Musicofilia

MADA 2007: VIAGEM AO FIM DA NOITE (Crítica: Quinta-Feira)

Por Alexis Peixoto - 04/05/2007

topdsc_7375.jpg

Tradicionalmente, o primeiro dia de um festival de música independente– desses que alternam “grandes nomes da nossa música” com “novos talentos não descobertos” – nunca é um lugar muito confortável para se estar, quer você seja artista ou platéia. Acentue isso se a festa estiver marcada para começar num dia de semana e sem sombra de feriadão a vista. Na grande maioria dos casos a saída encontrada pela produção é salpicar a programação indie de nomes desconhecidos, mas com aquele potencial para agradar que pode dar crédito de “descobridor” ao festival, e fechar a noite com headliners que não desagradariam nem com o mais horrendo dos playbacks. E tal e qual foi a noite de 3 de maio, quinta-feira, dia útil, primeira noite da 9ª Edição do MADA: “indies lado Ç” tentando desesperadamente se fazer notar, mais Paralamas do Sucesso e Nação Zumbi fechando a noite de forma apoteótica.

baby pleas
Baby Please (RN)

Surpreendentemente, a coisa começou de forma pontual este ano. Pontual até demais, diga-se. Quando a local Baby Please subiu ao palco, os portões de entrada sequer haviam sido abertos, o que os deixou sem alternativa a não ser começar a tocar, mesmo sem a presença do público madrugador que aparecera para vê – los (leia-se amigos e familiares).

Claudias
Claudia´s Parachutes (MT)

O que começou como um desastre certo terminou num show bastante bom que só serviu para acentuar ainda mais a discrepância de escalar os mato-grossenses da Claudia’s Parachutes para o horário seguinte. Depois da terceira música, parece que bateu um constrangimento momentâneo na banda ao notar a frieza com que aquele rock ora delicado, ora barulhento e clichezento em tempo integral era recebido pelo público ainda diminuto, que esperava ver uma série de propostas diferentes, menos aquela – pelo menos não àquela hora. Superado isso, desceram o braço nos instrumentos e seguiram tocando para si mesmos, com uma competência que se fosse vertida em criatividade, faria deles uma grande banda em qualquer lugar.

dsc_7097_small.jpg
Tributo à Elino Julião

Depois da confusão noise e do show-tributo à Elino Julião (que, longe de se sentir homenageado de onde quer que esteja, deve ter reservado um olhar de esguela para aquela maçaroca sonora que teimava em querer “modernizar o passado”), veio a segunda banda local da noite, a estreante Cabozó. Aproveitando o clima e refinando o clima que o show anterior tentara criar, o quarteto decorou a beira do palco com bandeirinhas de São João e, de sandálias de couro nos pés, fez o primeiro show de boa recepção de público da noite, deixando no ar duas alternativas: ou os caras realmente têm público cativo em algum lugar da cidade, ou o rock junino é o estilo sonoro mais contagiante desde a macarena. Por volta da metade do show, já era possível ver boa parte do público respondendo aos refrões e/ou tentando dançar. Apesar da via musical oposta, a Orquestra Boca Seca soube aproveitar o calor deixado pelo Cabozó e segurou a onda por um bom tempo com seu funk-rock sambado, filhote legítimo de mundo livre s/a, Jorge Ben e todas essas coisas que caíram no gosto da burguesia malandra, universitária e boêmia. Fizeram um bom show e mostraram que têm competência e apelo suficiente para saltar fora do circuito “litorâneo noturno” da cidade, considerando, claro, que eles só tocaram por meia hora e qualquer fração de segundo além disso tornaria a sensação de satisfação auditiva praticamente inverossímil.

dsc_7246_small.jpg
Reverse (RJ)

O início do show da carioca Reverse poderia ser assinalado, como o início da segunda parte da noite. O relógio já batia onze e pouca coisa, o público já havia se decidido a aparecer, as filas dos banheiros já assumiam um tamanho familiar nesse tipo de evento e o tradicional bloco das figuras bizarras já deslizava ladeira abaixo e acima de novo. Em suma, finalmente a Arena do Imirá ficava com cara de Festival. E justo naquela hora, como que pra anular aquela vontade de ficar acordado até de manhã que sorrateiramente vinha se anunciando, somos todos presenteados com o show mais sem graça da noite. Verdadeiro mash-up de tudo que já apareceu no pop brasileiro nos últimos cinco anos (Los Hermanos, Ludov, Gram, etc) a Reverse conseguiu arrancar bocejos sem esforço algum. Nem uma versão de “Eleanor Rigby” ou uma rápida citação ao Radiohead – possíveis tentativas de acordar a platéia na base do “Ei, olha o que eu sei fazer!” – despertaram algum interesse.

dsc_7305_small.jpg
Madame Saatan (PA)

Situação diferente da paraense Madame Saatan que conferiu o toque de comédia involuntária que faltava na programação, com sua cruza de ritmos tradicionais paraenses e rock duro. Serviu como lição para todos os nordestinos que reclamam de guitarras misturadas com baião. Lembrem-se sempre, crianças: podia ser bem pior.A entrada de Nêguedmundo na seqüência – a troca entre as bandas era feita num tempo média de dois minutos – foi como um alívio imediato. Tocando com o melhor som da noite dentre os independentes, o artista executou muito bem seu set, calcado em dub, reggae e black music. Durou exatamente o que tinha que durar e, quando acabou, ninguém sentiu falta de algo a mais ou a menos.

dsc_7368_small.jpg
Paralamas do Sucesso (RJ)

E então, Paralamas. Algumas coisas já se sabiam de antemão: 1) boa parte do – agora sim – numeroso público havia aparecido só para vê –los; 2) experientes como são, os caras tinham plena consciência disso e não pretendiam desvalorizar o dinheiro dos fãs; e 3) a coisa simplesmente não tinha como dar errado. E, de fato, não deu. Nem a visível fisionomia de piloto automático estampada na cara de Herbet Vinna & cia., foi capaz de impedir a massa humana de pular, cantar com os braços pra cima, fechar os olhos e dançar. Durante mais de duas horas de show e com incontáveis falsos finais, a banda parecia provocar o fã, forçando-o a puxar pela memória qual hit ainda não havia sido tocado e qual viria a seguir. Na dúvida, vieram todos. E os fãs puderam ir trabalhar no dia seguinte, de ressaca, mas satisfeitos.Após a maratona oitentista, a quantidade de pessoas previsivelmente afunilou, mas ainda permaneceu significativa para ver a Nação Zumbi. A recepção calorosa e a grandiosa e arrepiante ovação aos primeiros acordes de “Hoje, Amanhã e Depois” servem como prova cabal de que a Nação não é mais a banda de Chico Science, tampouco se enquadra na nefasta e defunta alcunha de “mangue beat”. Ali estava uma banda reinventada, que não precisaria aludir da forma mais discreta possível à sua encarnação anterior para ser reconhecida como – ainda – a coisa mais inventiva saída das fileiras nacionais nos últimos dez anos. Tocar “Macô”, “A Praeira” ou “Manguetown” nada mais é do que uma formalidade, um protocolo em vias de cair em desuso. O próximo show da Nação por aqui, quer seja na semana que vem, ou daqui a uma década, virá desprovido de burocracia e de migalhas para os desavisados.

E, entre maus e bons bocados, chega-se ao fim da noite.

( * Clique nas Imagens ao longo do texto para ampliá-las)


MAIS FOTOS DA QUINTA-FEIRA
(Fotos: Kênia Castro)

2 Comentários para “MADA 2007: VIAGEM AO FIM DA NOITE (Crítica: Quinta-Feira)

Hugo Morais comentou em 4/5/2007 às 2:15 pm

Pra mim só valeu a noite o Baby Please, o Cabozó e a Nação. O pedaço que vi. Achei fraco. E hoje com essa chuva…

Satã comentou em 5/5/2007 às 10:39 am

Essas bandas que ficam usando O nome da minha mãe em vão… queimarão ainda mais no mámore do inferno! RÁ!

Deixe seu Comentário

16/08/2010

Decadência e redenção de um herói por Miller e Mazzucchelli

Por Alexandre Honório

O que torna uma história em quadrinhos fundamental? Equilíbrio entre trama e traço aliado ao talento por trás deles. É isso que transforma Demolidor: A Queda de Murdock em um clássico do gênero e o coloca entre as principais criações da década de 1980 e dos quadrinhos mundiais. Criada por Frank Miller e ilustrada por [...]

[+] Leia Mais

05/08/2010

O brilho e glamour dos monstros de Palahniuk

Por Alexandre Honório

A primeira cena de Monstros Invisíveis poderia ser descrita como o cruzamento entre Scarface, Carrie – A Estranha e Quatro Casamentos e Um Funeral: uma garota, em um vestido de noiva completamente destruído, empunha no alto de uma escadaria um fuzil enquanto, diante dela, aos pés desta mesma escadaria, enquanto tudo ao redor grita em [...]

[+] Leia Mais

16/06/2010

Um conto assustador sobre um atlante com asas nos pés

Por Alexandre Honório

Namor, o Príncipe Submarino, nunca foi um dos meus personagens favoritos. Qualquer personagem que, submarino, traz asas adornando seus pés é no mínimo um absurdo, não? Correto. Porém, devo morder a língua quando o assunto é Namor: As Profundezas, encadernado com o personagem que está atualmente nas bancas de revistas. A edição caprichada faz jus [...]

[+] Leia Mais
BuscaPé, líder em comparação de preços na América Latina

2007 ® Todos os Direitos Reservados

Todos os textos deste website possuem registro Creative Commons License.

DZ3 Design