Por Alexandre Honório - 23/02/2008

“Planetary é sobre idéias loucas e belas”. A frase de Alan Moore é providencial para que entendamos o turbilhão de sensações que a criação de Warren Ellis e John Cassaday é capaz de despertar em qualquer fã de literatura de ficção científica e histórias em quadrinhos. Mais ainda quando decidem homenagear um dos ícones absolutos da nona arte.
Planetary/Batman – Noite na Terra, lançada em de novembro do ano passado pela Pixel Media, é um daqueles exemplos de HQs que tomam o leitor por completo; que obriga este a fazer uso de todo seu passado com algum personagem, série, história, literatura, etc. Foi esta a sensação que passou pela minha cabeça quando me deparei com a edição: um turbilhão de referências que, reconstituídas a cada quadro, atribuía novo sabor à leitura.
Para os não familiarizados com o universo de Planetary, basta dizer que Ellis e Cassaday construíram uma série na qual esta reconstrução constante é o principal ingrediente – juntamente com um sem-número de informações novas. Planetary é um organização em escala mundial; um grupo de pessoas que se definem como os “arqueólogos do impossível” que, com bases em todos os pontos do planeta, busca os segredos obscuros do Século XX.
Na edição Planetary/Batman – Noite na Terra somos apresentados a Gotham City. Não aquela Gotham City do “morcegão”, mas uma equivalente desta no Universo Wildstorm (uma das muitas realidades paralelas que integram o multiverso DC Comics).
Elijah Snow, Jakita Wagner e O Baterista chegam à cidade para investigar uma série de mortes que aparentemente vem sendo atribuídas a distúrbios na realidade – sendo recebidos pelos investigadores Dick Grayson e Jasper (Robin e o Coringa do Universo Wildstorm).
Os três procuram Jack Black: um jovem capaz de movimentar-se entre as realidades e de levar aqueles que estão próximos a ele, mesclando suas múltiplas versões. Em Planetary/Batman – Noite na Terra, Black, ao confrontar Snow, Jakita e Baterista, termina por “passear” pelas várias “encarnações” de Batman; suas prováveis e improváveis facetas.
A história não é uma das mais complexas de Planetary, é verdade, mas o uso que Ellis faz das múltiplas visões do homem-morcego torna-se um deleite. Enquanto os três perseguem John Black pelas ruas e becos de Gotham City, ele, a cada movimento, intercala as representações daquela cidade através do Universo DC.
Logo no início da perseguição, quando Black manifesta seu poder, somos apresentados a um Batman contemporâneo que logo entra em confronto com Jakita: um embate engraçado, já que ela, ao menos aparentemente, parece gostar do morcegão.
Isso dura pouco, já que em um movimento Black transmuta o personagem em sua versão televisiva da década de 60: entra em cena a “barriguda” representação do personagem por Adam West – com suas tiradas e “bat-bugigangas”.
E a aventura segue desta maneira, enveredando nas versões de Frank Miller, Neal Adams, Carmine Infantino e Bob Kane do Batman e, mais que isso: contando com a impecável técnica de John Cassaday, as recriações culminam em uma visão do artista para o personagem.
A história termina com a constatação de que Jack Black aparentemente é mais uma representação do Batman na realidade e, como este último, teve os pais assassinados. No lugar que aparentemente é o Beco do Crime, a Planetary é confrontada com as origens do Batman e de Black e suas particularidades. Batman decide entregar Black à custódia da Planetary e desaparece, retornando a sua realidade.
Talvez seja apenas coincidência, mas o mais engraçado em torno da trama é observar a referência que a HQ faz ao filme homônimo de Jim Jarmusch e sua estrutura. Uma Noite Sobre a Terra (Night on Earth, no original) intercala histórias de taxistas em diversas partes do mundo nas mais improváveis situações.
Não sei se algo da inspiração de Ellis para a aventura se deve ao longa; não sei se apenas o nome é motivo de coincidência; sei apenas que, quando falamos de Planetary, tudo é possível e Planetary/Batman – Noite na Terra é mais um exemplo do talento complexo de Ellis para criar histórias no mínimo intrigantes.
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