Por Alexandre Honório - 14/11/2006

Não leio muito quadrinhos europeus – ou banda desenhada, como costuma-se chamar o gênero por lá. Li pouco; alguns trabalho de Manara; outros de Crepax; mais alguns de Moebius (o Incal entre estes) e foi isso. Costumava, lá na adolescência, ler alguns fumetti de Tex e Zagor. Nada muito distinto. Lia também Ken Parker, mas achava poético demais pra minha cabeça. O Western europeu – tirando aquele dos filmes de Sérgio Leone – me parecia hermético demais.
Daí, uma década e alguns anos depois, encontro com Blueberry nas bancas. Sempre gostei da arte de Moebius – ou Jean Giraud, se preferir – e decidi embarcar na aventuras do Tenente Blueberry e a releitura de Giraud para os eventos de Ok Corral!, na cidade de Tombstone. Expulso da cavalaria americana, Blueberry vaga pelo Oeste americano envolto em aventuras envolventes, conflitos com índios e os mais variados vilões, romance e tudo que se apresenta neste ambiente insólito. Blueberry nos conduz pelo seu mundo e sua visão deste.
As aventuras do tenente são o pano de fundo para o desfile da arte de Moebius. Tudo em Blueberry é grandioso. Os planos, a linguagem, a reconstituição de época. O personagem fora criado em 1963 para a revista francesa Pilote. Na Europa, Blueberry é considerado um clássico do gênero, com vários volumes lançados. No Brasil, as aventuras do “Nariz Quebrado” amigo dos apaches nunca emplacou.

Nas décadas de 70 e 80, as aventuras de Blueberry chegaram a ser lançadas. Por duas vezes fracassaram as tentativas. A Editora Abril, em meados da década de 80, quando iniciava seu investimento no segmento de quadrinhos adultos – com o selo Epic/Marvel – ainda tentou emplacar a publicação. Como Dreadstar e outros personagens da linha, Blueberry também naufragou.O problema não estava relacionado às aventuras em si: Blueberry é cativante e seu autor, Moebius, é dono de técnica genial. A questão envolvida dizia respeito ao mercado; à maneira como o mercado de quadrinhos se comportava.
As publicações, de uma maneira geral, oscilavam diante de um público com baixo poder aquisitivo, mas com curiosidade tremenda – daí o sucesso improvável de séries, poucos anos depois, como Sandman e Hellblazer.Faltava solidificar o gênero. No final da década de 90 e início deste século, o segmento ganhou força. Foi com tais olhos que a Panini decidiu investir nos quadrinhos europeus. Claro, a Panini somente apostou no gênero depois que editoras como Ediouro e Conrad abriram caminho. A aposta no selo francês Dargaud foi acertada. E o lançamento de Blueberry providencial.
A série, como disse, é aclamada na Europa e entre os colecionadores do gênero por aqui. Podemos dizer que Blueberry foi o laboratório através do qual Jean “Moebius” Giraud desenvolvera sua técnica. A revista Pilote apostou na arte de Moebius e viu esta crescer – acompanhando as primeiras edições de Blueberry é possível observar a própria evolução do personagem, do argumento que envolve suas aventuras e o traço de seu criador. A maneira como a técnica de Giraud se apresenta, por exemplo, em O Incal – as texturas, planos e composição -, nos remete diretamente a Blueberry. Planos amplos, desenvolvimento psico-social dos personagens, discussão de temas complexos e a costura de todos estes elementos em uma narrativa envolvente impressiona.
É cedo para afirmar se a saga de Blueberry desta vez conseguirá produzir frutos por aqui. No entanto, mesmo com a dúvida, fico satisfeito de ter sido apresentado a outro bom momento da arte sequêncial.
Alexis comentou em 16/11/2006 às 7:28 am
Cara, quadrinho europeu é o que há. Corto Maltese, Asterix, Tin-Tin, Burt & Cyb, Crepax, a veterana Metal Hurlánt e a Heavy Metal, sua filha legítima; as séries da Bonelli (Dylan Dog, Ken Parker, Tex e Nick Raider, em especial) são, na falta de um termo mais abrangente, duca. Sem falar n’ A Garagem Hermética, do próprio Moebius. De Manara, confesso, não gosto muito. Apesar do cara ser infinatemente melhor do que o fulano que faz a Druuna (essa sim, uma bosta sem tamanho), acaba sendo enquadrado na mesma linha de chatice: é muita putaria pra pouca (ou quase nenhuma) história.
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