Por Alex de Souza - 08/09/2007

O problema com as multinacionais é que elas só sabem falar uma língua: a da grana. Por isso, desde que a Panini assumiu as edições da Marvel e da DC (principais editoras de comics, os quadrinhos americanos de super-heróis) o desrespeito grassa com os compradores do Nordeste. Em nome de uma tal distribuição setorizada, os títulos mais interessantes das duas gigantes do ramo (justamente aqueles que fogem ao estereótipo do gênero) demoram horrores para chegar por aqui, quando chegam.
Uma dessas boas publicações é a terceira encadernação de Gotham City Contra o Crime (DC Especial nº 13, R$ 16,90), que desembarcou nas bancas na última semana, mesmo tendo sido publicada em março (!) deste ano.
Co-escrita pela dupla Ed Brubaker e Greg Rucka, a revista traz o dia-a-dia do Departamento de Polícia da cidade mais esquisita do mundo. Mais especificamente, da Unidade de Crimes Hediondos, responsável pela investigação de crimes que, invariavelmente, envolvem uma plêiade de maníacos espalhafatosamente fantasiados, combatida por você-sabe-quem.
Pode parecer contraditório, mas nenhuma cidade fictícia das HQs é tão real quanto Gotham City. Aliás, nem as cidades de verdade conseguem ter suas auras tão fielmente retratadas pelos roteiristas como Gotham. Ela é um personagem até mais poderoso que o próprio Batman, para o qual deveria servir apenas de fundo.
Em GCCC, esse foco é ampliado para a população da cidade e aqueles responsáveis em protegê-la, mas que se mostram incapazes de participar de um jogo para o qual não foram convidados.
Num clima que lembra seriados televisivos como CSI e Nova York Contra o Crime (dãããã!), somos apresentados a policiais angustiados por não conseguirem ser úteis como deveriam, ofuscados pela presença de uma criatura encapuzada quase sobre-humana, e impotentes frente a psicopatas do quilate do Coringa e Duas-Caras.
Ao apostar na humanização dos personagens, uma tendência narrativa dos comics desde os anos 80, em obras seminais como Watchmen e Cavaleiro das Trevas, Rucka-Brubaker mostram que o horror de Gotham é real demais para ser verdadeiro.
Tádzio comentou em 11/9/2007 às 7:23 am
Interessou! Valeu pela dica, Garrafa, vou procurar.
françois comentou em 12/9/2007 às 7:11 am
Boa resenha, Lex. E eu li todos os volumes e são muito bons, inclusive mais um que está por sair por aí ainda.
acho que o ponto forte desta série foi um arco do segundo volume, discutindo a homossexualidade da Detetive Montoya tendo como cenário a obsessão do Duas Caras pela garota.
outro muito bom foi o arco com o coringa, no volume 3, a gente realmente começa a entender porque esse cara é tão perigoso e imprevisível. Os pobres policiais ficam feito baratas tontas, brigando uns com os outros e metendo os pés pelas mãos com as manipulações do vilão.
é uma série realmente muito bem feita, narrativa policial que não tem que ter selo do código de ética nem servir à Crise da vez. Até a arte lembra o mazzucheli de “Batman: Ano Um” e “A Queda de Murdock”.
Só faço uma defesa em relação ao título original da série. “Gotham City Contra o Crime.” é o título oportunista que a pannini deu pra série, tentanto pegar carona com o diálogo assumido da mesma com essa mídia do enlatado policial. O título original é mais sóbrio e diz a que veio: “Gotham City Police Department”. Curto e grosso, dá a premissa da série, o que passam os policiais que estão nos bastidores das histórias de um vigilante controverso e centralizador.
Lex comentou em 19/9/2007 às 6:00 am
Francis, tambem tenho os outros encadernados da série e o meu preferido é o do Coringa, o tipo do psicopata capaz de fazer mijar na cama o mais valente dos marmanjos. Essa tendência de arte nos quadrinhos, com referências diretas ao trabalho do mazuchelli (por sinal, por onde andará?), tem revelado bons desenhistas, como o Alex Maleev (em demolidor) o doidinho de Alias (que eu esqueci o nome) e o clark (é assim mesmo o nome?) de Ex-Machina.
Pena que a série foi cancelada, por ser bem escrita demais para os padrões do mercado de heróis.
PS.: Adorei a kriptonita vermelha, me fez desenvolver poderes estranhos e pêlos em lugares esquisitos.
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