Musicofilia

The Good, The Bad & The Queen é chute nas cinzas do Blur

Por Alexandre Honório - 22/01/2007

Para muitos fãs do Blur, Parklife (1994) não tem rival. Mesmo os álbuns que vieram depois não conseguiriam rivalizar com ele. Alguns discordam; acreditam que discos como The Great Escape (1995) e Blur (1997) superam e muito o terceiro dicos da banda. Acredito também, como alguns, que Damon Albarn é o gênio louco por trás da banda; aquele que, como Brian Wilson e Syd Barrett, impôs suas idéias e retirou uma sonoridade particular.

Uma prova disso pode ser encontrada nos dois “últimos” discos do Blur – 13 (1999) e Think Tank (2003) – e no projeto Gorillaz. Neste último, as experimentações e parcerias de Albarn produziram resultados verdadeiramente interessantes – especialmente em seu último trabalho à frente do “projeto dos macaquinhos”: Demon Days (2005). Rumores afirmam que o Blur como um dia conhecemos – com Graham Coxon nas guitarras – periga voltar; talvez isto aconteça até, mas, para Albarn, a música ainda reserva boas surpresas.

Capa deThe Good, The Bad & The Queen, álbum do grupo homônimo liderado por Damon Albarn, lançado esta semana no Reino Unido

Partindo deste princípio, somos apresentados à “menina dos olhos da vez” do cidadão: o projeto The Good, The Bad & The Queen. É justamente com tal projeto que somos reconduzidos aos bons sons by Damon Albarn. É difícil dizer o que o ano de 2007 poderá reservar musicalmente, mas, sem o menor medo de exagerar na dose, o álbum homônimo do grupo – com os novos parceiros Paul Simonon (baixo, The Clash), Simon Tong (guitarras, The Verve) e Tony Allen (percussão, Fela Kuti) – figurará entre os discos indispensáveis deste ano. Um semanário inglês, quando do lançamento em outubro de Herculean chegou a questionar se não existiria um límite para o talento de Albarn. Bem, pelo que ouvi neste disco, a resposta é simplesmente não…

History Song, canção que abre o disco, é emblemática. Com uma levada que nos remete a elementos de música africana (influencia clara do baterista Tony Allen), a canção fustiga nossos ouvidos com sua atmosfera entorpecida. Posso afirmar com segurança que, depois da segunda audição, dificilmente passa-se mais do que dez minutos sem assobiá-la ou entoá-la. Uma faixa de abertura impecável, sem exageros. É difícil não conduzir nossa memória até The Universal – canção de The Great Escape – ou mesmo Feel Good Inc., do ainda recente Demon Days. Uma canção pop singular…

Somos conduzidos então até ’80′s Life… Não sei porque motivo, mas esta canção me tomou de assalto. Imagine um encontro: Blur, Phil Spector, Brian Wilson, um estúdio vazio e tudo à disposição do trio para que juntos pudessem conceber – ou senão chegar perto – da melhor expressão para uma canção pop. ’80′s Life nos remete a alguma jam-session sessentista; a um piano surrado; vocais susurrados e envoltos por uma harmonia pop contagiante… ’80′s Life é perfeita para embalar sonhos. “Call it living in this country/Calling it missing dawn patrol/It’s eighties life/And it’s all gone right on you“, manda Albarn embalando seus “sonhos”. Impecável e desde já minha canção de dormir favorita…

Em algumas publicações Simonon chegou a declarar que a banda se reunira porque seus membros detinham muitos livros afins em suas respectivas coleções. Bem, se Moby Dick de Melville for um desses poderíamos ter aí a inspiração para Northern Whale – embora Albarn tenha dito que uma baleia que se aventurara pelo Tâmisa. Nada mais britânico em uma canção excepcional. “In a tide end town/Everyone hallucinating on you/But a northern whale/Wouldn’t leave until all England’s tears are done“, canta Albarn as desventuras de uma baleia perdida diante da gradiosidade londrina.

A melhor canção, no entanto, neste álbum com doze canções soturnas, belas e inebriantes, é Kingdom of Doom. A atmosfera que nos envolve na primeira audição parece ter saído de alguma trilha de Ennio Morricone para algum filme de Leone; alguma canção perdida do Sgt. Peppers & Lonely Hearts Club Band; algum poema revolvido na lama de Poe. A canção começa com um o relato do que seria uma noite neste “reino” (“There’s a noise in the sky/Following all the rules/And not knowing why“) e emenda “And when the sunset wheel begins/Turning into the night/I see everything in black and white/And then…“.

A produção deste primeiro álbum ficou a cargo do ora elogiadíssimo Danger Mouse (uma das cabeças em torno do Gnarls Barkley e responsável pelo cultuado The Grey Album). Mouse havia produzido, junto com Albarn, o segundo álbum dos Gorillaz, Demon Days. Não pretendo me alongar. Como disse no ínicio, creio que a música recente nos apresenta Damon Albarn como um de seus gênios loucos. Sua capacidade em renovar-se, transmutar sua sonoridade e dar um passo além demonstra que seu talento ainda não encontrou límites. The Good, The Bad & The Queen é uma boa amostra dessa natureza; de como renovar sua arte não é algo distante.

Não somente reapresentar algo, mas renová-lo. Albarn tem seguido tal regra e retirado bons frutos disso…

4 Comentários para “The Good, The Bad & The Queen é chute nas cinzas do Blur

Tiago Lopes comentou em 22/1/2007 às 9:36 am

Depois desse disco, não há mais sentido em esperar pela volta do Graham Coxon ao Blur. Vai continuar lançado uns discos sem graça enquanto o Damon desiste de dizer por aí o “quanto gostaria de retomar a parceria com o Graham” e volta a fazer música boa. De verdade, porque o Gorillaz é uma brincadeira que deu certo demais.

Uma das melhores surpresas desse ano que começa. É impressionante a capacidade de Damon Albarn reinventar-se a cada novo projeto. Seria o David Bowie de sua geração?

The Good, The bad and The Queen é viciante, por aqui já não para mais de tocar.

Aristeu comentou em 22/1/2007 às 11:09 am

ó caro editor, fiquei encucado aqui: você realmente confia tanto assim na Wikipedia? Os links não poderia ir para artigos ou sites oficiais? Só uma sugestão, já que não é possível confiar nos dados de uma enciclopédia feita por nerds.

Alexis comentou em 22/1/2007 às 3:47 pm

Não acho que o Damon Albarn seja o “gênio” por trás do Blur. Aliás, nem gosto tanto assim de Blur. 13 é um disco chato pacas, com três canções realmente boas (Coffe & Tv, Tender e There’s no distance…), e outras 10 sacais.Think Thank tb fica por aí. E o Gorillaz então, é o nível mais elevado de chatice que Albarn alcançou. Concordo com Tiago: todo mundo sabe o quanto uma piada repetida à exaustão perde a graça. Mas ele afinal fez coisas boas. Vale dar uma ouvida no projeto novo da criatura.

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