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Heroes, HQs e toda uma mitologia em processo

Por Alexandre Honório - 01/07/2007

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Gosto de quadrinhos. Muito; um aficcionado, posso me definir assim. Lembro a primeira HQ que ganhei: uma edição da EBAL, em 1982, com a morte do Batman da Terra 2 – recentemente consegui recuperar uma edição em inglês da miserável e… Bem, não vou ficar aqui explicando o funcionamento das Infinitas Terras da DC Comics – algo bastante complexo, diga-se. O que pretendo com a introdução acima é justificar porque diabos tenho cortejado Heroes série da NBC – exibida aqui pelo Universal Channel – que tenho acompanhado.

A série teve seu último episódio exibido por aqui neste mês e, como algumas boas idéias na TV, deixa expectativa no ar quanto à próxima temporada. A meu ver, Heroes não pode ser encarada como uma série qualquer, mas uma grata homenagem às mitologias engendradas por quase setenta anos de HQs, seus heróis e, mais que isso, seus autores. Senão por eles, Heroes não deteria tanta relevância assim; não teria um terreno tão fértil por onde caminhar. Tim Kring deve agradecer a Joe Shuster e Jerry Siegel por terem, em 1938, apresentado um certo kriptoniano que inaugurou as “Eras dos Super-Heróis”…

hiro_small.jpgTalvez um dos fatores que me fizeram adorar Heroes resida no talento de Jeph Loeb – um fã ardoroso de quadrinhos e um dos seus melhores criadores (O Longo Dia das Bruxas e aventuras como Demolidor: Amarelo, Homem-Aranha: Azul e Hulk: Cinza são obras do cidadão juntamente com Tim Sale) -, sua crescente influência no meio televisivo, e nas idéias do criador da série Tim Kring. Os dois são os responsáveis pela relação amor-ódio que alguns fãs de HQs têm com a série.

A proposta em Heroes não deve muito a HQs consagradas como Watchmen, Rising Stars (que ganhou reedição e continuidade pela Panini Comics), Esquadrão Supremo, ou mesmo X-Men. Com os dois primeiros, as semelhanças demonstram-se mais descaradas; nos demais, apenas aparentemente – como o personagem Theodore Sprague. Em Heroes tudo começa quando um grupo de pessoas começa a demonstrar habilidades que antes não detinham; na verdade desenvolvem super-poderes como resultado de uma esperada evolução da espécie, mutação ou por contaminação provocada aparentemente por um eclipse.

Regeneração de tecidos, vôo, prever o futuro, alterar o tecido do tempo e espaço, telepatia, dentre outras capacidades entram na roda. Não se engane, no entanto, se a temática aparentar pieguice: pelo contrário, Heroes – assim como Lost – vicia em pouquíssimo tempo; bastam dois episódios – talvez menos – para que você não queira mais esperar até a próxima semana.

peter_petrelli_small.jpgNa trama da primeira temporada – justamente aquela que terminou recentemente -, Hiro Nakamura (Masi Oka), que tem o poder de deslocar-se no tempo-espaço, descobre que alguém será responsável pela destruição de Nova York; na verdade, um dos heróis, Peter Petrelli (Milo Ventimiglia) explodirá no centro da cidade: uma bomba nuclear humana, para ser mais claro. Quem acompanhou algumas das séries que citei acima entenderá que esta idéia – orquestrada por Linderman, um dos vilões da série – é muito parecida com aquela planejada por Adrian Veidt (o herói/vilão Ozymandias de Watchmen).

O grande trunfo de Heroes, portanto, é este diálogo permanente que a série detém com os mundos criados por Jack Kirby, Stan Lee, Bob Kane, Joe Shuster e Jerry Siegel – para ficar nos alicerces. Quando somos apresentados a Nathan Petrelli (Adrian Pasdar), o “congressista voador”, observamos um claro diálogo entre o seriado e Ex-Machina, de Brian K. Vaughan; quando surge Theodore Sprague, outro exemplo, para o leitor atualizado, somos apresentados à versão Heroes de Usina, personagem da série Poder Supremo, de J. Michael Straczynski; o clima de homenagem é tão evidente que, no episódio Unexpected, Stan Lee aparece como motorista de um ônibus.

O diálogo, como disse, é constante e exerce influencia clara no desenvolvimento da história. Por exemplo: no oitavo episódio da série, Homecoming, quando Hiro Nakamura retorna no tempo para impedir o assassinato de uma garota, ele, como um outro viajante do tempo e espaço – Dr. Manhattan, da série em quadrinhos Watchmen, criada por Alan Moore e já citada aqui -, tenta entender como se comporta o tecido do tempo e espaço.

Quando o vilão Sylar é apresentado, somos novamente reconduzidos através de citações aos personagens e eventos criados por Moore: um anti-herói e um vilão (Adrian Veidt/Mr. Linderman e Dr. Manhattan/Sylar); um conspirador doentio e ávido por estabelecer uma nova ordem; um relojoeiro que, a fim de entender o funcionamento dos mecanismos que atribuem poderes nova engrenagem, passa a “extrair” e colecionar os dons dos outros.

A pergunta, no entanto, é: esta torrente de citações é prejudicial à trama? A resposta: não. Heroes se transformou em uma das séries mais promissoras nos EUA – da mesma maneira que Lost. O diálogo com os quadrinhos, evidenciado pela série de HQs publicadas pela Aspen Comics tem alimentado e mantido a curiosidade até a nova temporada da série – que vai ao ar nos EUA em 27 de setembro deste ano.

Heroes: Origins pretende aprofundar a trama dos heróis, responder algumas perguntas que ficaram pendentes na primeira temporada e apresentar uma nova “casta” de seres super-poderosos. Não sei até que ponto esta nova temporada manterá o nível da antecessora, mas, se desta vez a inspiração vier de trabalhos de roteiristas como Garth Ennis, Warren Ellis ou Brian Michael Bendis, podemos esperar boa coisa…

8 Comentários para “Heroes, HQs e toda uma mitologia em processo

Aristeu comentou em 1/7/2007 às 8:33 am

Embora eu goste bastante de Heroes, há algo na série que me incomoda profundamente. É a estética televisiva que é aparente demais. O texto tá bem bom. Abraços.

Mas, confessa: todas aquelas referências às HQs, juntinhas, ficaram muito bem resolvidas no final.

“Homenagem” é um nome bonito que inventaram pra “cópia”, né?

foca comentou em 2/7/2007 às 2:16 pm

heroes é do caralho!

Henderson comentou em 2/7/2007 às 6:40 pm

Gostei de Heroes. Mesmo sem ser uma idéia original, muito pelo contrário,quem conhece a história dos Novos Mutantes, antigo grupo originado dos Xmen, percebe muita semelhança. Talvez aí esteja o segredo, uma bom argumento com uma roupagem nova. De qualquer forma, vida longa aos heróis.

sou mais aquela novela nacional, “corações num sei o que” huahauha

Carlos comentou em 20/6/2008 às 9:07 am

Alexandre, você pode me dizer em qual número de Watchmen o Dr. Manhattan tenta explicar o Espaço/Tempo?
Obrigado

Não seria bem “explicar”, mas Alan Moore utiliza alguns conceitos físicos e cria uma história na qual brinca com alguns conceitos acerca do tempo, espaço e sua maleabilidade…
A edição que traz esta história é a quarta da série…
Falô.

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