Musicofilia

Radiohead: Uma Revolução por Década

Por Tiago Lopes - 14/11/2007


In Rainbows é o resultado de uma “linha editorial” que o Radiohead vem seguindo desde o Hail To The Thief: dosar igualmente as estripulias eletrônicas usadas quase que unicamente no Kid A e no Amnesiac, com as melodias orgânicas que preenchiam grande parte dos discos da 1ª fase da banda.

No Hail To The Thief, lançado em 2003, esse equilíbrio resultou num ótimo disco, onde a banda explorou o lado mais barulhento e experimental de suas distintas fases para criar algo que deveria ter recebido atenção equivalente à dada ao O.K. Computer (o problema foi só de timing, já que há 4 anos atrás nada importava além da procura pela “the next big thing”).

Já o In Rainbows é composto dos momentos mais cadenciados e minimalistas do Radiohead para ser o mais conciso disco da banda. E como os hypes de 4 anos atrás estão tão esquecidos quanto os bbb’s dessa época, talvez esse seja o único disco do Radiohead que consiga tanta atenção quanto o clássico lançado por eles há pouco mais de 10 anos. Mas nem tanto pela possível inovação estética que possa trazer para o mundo da música. É sim uma obra singular (se comparada com o que a banda já fez), mas por ser de uma simplicidade nunca ouvida anteriormente nos discos do Radiohead.

As músicas mais movimentadas, com guitarras em evidência, não possuem a força de uma “2+2=5” ou “Electioneering”, mas são tão eficientes quanto esses dois petardos. “Jigsaw Falling Into Places”, “Bodysnatchers” e “15 Steps” são as três mais notáveis nesse quesito. A primeira começa com um dedilhado de violão e uma discreta bateria, que servem de abertura a um gemido que irá ecoar insistentemente, enquanto novos elementos vão sendo acrescentados (guitarra em crescente volume, os up and downs da voz de Thom York), fazendo dessa a melhor canção do disco. A segunda mostra como a banda ainda sabe fazer algum estrago usando um baixo distorcido e gritos desesperados, e ainda agrada instantaneamente aos ouvintes mais impacientes. “15 Steps” é a faixa que abre o disco e já começa como mais uma daquelas… coisas, sem consistência e, por vezes, irritante de se ouvir, que Thom York criou no seu disco solo. Mas, do meio desse vazio, surge uma melodia tão fácil e prazerosa de se ouvir, que dá até pra desejar um The Eraser 2 sem medo de ser feliz.

Os momentos sombrios e desesperados sempre presentes nos discos do Radiohead também ficaram menos apocalípticos, já que Thom York não os usa para espinafrar políticos megalômanos ou falar da mecanização-do-homem-no-mundo-moderno. Dessa vez, só tratam dele e de outra pessoa, sendo esta, geralmente, a causa de tanto lamento. “All I Need” e “House of Cards” são as que provocam menos empatia, por serem tão imutáveis e insistirem nessa condição até o fim (ao menos a primeira chega ao final com um piano sendo martelado a la “We Suck Young Blood” e se salva do completo tédio, o que não acontece com “House of Cards”, que estica sua chatice por longos 5:30s). Já “Faust Arp” lembra uma “True Love Waits” bem melhorada, só voz, viola e violino compondo a música mais vendável do disco.

Mas as melhores canções para trazer à tona aquele Paranoid Android feeling (o personagem, não a música) são “Weird Fishes/Arpeggi” e “Videotape”, principalmente essa última, que encerra o disco e deixa seu piano e suas batidas secas ecoando por um bom tempo até que o ouvinte se sinta obrigado a reiniciá-la.

Vendendo o Weird Fish

Se a qualidade desse disco for questionada em longo prazo, a maneira como foi vendido já o torna um marco da indústria fonográfica: o cliente encomendou o download de In Rainbows e pagou o quanto quis, inclusive nada. Muitos se adiantaram até a própria banda decretando que, com essa maneira de distribuição, o disco já era, adeus arte da capa, adeus encarte, ficha técnica e agradecimentos a mamãe e a papai, nunca mais! Se esquecendo de que a própria banda também disponibilizou para encomenda não só o cd físico, mais também a obra em vinil, e mais oito novas músicas que virão num segundo disco e num segundo vinil. Isso não é, nem de longe, uma tentativa de acabar com a obra física, mas sim de provar que há espaço no mercado e público consumidor para todos os suportes de música.

Não vejo como uma indústria que ainda consegue vender mais de 400.000 cópias em uma semana de um disco de banda estreante esteja mal das pernas. Está mal é da cabeça, por não saber como administrar e transformar as novas tecnologias em ganhos extras, sem ter que acabar com os velhos formatos ainda lucrativos. Estima-se que, só de downloads pagos pelo In Rainbows, o Radiohead tenha embolsado 4,8 milhões de libras, com custo quase nulo de divulgação e de manutenção e criação da página www.inrainbows.com. Quando o número de encomendas da caixa especial de In Rainbows for divulgado (e sem dúvida nenhuma de que será bem expressivo), essa maneira de comercializar música será copiada exaustivamente por bandas que acham, como o Radiohead, que seu público faz questão de possuir um álbum transportando suas músicas, com todas as informações de quem produziu, quem tocou o quê, quem mereceu um agradecimento, enfim, quem acha que a música que se ouve precisa de uma identidade e não se resume só na quantidade de espaço que ocupa num HD ou no tempo que é comentada pela NME.

Um Comentário para “Radiohead: Uma Revolução por Década

Gian comentou em 15/5/2008 às 3:21 pm

Com todo respeito, caro crítico musical:
“House Of Cards” chata? É a melhor faixa do álbum inteiro.

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