Por Alexandre Honório - 24/12/2006

O mundo dos quadrinhos deve muito a Will Eisner; muito mesmo. Não bastasse ter feito história com The Spirit e estabelecido os parâmetros daquilo que ora definimos como “arte seqüencial”, foi o responsável pela origem do termo Graphic Novel. Livros como Um Contrato com Deus, Fagin – O Judeu ou O Edifício serviram para consolidar seu lugar na história da nona arte. No entanto, mesmo considerando a genialidade por trás de Eisner, seu livro mais recente lançado no Brasil, O Complô – A História Secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião, é chato pra caralho… bem, sua metade final pelo menos.
O Complô é um panfleto. Nada demais até aí, se encararmos outro autor de quadrinhos jornalístico-políticos, Joe Sacco. No entanto, com O Complô, com exceção à técnica de Eisner e à reconstrução histórica, o resultado torna tal documento cansativo; enfadonho, diga-se. Por momentos, principalmente ao final do livro, quando a teia em torno dos Protocolos dos Sábios do Sião chegam aos nossos dias, falta uma abordagem mais cativante – como em suas primeira páginas.
É nelas que Eisner nos diverte e sensibiliza. A reconstrução em torno da conspiração para influenciar o tzar Nicolau II e fazer com que ele acreditasse em uma conspiração judáica é impecável. Justamente nestas primeira páginas o autor consegue atingir o objetivo que apresenta no prefácio do livro. “O Complô representa um afastamento das simples histórias em quadrinhos(…). Passei minha carreira usando os quadrinhos como forma de linguagem narrativa. É meu desejo que, talvez, este trabalho fixe outro prego no caixão dessa fraude tenebrosa e vampiresca”, afirma o autor.

Os Protocolos dos Sábios do Sião tem sua matriz em um livro menor do Século XIX. O Diálogo no Inferno Entre Maquiável e Montesquieu, de Maurice Joly, foi a matriz, segundo se constataria anos depois, para a concepção dos Protocolos. O livro de Joly atacava o poder representado por Napoleão III, aproximando-o de Maquiável e suas idéias. Morto em 1878, seu livro ficara esquecido durante anos.
Em 1894, Nicolau II chegou ao poder na Rússia. Tido como inexperiente e influenciável, Nicolau tinha inimigos em alguns níveis na sociedade russa. Dois destes adversários – Gorymikine e Rachkovsky – seriam os responsáveis pela construção da farsa que terminaria com o lançamento dos Protocolos. Para tanto os dois contrataram um escritor que se tornara um especialista em forjar documentos – Mathieu Golovinski – para produzir um documento que incitasse e justificasse a perseguição aos judeus pelo tzar. O livro e seu autor conseguiram tal objetivo: nascia ali um livro que seria o documento predileto daqueles que buscavam atribuir aos judeus os males do mundo.
A primeira metade do livro de Eisner, portanto, conta, com uma riqueza e técnica impressionantes esta história. No entanto, a partir daí, O Complô torna-se cansativo e, reempregando o termo, chato. Primeiro pela tentativa insistente em apresentar e constituir um panfleto que, como o autor explica no prefácio, “colocar mais um prego no caixão dessa fraude”. O prego, no entanto, não é tão consistente.
Não é divertida a leitura de O Complô – no sentido em que tal diversão reside no prazer pleno de tal ato. É meia-boca, posso dizer. Palestina: Uma Nação Ocupada, de Sacco, como disse no início, é um álbum gráfico que, apesar de panfletário – não me entendam mal, mas, sim, ele é – mantém seu vigor até seu final. A sensação é esquisita ao terminarmos O Complô: primeiro, pois trata-se do último álbum gráfico de Eisner; segundo, porque o volume tem pouca relevância dentro da obra do autor.
Para os fãs, como eu, é indispensável. Para os demais, bem: melhor gastar seus reais em outros trabalhos do coroa.
Alexis comentou em 25/12/2006 às 8:36 am
Parece ser bem “quadrado” mesmo esse livro. Mas é como estávamos dizendo dia desses: tem certos fulanos que não precisam provar mais nada pra ninguém. Acho que Eisner foi (é) um desses.
Lex comentou em 28/12/2006 às 4:23 pm
Clapton is god.
Aristeu comentou em 3/1/2007 às 3:58 pm
Eu não li esse. Mas acho que vc ficou doido
jic comentou em 27/3/2010 às 3:55 pm
e se o livro fugiu do formato de Will pela urgência que parece ter tido em publicar?
ele -É- personagem do texto!
agora nos cabe prestigiar e pesquisar as referências que deixou
eis o texto de Joly:
http://www.gutenberg.org/etext/13187
Mainar comentou em 19/11/2011 às 8:44 pm
Rapaz,
o trabalho é muito bom!
O mais inteligente!
É uma perspectiva que faltava nos quadrinhos!
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