Por Alex de Souza - 27/11/2008

A Pixel Magazine está devolvendo às bancas o maior fenômeno dos quadrinhos dos últimos 20 anos. Trata-se de Sandman, série regular lançada em 1988 pelo escritor britânico Neil Gaiman para a gigante DC Comics. Esta será a terceira vez que a saga de Sandman, o senhor do Reino dos Sonhos, volta às lojas e bancas de quadrinhos.
A primeira foi pelas mãos da editora Globo, que publicou as 75 edições que compõem o título, numa confusão grande entre 1989 e 1998. A segunda ainda está quente, com a Conrad, em 10 volumes encadernados, confirmando o status de cult da série. Para se ter uma idéia, o primeiro encadernado, “Prelúdios e Noturnos”, englobando nove edições da revista, foi vendido a R$ 60, teve a tiragem esgotada e chegou a ser comprado por R$ 400 no site de leilões Mercado Livre.
Agora, a série volta às bancas trazendo a versão norte-americana de Absolute Sandman, com nova colorização e uma porrada de extras, como cuidadosas notas de rodapé e textos de Gaiman falando sobre as inspirações para as histórias (Sandman – Prelúdios & Noturnos – Vol. 1, R$ 29,90, Pixel Media). O personagem catapultou Gaiman ao status de estrela pop da literatura mundial. O cara é tão badalado que Alexis Peixoto enfrentou uma quatro horas de fila durante a última Feira Literária de Paraty para trazer um mísero autógrafo para uma amiga.
Vira e mexe encontro algum amigo ou conhecido que sabe da minha tara por quadrinhos e vem comentar comigo sobre Sandman. E a frase que mais escuto é a seguinte: “Ah, Sandman para mim não é quadrinhos. É literatura – e de primeira. Já li muito quadrinhos na vida, mas nada se compara àquilo ali.” Depois, sai com um risinho bobo no rosto, todo ancho.
Bom, realmente a história de Sandman é espetacular. Mas é e sempre será ‘apenas’ quadrinhos e nada mais do que isso. O que não diminui em nada seu valor enquanto obra de arte. Porque, na verdade, essa confusão entre o que é quadrinhos e literatura, ou melhor, essa resistência em aceitar que Sandman tem qualidade justamente por ser uma história em quadrinhos é o que se esconde por trás de opiniões como aquela.
Há ainda um preconceito intelectual, que vem sendo cada vez mais combatido nos últimos anos, em relação às histórias em quadrinhos. A acusação mais comum é que se trata de um mero entretenimento infanto-juvenil. Ora, é verdade que a maioria da produção mundial do gênero tenha esse modelo, mas isso não significa que apenas isso seja produzido. Além das indústrias infantis da Disney e Maurício de Sousa, dos super-heróis americanos e dos mangás japoneses ou manhwas coreanos, há toda uma gama de temas e gêneros que são abordados pelos quadrinhos.
Do mesmo jeito que Sandman aprofundou a temática adulta no mundo dos super-heróis, depois do furacão Alan Moore, temos obras bem mais antigas que certamente não foram feitas para crianças, como boa parte do underground norte-americano dos anos 60; os romances gráficos de Will Eisner e Art Spiegelman; o jornalismo em quadrinhos de Joe Sacco; Ken Parker, o caubói politicamente correto de Berardi e Milazzo; os europeus da Métal Hurlant e por aí vai.
Seria impossível para uma obra literária aliar tantas referências ao mundo dos livros, a diferentes mitologias e, claro, a um cabedal de 70 anos de publicações em quadrinhos da DC Comics sem se tornar assustadoramente chata e incompreensível (como certamente alguns leitores devem achar o próprio Sandman). Basta, por exemplo, pôr os olhos sobre a versão do Thor que aparece numa das histórias, para se ter certeza que há ali uma paródia. Ou então, perceber a confluência de origens existente em Caim e Abel, que tanto são personagens clássicos dos quadrinhos de horror dos anos 50/60, como os protagonistas da primeira tragédia bíblica.
Mas, além de tudo isso, há uma questão puramente formal. Sandman não pode ser literatura porque simplesmente não o é. Os quadrinhos, como bem formulou Moacy Cirne, são uma narrativa gráfico-visual, impulsionada por cortes gráficos. É algo por demais específico para se confundir com uma ruma de linhas de caracteres em seqüência. Exigem portanto dois níveis de leitura: uma textual, referente aos balões, quadro ou quaisquer palavras presentes na página; e outra visual, compreendida pelas imagens que formam a unidade narrativa junto com o texto. Sem falar no corte gráfico, aquele espaço em branco existente entre um quadrinho e outro (e entre uma página ímpar e outra par), que deve ter sua ação preenchida exclusivamente pela imaginação do leitor e que possibilita que a narrativa ‘ande’.
Levando em conta esses dois aspectos, é difícil até se considerar que Sandman seja uma obra de Gaiman, como o são os livros Stardust, Lugar Nenhum, Os Filhos de Anansi ou Coisas Frágeis. Porque a autoria em quadrinhos envolve ainda os desenhistas responsáveis pela concepção visual do personagem (para quem não sabe, Sandman é, portanto, uma criação de Gaiman, Mike Dringenberg e Sam Keith).
E se levarmos mais a sério ainda a questão, teremos que levar em conta o colorista e o letrista, pois são profissionais indispensáveis para montar a história como chega às nossas mãos. São cada vez mais difíceis os casos de um artista que assina tanto texto quanto o traço numa obra em quadrinhos, como o Hellboy de Mignola, o Spirit de Eisner, o Príncipe Valente de Hal Foster.
patrício jr comentou em 9/12/2008 às 5:46 am
Caraca, Sandman é muito foda! Completei a conleção da Conrad e agora tenho consciência de que sou dono de uma pequena fortuna. Não pela cotação do Mercado Livre, claro! E qto à questão do “é literatura ou não é”, eu diria que isso vem do fato de que Gaiman produz textos primorosos, que quase ganham vida própria e rompem a barreira do “necessitar da imagem”. Talvez por isso a confusão.
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