Musicofilia

The Eternal marca retorno do Sonic Youth à independência

Por Alexandre Honório - 24/06/2009

Identidade, a meu ver, especialmente quando relacionada à música, diz respeito às marcas que um determinado artista detém e que são construídas e impressas não apenas sobre sua sonoridade, mas, mais ainda, sobre suas convicções. O Sonic Youth foi uma das bandas que ainda na primeira metade da década de 1980 perceberam que a assinatura de contrato com uma grande gravadora – no tempo em que isso realmente importava – não significava abrir mão de suas convicções artísticas ou políticas.

Bem, pelo menos enquanto estas mesmas gravadoras não sentissem a mudança dos tempos bafejando em suas nucas e os lucros despencassem velozmente. Como resultado disso, mesmo não abrindo mão de sua natureza experimental, o Sonic Youth também sentiu que as pressões sobre o grupo aumentariam – especialmente por algo mais palatável musicalmente ou mercadologicamente falando.

Rather Ripped, de 2007, foi, apesar de inspirado e dono de relativo sucesso entre público e crítica, resultado destas pressões e, de certa maneira, um indicador de que o retorno à independência poderia representar uma nova guinada para a banda; um retorno às raízes buscando elucidar o que se dera até ali…

theeternal_menorNeste Ano do Senhor de 2009, portanto, com um contrato com a Matador Records, o Sonic Youth lançou seu mais recente trabalho: The Eternal. O álbum pode parecer uma conseqüência do antecessor e já citado Rather Ripped, mas o ultrapassa por possuir uma identidade vívida que, mantendo aquela tênue linha entre o pop e o experimental característico da banda, demarca uma transição que poderia ser percebida igualmente de modo tênue; um retorno aos humores independentes que caracterizaram os primeiros trabalhos da banda, quando foram “abraçados” pela Geffen Records, ainda quando a banda se deliciava em sua espiral de experimentações.

The Eternal é um álbum de canções inexplicavelmente pegajosas e, ao mesmo tempo, complexas – uma vez que a sonoridade que o reveste é o mesmo mural de experimentações do Sonic Youth. O mesmo mural, é verdade, mas uma coloração um tanto diferente. “What We Know”, primeira música de trabalho do novo disco, é uma prova de que o grupo mantém um diálogo com seus trabalhos anteriores.

“What We Know” é uma canção que poderia facilmente figurar entre as mais inspiradas da banda porque transita entre o pop assobiável e a coda experimental do grupo naturalmente. The Eternal aparenta lidar exatamente com essa passagem entre os limites estabelecidos pelo Sonic Youth em sua construção musical. Há uma simplicidade melódica em faixas como “Sacred Trickster” e “Poison Arrow” que explica muito das escolhas da banda. Uma simplicidade que se reproduz inclusive na capa do disco e que transforma The Eternal, mesmo com seus altos e baixos, em um dos bons álbuns de 2009.

Para uma banda com um rol de álbuns de regularidade oscilante, The Eternal detém ainda aquele ar de recomeço transformador. A volta à independência, mesmo quando tal volta representa uma mera formalidade – uma vez que o Sonic Youth nunca abrira mão de sua sonoridade em detrimento dos “humores” transformadores do mercado musical e, ainda, aprendeu a explorar as possibilidades de divulgação e comunicação com seu público graças à Internet. Para os fãs, The Eternal é uma declaração de princípios; um divisor aparentemente banal, mas necessário para o estabelecimento de um novo começo agora mais independente que nunca.

No fim, The Eternal parece um novo acordo do Sonic Youth com sua própria música.

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