Musicofilia

O Diabo é seis, Deus é sete e lá se vão 20 anos de Doolittle

Por Alexandre Honório - 01/09/2009

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O final da década de 1980 foi definitivamente um período esquisito. O ano de 1989 foi um verdadeiro bota-fora em muitos aspectos: sejam estes políticos, econômicos ou culturais, a verdade é que pouco permaneceu inalterado a partir daquele ano. No âmbito da música, como acontecera anteriormente em diversos momentos da história recente da música pop, os dois lados do Atlântico pareciam interpretar os humores daquela geração de maneiras distintas e o cenário independente parecia ser uma das promissoras instâncias em que se dava tal interpretação.

Assim, se na Grã-Bretanha os filhos da Rainha requebravam ao som de grupos como Happy Mondays ou Stone Roses, do outro lado do oceano a música parecia seguir um ritmo de transformações não muito diferente – mesmo não existindo muito pelo que comemorar ou celebrar. Era para uma geração de norte-americanos reféns do conformismo e da apatia herdadas de uma década confusa social e politicamente que bandas como R.E.M., The Replacements, Pixies e Husker Dü cantavam. Cantavam, sobretudo, procurando atiçá-la: como quem procura com um pedaço de qualquer coisa fazer com que uma fagulha se transforme em algo maior.

O ano de 1989 foi, assim, não por acaso, o ano em que os Pixies e a fúria traiçoeira de seu segundo disco, Doolittle, tomaram de assalto o cenário independente norte-americano ecoando perversões surrealistas à Buñuel (Debaser), flertes metafóricos sanguinários (I Bleed) e canções, em um só tempo, deliciosas, cativantes e assustadoras (Here’s Comes Your Man, Wave of Mutilation). Completados vinte anos de seu lançamento, o disco é indiscutivelmente uma das melhores expressões de um momento musical único. Os Pixies cunharam um álbum simbólico, satírico e ao mesmo tempo um trabalho que traduz as angústias de um período de intensas transformações sociais e estéticas.

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Buñuel, paranóia e o bom e velho "quiet-loud" dão o tom deste disco

Doolittle surge envolto por um misto de conseqüência e desconstrução em relação ao trabalho anterior da banda – o igualmente indispensável Surfer Rosa. A idéia de faixas que surgem em completa contenção e que tomam um rumo inesperado para em seguida explodirem furiosamente diante do ouvinte (Debaser, Hey e Gouge Away são alguns exemplos) marcam Doolittle de uma ponta a outra do disco – não por acaso, menos de dois anos depois de seu lançamento, Kurt Cobain levaria tal lição ao seu limite com Nevermind.

Frank Black (ou Black Francis) adota esta mesma dinâmica na composição de suas canções: em Doolitlle convivem em uma inquietante harmonia letras ora densas e sombrias com outras ora embaladas pelo mais grudento pop. Há uma atmosfera de conflito, de inquietação até, que embala e comanda a estrutura do disco. Doolittle exibe conflito porque é nele que se encerram seus propósitos estéticos: um álbum que parece procurar uma linha de transição entre ordem e caos.

A desordem é um dos muitos temas que passeiam por Doolittle: seja ela social, amorosa ou religiosa, é sobre tal signo que o disco se equilibra. Quando Black abre o álbum cantando um estranho sentimento depois de uma sessão de Um Cão Andaluz de Buñuel e a vibração incontida quando o fio da navalha talha o olho da “mocinha” (novamente, Debaser), isso parece ao mesmo tempo tentativa de reconhecimento e representação metafórica. Um reconhecimento que se traduz de modo semelhante em faixas como Tame ou Monkey Gone to Heaven. Para uma geração que ficaria reconhecida por seu “slacker way of life”, Doolittle ingressa na contramão dessa perspectiva com canções que podem ser compreendidas como antídotos para o marasmo que imperava, procurando desmontar tal atitude e demonstrando nuances possíveis desta mesma geração.

Assim, completados seus vinte anos em abril último, não é mero acaso que Doolittle seja o cerne de uma turnê dos Pixies procurando celebrar seu surgimento, quando o disco é executado em sua totalidade para fãs que, como a banda, sobreviveram aos percalços daqueles resquícios de uma década perdida e, no meio da confusão que se anunciava a seguir, descobriram que “se o Diabo é seis/então Deus é sete” e, portanto, a salvação não é tão complicada.

Não sei vocês, mas, desde sempre, este é o disco dos Pixies que seguramente levaria no caixão…

5 Comentários para “O Diabo é seis, Deus é sete e lá se vão 20 anos de Doolittle

gabriel comentou em 7/9/2009 às 9:48 pm

Só por curiosidade, depois que li o post, fiquei pensando em alguns discos de 89 e cacei umas listas pra me refrescar a memória. Aí realmente eu vi que aquele ano realmente rendeu alguns coisas ótimas como:

Lou Reed – New York
The Cure – Disintegration
The Jesus and Mary Chain – Automatic
Neil Young – Freedom
Chris Isaak – Heart Shaped World
Mudhoney – Mudhoney
Mark Lanegan – The Winding Sheet

Mas voltando ao assunto. O Doolitle nem é meu favorito do Pixies – prefiro Bossa Nova e Surfer Rosa -, mas é de longe o mais importante, pq foi o álbum que disse pra onde ia o tal do rock alternativo a partir de então.

boas lembranças Gabriel, eu também citaria o primeiro do Nirvana (Bleach)e o do Stone Roses (The Stone Roses) Mother´s Milk do RHCP.
Parece que 1989 foi mesmo um ano fundamental.

[...] 20 ANOS DE DOOLITTLE NO DISRUPTORES [...]

gabriel comentou em 13/9/2009 às 8:23 pm

ah sim Pablo, bem lembrado o Stones Roses. Fundamental tb.

Einstein Rocha comentou em 22/9/2009 às 6:45 am

É o meu disco de cabeceira, tenho um apreço especial por esse disco. Sem falar no trabalho gráfico maravilhoso das fotos de Simon Larbalestier, que eu também sou fã.Paco-pico-piedra!!!

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