Por Alexis Peixoto - 14/11/2007

Projetos paralelos de músicos vindos de bandas já conhecidas e aprovadas por público e crítica costumam transitar perigosamente entre o muito massa e o constrangimento geral dos fãs e envolvidos. A maioria não passa do primeiro álbum – ou single – e acaba virando curiosidade disputada a tapa em sebos e sites de leilão on-line.
Pra não me deixar mentir, taí aquele disco do Mad Season que dizem que vale uma fortuna e até hoje tentam me convencer de que é bom. Em raras ocasiões, porém, o passatempo pode até gerar uma carreira sólida e paralela, tão respeitável quanta a da banda de origem. O Autumn Defense é um desses casos. Encabeçado por dois membros do Wilco, o grupo chega invicto ao seu terceiro disco de estúdio, auto-intitulado.
Via de regra, existem basicamente dois caminhos a serem seguidos se tratando de projetos paralelos. Há aqueles que dão vazão aos sentimentos – de saco cheio – e escolhem uma direção radicalmente oposta à banda de origem (Exemplo prático: os discos de música eletrônica de Edgard Scandurra); e há os que preferem não se afastar muito das asas da banda-mãe e apostam em uma sonoridade semelhante (Exemplo prático: todas as bandas montadas por todas as pessoas que já tocaram no Weezer e não são Rivers Cuomo). John Stirratt e Pat Sansone sabem muito bem que com uma figura do quilate de Jeff Tweedy não se brinca e, pelo sim, pelo não, resolveram pegar a muito mais segura segunda estrada.
Um Wilco menos amargo, menos virulento e menos experimental – à guisa de comparação, esta poderia ser uma boa definição para o som do Autumn Defense. Tanta coisa a menos, é bom frisar, está longe de deixar a banda com cara de bunda mole. Tudo bem, aqui não há solos rasgados e tortos à Neil Young; não há explosões melódicas nem epílogos ruidosos; não há fantasmas de anti-depressivos, nem hiper-closes em relacionamentos fracassados. Acontece que Stirratt e Sansone já lidam com isso de sobra em seu emprego diurno. Enquanto estão fora de casa, preferem apostar em um bucolismo tardio e nostalgias amorosas juvenis, mantendo a influência do velho mestre canadense, matreiramente trocando o Crazy Horse pelos Stray Gators. Ao clima caipira some um toque elegante de pop vintage setentista e soft-rock – Wings? Cat Stevens? – e algumas incursões discretas pela bossa nova de gringo. Não tenha dúvidas: funciona que é uma beleza.
Multi-instrumentistas, os dois senhores assinam todas as faixas e arranjos em co-autoria. Sansone, que antes de entrar no Wilco já havia produzido discos do ex-hype Josh Rouse, assumiu com naturalidade os botões e deu aquele tratamento cristalino e delicado que as canções pedem. Dá pra ouvir com tranqüilidade os violões, órgãos Hammond, sopros, pianos e percussões que preenchem cuidadosamente cada faixa. Stirrat, ao que parece, ficou encarregado das letras. Sobrevivente das sucessivas degolas de músicos promovidas por Jeff Tweedy ao longo dos anos, o sujeito ás vezes peca pelo excesso de ingenuidade e romantismo de veraneio (“We Would Never Die” deixaria Macca orgulhoso), mas nada que não seja perdoado depois dos primeiros acordes.
Muita gente vem dizendo que o novo do Autumn Defense pode tirar de Sky Blue Sky, do Wilco, o posto de melhor álbum de 2007. Bobagem. Há espaço suficiente para que as duas bolachas convivam pacificamente nas listinhas de fim de ano dos críticos descolados. E sem dar brecha para bronca do chefão Tweedy.
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