandor; a Supergirl; o supercão Kripto; a Legião de Super-Heróis, que o jovem Superboy conheceu após uma viagem ao século 31; a Fortaleza da Solidão, na Antártida; as relações platônicas com Lois Lane e Lana Lang; o planeta Lexor, em que Lex Luthor é herói e Superman, vilão…
Confesso que muito desse período, a chamada Era de Ouro e de Prata (dos anos 40 aos 60), só vim conhecer depois de perambular pelos sebos só de quadrinhos espalhados pelo camelódromo do Alecrim, comprando revistas antigas, lendo e revendendo logo em seguida, em companhia de meu primo Júnior. O Superman de que me lembro é o de meados dos anos 80, pré-Crise nas Infinitas Terras, mega-evento editorial que passou uma borracha em todo esse imaginário e o reformulou para buscar novos leitores.
Desse período de transição são, por exemplo, duas histórias exemplares, das quais me lembro como se tivesse lido ontem ainda. Curiosamente, só descobriria muito depois que foram escritas por Alan Moore. Em “Para o Homem que em Tudo…” e “O que Aconteceu com o Homem de Aço?” (publicadas originalmente no Brasil em Super Powers 21, em 1991 e republicadas recentemente em Grandes Clássicos DC 9), o mestre britânico mostra como aquele rico e fabuloso passado kriptoniano ainda rendia panos para manga, apesar do cinismo de Watchmen e Cavaleiro das Trevas ter redefinido o gênero alguns anos antes.
Todo esse cabedal de histórias alimentou leituras as mais diversas sobre o personagem. Não são poucos os estudiosos que apontam, por exemplo, o caráter messiânico do Superman (pode parecer viagem na maionese, mas você nem desconfia como existe maluco nesse mundo). Esse potencial é explorado de maneira original por Jim Steranko, na história “O Exílio à Beira da Eternidade”. Esse viés também pode ser visto na reformulação pós-Crise feita por John Byrne, que vieram a público na história “A Origem do Homem de Aço”. Byrne, mais uma vez, nos oferece uma leitura apocalíptica da presença kriptoniana na Terra, em ‘Retorno a Krypton’, com os traços de Mike Mignola.
Agora, a melhor leitura que se pode fazer de “As Melhores Histórias de Superman” está em notar como a passagem do tempo afetou não só o esquema narrativo das HQs, mas também seus posicionamentos frente à realidade política. Em “E Se o Superman Resolvesse Acabar com a Guerra?”, de 1940, Shuster e Siegel (ambos judeus) acabam com a Segunda Guerra muito antes de ela chegar aos EUA, mandando Superman prender Hitler e Stalin em dois tempos.
Essa presença perturbadora de alguém tão poderoso num mundo tão desigual é posta em xeque por Eliott S! Maggin, em “Precisa Haver um Superman?”, afinal eram os anos 70 e não dava mais para retirar as crianças da sala na hora do noticiário. É quando também começa a se firmar uma mensagem de esperança nos valores representados pelo personagem, apesar do ‘mundo cruel’.
Um contraponto levado ao extremo por Joe Kelly, Doug Mahnke e Lee Bermejo em “Olho por Olho?”. Nesta história, Superman se vê às voltas com a Elite, um grupo de jovens super-heróis imbuídos pela ética vacilante e frouxa de nossos dias. É impossível aos mais antenados não pensarem em publicações como The Authority, em que, para os heróis, bandido bom é bandido morto. Alguns meses depois da publicação, as torres gêmeas viriam abaixo e a pergunta do título se tornaria uma afirmação. Num mundo como esse, por que causa lutaria um Superman?
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