Por Alexandre Honório - 14/08/2009
Concluída a leitura de Homens do Amanhã, de Gerard Jones, a impressão que fica é que, surgida aos trancos e barrancos, fundada sobre um amálgama confuso de geeks, pornógrafos e gangsters, as histórias dos bastidores da indústria dos quadrinhos rivalizam àquelas que embalam as criações desta mesma e imperfeita indústria. O livro de Jones é, sobretudo, uma grande reportagem sobre os heróis dos bastidores: mais que uma história do surgimento dos quadrinhos, Homens do Amanhã é uma chance para compreendermos as artimanhas, dilemas e visões dos criadores de uma indústria e gênios por detrás de uma mídia emblemática. Jones entrega ao leitor um dossiê elaborado sobre personagens estranhos, complexos e cativantes que perceberam os humores de seu tempo, testaram formatos e terminaram por preparar o terreno de uma cultura que movimenta, ainda hoje, milhões em dinheiro e fãs.
Se o ponto de partida é a história de Jerry Siegel e Joe Shuster, criadores do Superman e responsáveis por muito desta mesma indústria, é porque este foi o momento de ruptura; o divisor de águas, como o próprio Jones percebe ao afirmar que a partir daquele ponto – do surgimento de um personagem vestindo malha azul – tudo mudaria. E Homens do Amanhã procura dar conta de muitas destas mudanças que terminariam por redefinir a vida de alguns e arruinar a vida de outros.
O melhor do livro de Gerard Jones é a perspectiva que ele adota: narra os bastidores e atores envolvidos no surgimento da Indústria dos Quadrinhos, mostra o momento em que esta mesma indústria ganhou força impressionante, delineia os conflitos vividos por seus personagens, mostra sua derrocada e como esta conseguiu reerguer-se uma vez mais para consolidar seu lugar – a construção/desconstrução da Marvel de Stan Lee e Jack Kirby, o surgimento do Homem-Aranha de Steve Ditko e a explosão criativa dos primeiros anos da empresa são marcos desse novo momento dos quadrinhos.
Jones demonstra que tanto a indústria quanto seus criadores impregnaram seus heróis com muitos dos mesmos conflitos que os circundavam: Jerry Siegel com um personagem estranho ao mundo que adota como lar; Stan Lee com um herói adolescente que descobre cedo que poder também implica responsabilidade; Jack Kirby com um sem-número de criações imperfeitas e brilhantes.
Homens do Amanhã faz jus também àqueles que, mesmo tendo papel importante no surgimento dos heróis desta indústria, souberam tirar proveito do que dali surgira. Jack Liebowitz e Harry Donenfeld, mesmo figurando como algozes de Siegel e Shuster, foram dois dos principais responsáveis por transformar uma cultura dos guetos nova-iorquinos na mais cristalina expressão da cultura de um século e despontam no livro como envolvidos por uma aura ao mesmo tempo canalha e visionária.
Os dois últimos capítulos do livro são especialmente emocionantes, uma vez que neles podemos perceber a força de uma cultura e daqueles que nela se desenvolveram: foram os fãs, milhares de jovens que cresceram lendo quadrinhos, envolvidos por seus autores favoritos e pelas histórias que eles contavam (e que mais tarde se envolveram com esta mesma cultura), que terminaram por conduzir Jerry Siegel e Joe Shuster ao reconhecimento tardio. Contrariando alguns, não vejo Homens do Amanhã como a história de uma cultura geek, mas a história de heróis de carne e osso que deixaram a história do Século XX uma marca indelével e uma noção de cultura que tem ultrapassado gerações e gerações.
Homens do Amanhã é um livro sobre jovens visionários que perceberam antes os limites de uma cultura possível e decidiram romper com ela, desafiá-la e que terminaram por expandir suas fronteiras. Siegel, Shuster, Kirby, Liebowitz, Harvey, Eisner, Donenfeld, Lee, Cole e tantos outros deram seus sonhos, heróis e vilões para nos mostrar o futuro e Homens do Amanhã me parece indispensável para os que esperam compreender algumas das fundações de uma subcultura complexa que irrompeu com o século passado e que ecoará de modo ensurdecedor durante muito tempo.
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