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Os Eternos – Sim, os Deuses eram astronautas

Por Alex de Souza - 26/02/2008

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É até estranho que tenha sido Jack Kirby o criador das teogonias cósmicas que permeiam os dois principais universos temáticos das gigantes americanas dos quadrinhos, DC e Marvel. Afinal, ele se criou debaixo da asa de Eisner e naqueles últimos anos da década de 60 havia revolucionado o mercado ao lado de Stan Lee ao popularizar os quadrinhos de heróis com personagens mais humanizados, apesar de toda a carga fantástica impressa nas histórias.

Nomes como X-Men e Quarteto Fantástico, por exemplo, com sua estrutura familiar e um perfil psicológico ligeiramente mais elaborado dos personagens, tiraram a Marvel do buraco apostando numa maior identificação com o público leitor e seu estilo jovem. Por isso, o espanto quando Kirby anunciou a ida para a arqui-rival DC e, lá, criou os Novos Deuses.

A saga de Darkseid, Pai Celestial, Órion e Sr. Milagre trazia uma briga mais antiga que a própria Terra, encenada por criaturas mais poderosas que os deuses em busca da resposta para a equação anti-vida, que carregaria consigo a chave para a existência e destruição do universo.

Eram seres tão superiores que, dentro do universo DC, por cerca de 20 anos uma história precisaria de uma justificativa muito boa, ou de um “evento cósmico” muito significativo para envolver um vilão como Darkseid.

No entanto, a série original concebida por Kirby, diferente do que ocorria com outros títulos de super-heróis, teria um começo, meio e fim. As baixas vendas impediram que os planos se concretizassem e a revista saiu de circulação deixando várias perguntas sem resposta.

eternos_01menor.jpgNo retorno para casa, a Marvel Comics, Kirby decidiu continuar apostando na criação de histórias tão grandiosas que mexiam com as estruturas da realidade. Foi assim que veio à tona a série Eternos.

Enquanto, em Novos Deuses, as coisas aconteciam numa remota região do universo, Eternos trazia a Terra para o centro do conflito e colocava a humanidade com uma das peças (ainda que aparentemente das menores) no quebra-cabeça que compunha os destinos do universo.

Para isso, ele concebeu os Celestiais, criaturas semelhantes a robôs humanóides, medindo centenas de metros. Eles lidam com energias básicas do universo e estão envolvidos em planos superiores muito além de qualquer compreensão.

Experiências realizadas pelos Celestiais com antigos ancestrais dos seres humanos deram origem aos Eternos, que rivalizavam com os Deviantes, cobaias monstruosas desses mesmos experimentos.

Os humanos ficaram com uma espécie de “bomba genética”, programada para eclodir nas futuras gerações – e aí estaria a razão de existirem tantos heróis no mundo Marvel. Quando essa bomba explodisse, os Celestiais retornariam para julgar o resultado de seu trabalho – ops.

O problema de Kirby, mais uma vez, foi a baixa vendagem. Eternos saiu de circulação sem que muitos dos seus mistérios fossem resolvidos como queria o autor. (Quer dizer, até foram, mas por Roy Thomas e Gruenwald, na revista do Thor, mas para mim não valeu.) Por isso, foi até um susto quando soube que Neil Gaiman ia retomar a série, atualizando-a em três décadas para se encaixar novamente naquele universo ficcional.

Essa é mais uma característica intrigante dos quadrinhos. Para que os personagens se mantenham os mesmos, e assim continuem atraindo o público, deve-se criar uma atmosfera narrativa de eterno presente.

Ao mesmo tempo, é preciso que haja uma série de ligeiras mudanças para manter um mínimo de verossimilhança para o leitor assíduo, que vai sempre se lembrar do que aconteceu na “vida” do personagem nas edições dos últimos anos.

eternos_02menor.jpgAssim, os Eternos precisavam mudar para serem os mesmos naquela ordem de coisas. E o escolhido para essa transição foi ninguém menos que o inglês Neil Gaiman, que mostrou ser possível construir histórias demasiado humanas com personagens que não se encaixam nessa categoria de seres.

E Gaiman faz isso muito bem, por sinal. Tudo começa com o médico Mark Curry, acostumado a plantões cansativos e intermináveis, que uma noite é procurado por um estranho, Ike Harris, dizendo algo mais ou menos assim: “Não queria atrapalhar sua vida, mas ela não existe. Você é uma criatura um pouco longe de ser humana, com cerca de meio milhão de anos de idade”.

Na trama, os Eternos foram misteriosamente “apagados” da existência e dispersos pelo planeta para viver como seres humanos. E aí está o grande apelo da série. Além de resolver numa tacada aquele hiato de 30 anos, ainda somos apresentados, de entrada, ao que, no fundo, é o grande conflito dos protagonistas: a impossibilidade de ter uma vida breve e comum e como isso angustia os Eternos.

Na verdade, apesar de sobre-humanos, os Eternos se descobrem meros joguetes dos Celestiais, agindo como autômatos quando a questão diz respeito a eles. Ao sermos apresentados à contraparte dos Eternos, os Deviantes, é que a questão se enriquece.

Os patinhos feios surgem como fundamentalistas religiosos que cultuam um Celestial, aprisionado na Terra por seus pares, e querem acordá-lo. Só que isso resultaria na destruição do planeta. E está posto mais um conflito.

A presença do Celestial Adormecido dá uma guinada mitológica nos personagens. Se, como pensados por Kirby, os Eternos são uma releitura da mitologia grega, em Gaiman, o foco é judaico-cristão.

Há um Deus adormecido, os fiéis ansiosos pela vinda do julgamento final e, para finalizar, um Messias, condenado a ser destruído em nome de sua missão. (Que eu poderia até dizer quem é, mas vai que você é tão maluco quanto eu para ler esse tipo de coisa?) Essa mudança mostra o domínio de Gaiman sobre temas arquetípicos e como ele consegue jogar esses elementos dentro do universo Marvel.

Ao final da série, uma última surpresa. Não há uma conclusão. Talvez em respeito à criação de Kirby (falecido em 1994), o roteirista preferiu deixar as coisas em aberto, como elas ficaram há 30 anos.

Que destino nos reserva o Celestial Sonhador?

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