Por Alexis Peixoto - 04/05/2007

Tradicionalmente, o primeiro dia de um festival de música independente– desses que alternam “grandes nomes da nossa música” com “novos talentos não descobertos” – nunca é um lugar muito confortável para se estar, quer você seja artista ou platéia. Acentue isso se a festa estiver marcada para começar num dia de semana e sem sombra de feriadão a vista. Na grande maioria dos casos a saída encontrada pela produção é salpicar a programação indie de nomes desconhecidos, mas com aquele potencial para agradar que pode dar crédito de “descobridor” ao festival, e fechar a noite com headliners que não desagradariam nem com o mais horrendo dos playbacks. E tal e qual foi a noite de 3 de maio, quinta-feira, dia útil, primeira noite da 9ª Edição do MADA: “indies lado Ç” tentando desesperadamente se fazer notar, mais Paralamas do Sucesso e Nação Zumbi fechando a noite de forma apoteótica.
Surpreendentemente, a coisa começou de forma pontual este ano. Pontual até demais, diga-se. Quando a local Baby Please subiu ao palco, os portões de entrada sequer haviam sido abertos, o que os deixou sem alternativa a não ser começar a tocar, mesmo sem a presença do público madrugador que aparecera para vê – los (leia-se amigos e familiares).
O que começou como um desastre certo terminou num show bastante bom que só serviu para acentuar ainda mais a discrepância de escalar os mato-grossenses da Claudia’s Parachutes para o horário seguinte. Depois da terceira música, parece que bateu um constrangimento momentâneo na banda ao notar a frieza com que aquele rock ora delicado, ora barulhento e clichezento em tempo integral era recebido pelo público ainda diminuto, que esperava ver uma série de propostas diferentes, menos aquela – pelo menos não àquela hora. Superado isso, desceram o braço nos instrumentos e seguiram tocando para si mesmos, com uma competência que se fosse vertida em criatividade, faria deles uma grande banda em qualquer lugar.
Depois da confusão noise e do show-tributo à Elino Julião (que, longe de se sentir homenageado de onde quer que esteja, deve ter reservado um olhar de esguela para aquela maçaroca sonora que teimava em querer “modernizar o passado”), veio a segunda banda local da noite, a estreante Cabozó. Aproveitando o clima e refinando o clima que o show anterior tentara criar, o quarteto decorou a beira do palco com bandeirinhas de São João e, de sandálias de couro nos pés, fez o primeiro show de boa recepção de público da noite, deixando no ar duas alternativas: ou os caras realmente têm público cativo em algum lugar da cidade, ou o rock junino é o estilo sonoro mais contagiante desde a macarena. Por volta da metade do show, já era possível ver boa parte do público respondendo aos refrões e/ou tentando dançar. Apesar da via musical oposta, a Orquestra Boca Seca soube aproveitar o calor deixado pelo Cabozó e segurou a onda por um bom tempo com seu funk-rock sambado, filhote legítimo de mundo livre s/a, Jorge Ben e todas essas coisas que caíram no gosto da burguesia malandra, universitária e boêmia. Fizeram um bom show e mostraram que têm competência e apelo suficiente para saltar fora do circuito “litorâneo noturno” da cidade, considerando, claro, que eles só tocaram por meia hora e qualquer fração de segundo além disso tornaria a sensação de satisfação auditiva praticamente inverossímil.
O início do show da carioca Reverse poderia ser assinalado, como o início da segunda parte da noite. O relógio já batia onze e pouca coisa, o público já havia se decidido a aparecer, as filas dos banheiros já assumiam um tamanho familiar nesse tipo de evento e o tradicional bloco das figuras bizarras já deslizava ladeira abaixo e acima de novo. Em suma, finalmente a Arena do Imirá ficava com cara de Festival. E justo naquela hora, como que pra anular aquela vontade de ficar acordado até de manhã que sorrateiramente vinha se anunciando, somos todos presenteados com o show mais sem graça da noite. Verdadeiro mash-up de tudo que já apareceu no pop brasileiro nos últimos cinco anos (Los Hermanos, Ludov, Gram, etc) a Reverse conseguiu arrancar bocejos sem esforço algum. Nem uma versão de “Eleanor Rigby” ou uma rápida citação ao Radiohead – possíveis tentativas de acordar a platéia na base do “Ei, olha o que eu sei fazer!” – despertaram algum interesse.
Situação diferente da paraense Madame Saatan que conferiu o toque de comédia involuntária que faltava na programação, com sua cruza de ritmos tradicionais paraenses e rock duro. Serviu como lição para todos os nordestinos que reclamam de guitarras misturadas com baião. Lembrem-se sempre, crianças: podia ser bem pior.A entrada de Nêguedmundo na seqüência – a troca entre as bandas era feita num tempo média de dois minutos – foi como um alívio imediato. Tocando com o melhor som da noite dentre os independentes, o artista executou muito bem seu set, calcado em dub, reggae e black music. Durou exatamente o que tinha que durar e, quando acabou, ninguém sentiu falta de algo a mais ou a menos.
E então, Paralamas. Algumas coisas já se sabiam de antemão: 1) boa parte do – agora sim – numeroso público havia aparecido só para vê –los; 2) experientes como são, os caras tinham plena consciência disso e não pretendiam desvalorizar o dinheiro dos fãs; e 3) a coisa simplesmente não tinha como dar errado. E, de fato, não deu. Nem a visível fisionomia de piloto automático estampada na cara de Herbet Vinna & cia., foi capaz de impedir a massa humana de pular, cantar com os braços pra cima, fechar os olhos e dançar. Durante mais de duas horas de show e com incontáveis falsos finais, a banda parecia provocar o fã, forçando-o a puxar pela memória qual hit ainda não havia sido tocado e qual viria a seguir. Na dúvida, vieram todos. E os fãs puderam ir trabalhar no dia seguinte, de ressaca, mas satisfeitos.Após a maratona oitentista, a quantidade de pessoas previsivelmente afunilou, mas ainda permaneceu significativa para ver a Nação Zumbi. A recepção calorosa e a grandiosa e arrepiante ovação aos primeiros acordes de “Hoje, Amanhã e Depois” servem como prova cabal de que a Nação não é mais a banda de Chico Science, tampouco se enquadra na nefasta e defunta alcunha de “mangue beat”. Ali estava uma banda reinventada, que não precisaria aludir da forma mais discreta possível à sua encarnação anterior para ser reconhecida como – ainda – a coisa mais inventiva saída das fileiras nacionais nos últimos dez anos. Tocar “Macô”, “A Praeira” ou “Manguetown” nada mais é do que uma formalidade, um protocolo em vias de cair em desuso. O próximo show da Nação por aqui, quer seja na semana que vem, ou daqui a uma década, virá desprovido de burocracia e de migalhas para os desavisados.
E, entre maus e bons bocados, chega-se ao fim da noite.
( * Clique nas Imagens ao longo do texto para ampliá-las)
Hugo Morais comentou em 4/5/2007 às 2:15 pm
Pra mim só valeu a noite o Baby Please, o Cabozó e a Nação. O pedaço que vi. Achei fraco. E hoje com essa chuva…
Satã comentou em 5/5/2007 às 10:39 am
Essas bandas que ficam usando O nome da minha mãe em vão… queimarão ainda mais no mámore do inferno! RÁ!
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