Por Alexandre Honório - 05/06/2009

Préliminaries é um Rain Dogs ruim. Deixe-me dizê-lo de outra forma: Iggy Pop em seu novo disco, um álbum dedicado aos sons, digamos, complexos, emula aquilo que Tom Waits, com sua voz embargada, faz há mais de três décadas. Venho acompanhando as notícias sobre a concepção e parto deste novo disco de señor Osterberg há algum tempo. Fosse um álbum a cargo de figuras do quilate de Lou Reed, David Byrne ou David Bowie, até compreenderia o apreço por uma, digamos, empreitada cabeçuda como esta – e, justiça seja feita, os três vão muito bem, obrigado -, mas não foi esse o caso destas “preliminares”.
A comparação com Rain Dogs que proponho no primeiro parágrafo deste artigo é providencial porque muito do que Préliminaires detém parece eco do que Waits já fizera em sua carreira. Comparar a incursão de Iggy no seu pretenso universo jazzy com os trabalhos de Waits é, sim, maldade – com Waits, claro, já que ele consolidou sua carreira com um flerte direto com os sons de raiz norte-americanos enquanto que Pop construiu sua imagem exatamente flertando com os “novos sons da América” -, mas não deixa de ser um bom modo de espinafrar a bizarrice ou sandice que justifica este álbum.
A questão em torno de Préliminaires é bem simples: por que diabos o cidadão que pariu músicas como Lust for Life, No Fun ou Nightclubbing quereria parir um disco no qual canta canções como Sua Insensatez – How Insensitive, se preferir -, de Jobim? Por que, meu Deus, Iggy Pop faria algo assim? Senilidade? Piração na batatinha? A calça da Gang que ele comprou em sua última passagem pelo Brasil vinha impregnada por uma bactéria de nome Jazzy Insensatus que terminou alojada em sua empenada coluna cervical? Quando o próprio Iggy anunciou que pretendia e já estava trabalhando em um disco de Jazz e Bossa Nova um arrepio percorreu minha espinha. Não que não tivesse curiosidade em ouvir o resultado, mas, como disse, Préliminaires resulta em um disco, senão ruim até o osso, caricato.
A verdade é que Préliminaires é um disco irregular de doer e, vale aqui a piada, brochante. Vai de momentos pouco inspirados, como King of The Dogs, a momentos insuportavelmente maçantes, como How Insensitive, patinando entre altos e baixos. Préliminaires é um The Idiot sem qualquer brilho ou relevância – o disco de 1977 é notável pela autocrítica somado ao flerte com sintetizadores e à produção de David Bowie (reapresentado Iggy Pop às “novas gerações”), se transformou em espécie de refúgio “ame-o ou deixe-o” dos fãs do Iguana.
Enfim, meu receio em relação a este disco cabeçudo e chato de Iggy Pop parece derivar mesmo de meu medo aparente de que ele tivesse se rendido ao “lado negro da força” e decidido, a partir de agora, respirar os mesmos ares de Peter Gabriel, David Byrne e afins, esquecendo a matéria sobre a qual ele foi erguido: esta criatura terrível chamada rock’n'roll. Não que a relação de Pop com o rock’n'roll tenha sido de uma regularidade brilhante
Escutando, por exemplo, Sua Insensatez de Jobim fiquei imaginando Iggy Pop com um fraque, acompanhado por Gal Costa e seus ganidos, mandando ver a canção com trejeitos de um Tony Bennett com problemas de locomoção. A visão poderia, sim, figurar no meu Inferno particular, mas não a desejaria para meu pior inimigo – algum tempo depois, lendo algumas publicações especializadas, eis que surge uma imagem de señor Osterberg com o famigerado “tuxedo” com toda a classe. Vou carregar esta imagem com uma profunda amargura até meu túmulo.
No fim, sem exageros, Préliminaires parece mais a trilha sonora para um culto a Onã que a ante-sala de uma noite de hookie-wookie. Vou ali escutar mais uma vez Lust for Life e tentar recuperar a confiança dos meus neurônios no velho Iguana.
Confira o primeiro clipe de King of The Dogs:
Fotos: Michael Loccisano/Getty
Hugo Morais comentou em 7/6/2009 às 3:46 pm
Prefiro nem escutar, vai ficar como: não escutei e não gostei. hahahaha
Diego comentou em 28/6/2009 às 9:45 am
com novas enfluencias no jazz o disco fico muito bom, o primeiro clipe de King of The Dogs tem tres versões muito bacanas entao vo deixar aqui meu post.
eu ESCUTEI e gostei.
Alexandre Honório comentou em 29/6/2009 às 6:50 pm
Ninguém é perfeito, Diego. Ninguém é perfeito…
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