Por Alexandre Honório - 04/08/2009
Macanudo no espanhol portenho significa algo ou alguém excepcional, excelente, magnífico. Em tradução informal equivaleria ao nosso “classudo” ou bacana. Assim, lendo a edição de Macanudo do ilustrador argentino Liniers, lançada recentemente pela Zarabatana Books, se pode perceber que os adjetivos até aqui citados não são exagerados diante do que o leitor tem à mão com o primeiro volume. Mais: o leitor certamente passará a procurar nas prateleiras outros volumes do autor.
Recorro à última tira deste álbum de estréia de Liniers no Brasil como tentativa de síntese do que o leitor certamente perceberá com uma leitura de Macanudo: nela um coelho aparece saltitando no primeiro quadro e, como em uma seqüência de frames, no quadrinho central da tira cita Buñuel ao dizer que “o mistério é o elemento-chave de toda obra de arte” e segue seu caminho nos quadros seguintes.
Como a frase procura ilustrar, os personagens de Liniers são misteriosos, esquisitos até, mas donos de simplicidade frente à existência e investidos por um estranho brilho pop que nos toma de assalto de imediato. As criaturas e situações apresentadas em Macanudo passeiam pelo surreal, mas sempre com um olhar sobre o que cotidianamente nos faz por vezes descrer do real; faz sorrir do absurdo que por vezes reveste a realidade.
O riso resulta da improvável combinação entre o singelo e o mais completo absurdo ilustradas em suas páginas: pingüins que falam e admiram um mundo estranho habitado por criaturas igualmente estranhas; um tocador de banjo que não sabe tocar seu instrumento nem mesmo contar uma simples piada; duendes atentos às tendências da temporada; um robô que não perde o nascer do sol ou uma sessão de “O Garoto” no cinema para imediatamente cair no choro…
Os personagens de Liniers compartilham desta aparente condição: são caricaturas e representações bem-humoradas do que cada um de nós carrega de mais humano; leituras de um cartunista atento à atmosfera sensível que paira sobre uma cultura pop por vezes menosprezada em sua prevalência. Liniers interpreta isso e, não raro neste primeiro volume de Macanudo, são perceptíveis muitas destas referências tanto à cultura pop quanto ao universo dos quadrinhos.
Esse sentimento em relação aos personagens que desfilam em Macanudo não é mero acaso, já que muitas das referências artísticas de Liniers saltam aos olhos: Little Nemo, de Winsor McCay; Krazy Kat, de George Herriman; Calvin & Haroldo, de Bill Waterson; e os Peanuts, de Charles Schulz são alguns dos heróis do cartunista e a mesma matéria que transformou estes em clássicos parece visível na produção de Liniers. Estas referências se juntam a outras que se acotovelam no seio da cultura pop – quadros de Hopper, capas de discos, realismo fantástico, escritores, etc. – criando pequenos mosaicos que parecem buscar nos leitores sua razão de ser.
Macanudo, de Liniers, é “classudo” não só por suas cores, pelas referências de seu criador ou sua atmosfera nonsense, mas porque é no riso que nos toma pela mão que ele se faz presente; o riso é o sinal de reconhecimento do lugar surreal e divertido que envolvem suas criações e que, como clássicos desta arte, provocam uma identificação imediata e singular.
No fim Macanudo é, sim, “classudo” mesmo…
PS:
E antes que me esqueça, acessa o site de Liniers, o blog de Macanudo e o blog pessoal do autor. Você não vai se arrepender em conhecer um pouco mais sobre o cara…
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