Por Tiago Lopes - 07/06/2007

A imagem que ilustra a capa do mais recente disco do Wilco diz muito sobre o que você irá ouvir: um bando de pássaros cobre quase que completamente a área da imagem, que mostra, no pouco espaço restante, uma única e solitária ave. O preto dos pássaros sobre o fundo branco refuta o significado imediato do título do disco, Sky Blue Sky, para deixar claro que o blue será uma sensação que irá lhe acompanhar, variando de intensidade, durante toda a audição do disco.
Abandonando toda a parafernália eletrônica que ajudou a fazer dois dos mais incensados discos da década – Yankee Hotel Foxtrot e A Ghost is Born – o Wilco fez o seu trabalho mais acessível até então, retomando a sonoridade folk rock de seus primeiros discos, calcada em Dylan, Neil Young e o que de melhor o gênero produziu no fim dos anos 60, para falar de maneira direta sobre situações-limite em um relacionamento. Quase todas as músicas soam como se um homem confessasse para sua mulher tudo o que está sentindo no exato momento em que está sendo abandonado por ela.
“Either Way”, faixa de abertura, começa com um violão que lembra Blowin’ in the Wind para questionar a validade de uma relação, com Jeff Tweedy cantando “maybe you still love me/ maybe you don’t” e outras dúvidas recorrentes nesse tipo de situação. Em “Impossible Germany”, o Wilco mostra como surpreender sem experimentar, com uma canção de seis minutos que, em sua primeira metade, fala de isolamento para, na seqüência, engatar um “solo” de três guitarras que criam uma melodia tão suave que faz você desejar ouvi-la por todos os 40 minutos restantes do disco, enquanto pensa que raios esse “impossible germany/unlikely japan” significa.
“Sky Blue Sky”, faixa-título do disco que detém os versos mais cheios de autopiedade que Jeff Tweedy já criou (Oh, I didn’t die/I should be satisfied/I survived/That’s good enough for now) desce macia e desanima como nenhuma outra. “Side With Seeds” e “Shake It Off” são as únicas músicas do disco que se permitem quebras na melodia, mas nada muito fora do comum, apenas um longo solo de guitarra no meio da primeira e um inesperado momento Television na segunda.
A outra metade do álbum possui uma seqüência de músicas que falam, em detalhes, como lhe dar com o fim de um relacionamento e o que fazer para buscar a reconciliação. É aí que Jeff Tweedy mais se expõe e, quanto mais ele se entrega, mais fácil se cria uma empatia com o que está sendo cantado. Então se prepare para ouvir: um pedido de desculpas um tanto calhorda (It doesn’t mean that I don’t care/ It means I’m partially there) em “Please Be Patient With Me”; tentativas frustradas de se manter ocupado para esquecer que ela se foi (Hate it Here); autodepreciação em “Leave Me (Like You Found Me)”, que já diz a que veio em seu título; e reconhecimento do erro em “Walken”, que justifica em seu refrão (honey I think you’re just right) porque é a música mais feliz do disco. Antes de “On and On and On” dizer “you and I will try to make it better” e finalizar essa D.R. de maneira melancólica, mas esperançosa, a banda entrega a dispensável “What Light”, música de auto-ajuda que mostra o quão cafona o country pode ser.
O Wilco mostrou em trabalhos anteriores que é uma banda que atinge o seu melhor quando está sendo testada por algum tipo de tensão entre seus integrantes: Yankee Hotel Foxtrot foi gravado em meio a uma briga de egos provocada por Jay Bennett, que saiu da banda alegando não receber crédito o suficiente por sua participação nas composições e, quando a banda compunha A Ghost is Born, Jeff Tweedy lutava contra a depressão e tentava se livrar do vício em álcool e analgésicos se internando em clínicas de reabilitação. A limitação sonora de Sky Blue Sky faz pensar que a banda alcançou seu ápice criativo nesses dois discos anteriores, mas ainda é cedo para achar que o Wilco se acomodou e começar a desejar que alguma tragédia aconteça com Jeff Tweedy, para fazer com que ele volte à atmosfera que ele mesmo criou. Ainda…
Ludymylla comentou em 8/6/2007 às 9:03 am
“A limitação sonora de Sky Blue Sky faz pensar que a banda alcançou seu ápice criativo nesses dois discos anteriores”
arghhhhh, poupe-me ¬¬
Sky Blue Sky é o melhor do wilco.
Davi G. comentou em 9/6/2007 às 8:16 am
Bom texto, Harry! Confesso que nunca dei a devida atenção ao Wilco. Talvez seja a hora.
Abraços!
P.S: Que ranço esse da LudYmYlla, hein?
João Madrid comentou em 9/6/2007 às 8:09 pm
também devo concordar que o disco é mais fraco que os anteriores, porém acredito que é a proposta, eu achei um disco muito bonito que deve ser analisado e escutado sem esperar o mesmo wilco dos outros discos.
Alexis comentou em 10/6/2007 às 7:26 am
É um discão, sem dúvida. Mas o A Ghost Is Born ainda é a obra-prima dos caras, definitivo. E espero muito que eles não tenham chegado ao ápice criativo ainda.
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