Por Alexis Peixoto - 25/07/2007

Se João do Rio entrasse na recente onda dos escritos mediúnicos e resolvesse retornar para fazer uma edição expandida de seu Religiões do Brasil, teria que incluir uma forma de culto religioso provavelmente pouco comum em fins do século XIX e começo do XX. É tendência do brasileiro, descobriria o dândi carioca, endeusar seus artistas favoritos, sobretudo na música.
De Chico Buarque a Renato Russo, de Humberto Gessinger a Los Hermanos – tudo que eles tocam, fazem ou falam vira oração a ser copiada no perfil do orkut e decorada para ser recitada com as mãos pra cima, em meio a outros fanáticos no culto ecumênico em que as apresentações ao vivo se transformaram. Com o súbito “recesso por tempo indeterminado” dos Loser Manos (o último grande culto musical dos anos 00), os fiéis do setor de Comunicação Social ficaram a ver navios. Sem desespero: a Orquestra Imperial e seu resgate aos bailes de gafieira de priscas eras chegou para apontar o caminho da salvação.
Antes de qualquer coisa, é preciso que fique claro que a Orquestra Imperial se aproxima como poucos do que seria o supra-sumo do descolê, a evocação máxima de um sujeito de vinte e poucos anos, sentado de pernas cruzadas em frente à janela, óculos de aro grosso, Portinari pendurado na parede, um cigarro numa piteira quilométrica e um livro do Jorge Mautner no colo. Ao fundo, toca Carnaval Só No Ano Que Vem, disco de estréia da banda. Aliás, banda não, que quem é chic não tem banda: tem projeto.
E a Orquestra é, portanto, o projeto de um punhado de músicos cariocas (entre eles, o ex -Los Hermanos (!?!?) Rodrigo Amarante, o “bebê de Rosemary” Moreno Veloso, e a atriz/cantora Thalma de Freitas) que se agregaram em meados de 2002 com o intuito reviver o espírito dos velhos e tradicionais bailes de carnaval do Rio de Janeiro.
Juntada a patota, saíram tocando o terror adoidado num repertório que tinha a moral de misturar bolerões cafonas, marchinhas clássicas e bizarrices como “Vem Fazer Glu-Glu”, de Sérgio Malandro, e “Iron Men”, do Black Sabbath (!). Isso, é preciso que se reconheça, é algo sensacional e até que tem seu charme: diversão levada a sério e ainda com um indefectível ranço de intelectualidade anárquica, pra combinar o terno com o all-star. De lá pra cá, a bola de neve só foi crescendo e eis que cinco anos de atividade e alguns EPs depois, os quase vinte componentes da Orquestra entram em estúdio pra registrar um disco cheio, só com canções autorais.
Produzido pelos Timbalands brazucas, Kassin e Bernna Ceppas – também membros da Orquestra – e pelo tarimbado Mario Caldato (Beastie Boys), Carnaval Só No Ano Que Vem subverte a lógica inicial que deu origem à Orquestra: deixamos de lado a diversão e passamos a encarar como um trabalho sério e artisticamente relevante a piada que era tão bem contada. Afinal, é esse o caminho mais fácil pra chatice, que parece ser sempre o norte a ser seguido pelos envolvidos. Basta considerar o último disco do Los Hermanos, os discos produzidos por Kassin e Bernna, e o fato do filho de Caê tocar na banda e você vai ver que não é uma tese totalmente infundada.
Não que o disco seja abominável de ruim; na verdade nem é – acontece apenas que, em 90% do tempo, fica entre o mortalmente chato, o irritantemente insípido e o puro sem graça. Tanto que, ao final das onze faixas do disco, fica aquela inegável sensação de coletânea de loja de departamentos indie (vulgo brechó). Ok, vá lá, tem bons momentos: “O Mar e o Ar”, entoada por Amarante cai bem num fim de tarde numa casa de praia, e as divertidas “Ereção”, “Ela Rebola” e “Era Bom” descem bem que é uma beleza com uma cerveja gelada e um prato de bife acebolado.
Mas até chegar nas partes boas, ainda é preciso passar por coisas abusadas como “Rue de Mes Souvenirs” cantada em francês de biquinho por Thalma de Freitas, e a forçação máxima da vontade de soar vintage em “Supermercado do Amor”, com um suspeito toque de rockinho dos anos 60. Se era pra fazer um disco que traduzisse a energia e a refestelação dos shows, a Orquestra falhou. Constatar isso ouvindo o disco, é uma conclusão óbvia; apontar o que foi que deu errado já é mais complicado.
Talvez seja a falta de espontaneidade na execução das faixas que, mesmo quando pede a galhofa (como na já citada “Ereção”), não convence com seus arranjos milimetricamente asseados e interpretações exageradas. Há quem diga que seja a insistência em soar poético quando uma simples letrinha de dor de cotovelo faria melhor o serviço (“Adoro ornar o adro dela/ ode no altar de outro/ toda hora curtindo o andor”, diz a letra de “Jardim de Alah”). Por outro lado, talvez seja a duvidosa intenção de soar engraçadinho, com forte tendência para piadas infames (“A ereção não tem hora pra chegar/ com ou sem emoção, em festa ou particular”).
Bem, todas as alternativas anteriores estão corretas, eu diria. O maior problema de Carnaval Só No Ano Que Vem é justamente o exagero em suas intenções. Quer ser divertido demais, intelectual demais e acaba sendo despretensioso e natural de menos. Acaba soando falso e sem vontade. Claro, é bem produzido, polido e tocado com a competência de sempre. Mas até aí um recital de viola elétrica de John Cale também é, e quem, em sã consciência, consegue realmente gostar disso?
Óbvio que isso tudo não quer dizer nada. O Bolsão de Previsões para o segundo semestre de 2007 indica que a Orquestra Imperial deve seguir comandando sua gafieira classe média alta a preços nada populares e Carnaval Só No Ano Que Vem deve aparecer na lista de melhores do ano de um monte de gente dita “in”. E antes que você possa dizer “Marcelo Camelo”, uma Igreja Imperial estará operando a todo vapor, pertinho de você, com cultos de segunda à sexta, sábados, domingos e feriados. Aí, amigo, um abraço. Segura na mão de Chico e vai…
Hugo Morais comentou em 26/7/2007 às 7:24 am
Rapaz, não escutei o disco, logo não posso comentar. Mas vi o show em Recife ano passado e achei muito bom. O show, não as músicas. No palco é aquela desenvoltura, não tanto como o Móveis Coloniais, mas o show é bom. Thalma de Freitas e a outra vocalista que não lembro o nome são lindas. A Thalma principalmente, a vi ao meu lado e quase que esbarro numa coluna. Mas essa banda, ou melhor, projeto, é coisa que dá e passa (ui).
Aristeu comentou em 26/7/2007 às 11:25 am
O show é bom, muito bom. O disco é um pouco menor, mas não ruim como o texto diz ser. Gosto do show e do disco, embora não leve nem um nem o outro muito a sério. Aliás, não é para levá-los a sério mesmo. Mas o artigo traz uma boa análise, embora não creia que a Orquestra vá virar culto ou igreja. Ah, uma informação: A Orquestra Imperial passou anos fazendo shows a preços bem baixos. Não sei como está hoje, mas paguei há uns dois anos algo em torno de R$ 10 para vê-los.
Elis comentou em 26/7/2007 às 12:29 pm
Acompanho a trajetória da Orquestra Imperial no Rio desde o início, quando os shows eram realizados no Ballroom, no bairro de Humaitá. Em momento algum, os fãs trataram a orquestra ou o seu trabalho como culto religioso. Nem aqueles que suspiram por Thalma de Freitas e Nina Becker fazem isso.
Também nunca houve uma pretenção intelectual nos moços, o clima e toda mis en scene sempre buscou está perto da galhofa dos blocos de carnaval. Quem já saiu num dos blocos de rua do Rio (sem cordões, sem abadás caros, sem exclusão, gratuitos)- e conhece bem os shows da Orquestra – sabe do que estou falando.
Quem dera Natal, minha cidade querida, tivesse uma “patota” assim para o país poder colocar nos seus aparelhos de MP3 ou nos Ipods elitistas.
Vale lembrar que os shows da Orquestra estão sempre entre os mais acessíveis do Rio (especialmente para estudantes). O último, no Circo Voador, custou R$ 20 (para estudantes e idosos).
Você já teve a oportunidade de assistir a um show deles?
Acho que os poucos moços e moças da Comunicação Social que levam a profissão a sério não escreveram uma única linha sem no mínimo pôr os pés no velho Ballroom, Circo Voador e demais locais onde a “patota” se apresentou.
Alexandre Honório comentou em 26/7/2007 às 1:24 pm
Mas vocês, cariocas, são muito mal humorados…
Nã…
kkkkkkkkkkkkkkk….
ortega comentou em 26/7/2007 às 4:47 pm
pior q eu pensei nisso do nada tb: esse cd é típico de banda q cobra ingresso caro hahaha
João Paulo comentou em 26/7/2007 às 7:50 pm
Concordo plenamente com Peixoto. Tentei ouvir o disco (por indcação) mas ele começou e terminou e eu não percebí. Também sou de Natal e quero deixar registrado que não falta espaço p/ esse tipo de som Indi, metido a despretencioso e intelectual por aqui, basta ver as bandas que estavam no M.A.D.A. este ano. Tsc, Tsc…
Abraço.
Elis Galvão comentou em 31/7/2007 às 9:48 am
Estava de férias em Natal durante o Mada. Quais são as bandas de Natal (novas) que estavam no festival com esse “som indi, metido a despretencioso e intelectual”? Gostaria muito de conhecê-las para poder divulgar dos lados de cá.
=)
Fábio Farias comentou em 9/11/2007 às 6:00 am
Concordo em parte com você, Alexis. O CD de estréia do Orquestra Imperial, para mim, não soou tão falso como você coloca. É um CD que, com exceção de algumas músicas, passa desapercebido. “Ereção” é o ponto alto, divertida, “gingada”, me faz lembrar os eternos e chatíssimos churrascos com a família que, se não fosse a cerveja gelada, seriam infrequentáveis.
Sobre o culto aos hermanos e seus (ex) componentes, me rendeu boas risadas. E, apesar de gostar da banda carioca, sou obrigado a concordar com o que foi colocado.
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